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Grandes romances (17)

por Pedro Correia, em 17.08.14

 

 

FRÁGIL COMO  O MUNDO

O Adeus às Armas, de Ernest Hemingway

 

«Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.»

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

O amor é um bálsamo, mas nem ele pode redimir os homens da loucura da guerra. Um escritor que se proclamava em permanente «revolta contra a morte», como Ernest Miller Hemingway (1899-1961), experimentou isso na pele. Ainda não tinha completado 19 anos quando testemunhou os efeitos devastadores da frente de batalha austro-italiana, onde se encontrava como condutor voluntário do serviço de ambulâncias da Cruz Vermelha Americana. Era um dos palcos mais mortíferos da Grande Guerra, com o exército austríaco reforçado por divisões alemãs que tinham sido deslocadas da frente russa pouco antes, em consequência do tratado de paz assinado em Brest-Litovsk: Lenine decidira retirar o seu recém-implantado regime bolchevista da "guerra capitalista" travada pelas potências que em breve repartiriam os despojos de três impérios.

Este sangrento conflito, selado com cerca de 20 milhões de mortos, destruiu nações, valores, concepções do mundo. E também os últimos vestígios do idealismo ainda associado às guerras. Tanques, aviação, submarinos, metralhadoras, lança-chamas, gás químico: a tecnologia mais sofisticada foi posta aqui pela primeira vez ao serviço do mal, fazendo regredir a civilização para patamares nunca experimentados de sofrimento, destruição e morte.

 

Hemingway encontrava-se há um mês em solo italiano quando recebeu os estilhaços do rebentamento de um obus a que escapou por pouco. Um grave ferimento na rótula força-o a três meses de internamento hospitalar -- primeiro em Turim, depois em Milão -- onde experimenta a mesma sensação de fragilidade e desamparo partilhada nesses tempos por milhões de seres humanos. Foi o primeiro norte-americano vítima de ferimentos de guerra em Itália, acabando condecorado por isso: no Ospedale Maggiore da Cruz Vermelha, situado a curta distância da Catedral de Milão, extraíram-lhe 227 estilhaços da perna direita.

Sobreviverá, pagando um preço elevadíssimo: a guerra nunca sairá dele e torna-se, nas suas múltiplas figurações, num dos ingredientes fundamentais da sua obra literária.

«Napoleão ensinou Stendhal a escrever», costumava dizer o romancista, galardoado em 1954 com o Nobel da Literatura. Podia aplicar este princípio a si próprio, devidamente adaptado às circunstâncias históricas. A Grande Guerra -- em que participaram escritores tão diversos como Céline, Jünger, Henri Barbusse, John Dos Passos, Eric Maria Remarque, Blaise Cendrars, Henri de Montherland, Alain-Fournier, Apollinaire, D'Annunzio, C. S. Lewis, T. E. Lawrence, Tolkien, Bernanos, Maugham, Jean Giono, e. e. cummings, Robert Graves, Raymond Chandler e Jaroslav Hasek -- foi um extraordinário viveiro de experiências que se reflectiria em romances como Tempestades de Aço (Jünger), Le Feu (Barbusse), Goodbye to All That (Graves) e esse assombroso libelo antibélico que é A Oeste Nada de Novo (Remarque).

 

O jovem desmobilizado que embarcou para Nova Iorque em Janeiro de 1919, no rescaldo da carnificina europeia, não era o mesmo que fizera o rumo inverso sete meses antes. Tomara consciência da sua própria mortalidade. E decidira tornar-se escritor para fugir a esse estigma. Fiel ao lema que adoptara: só escrever sobre aquilo que conhecia bem.

De um longo período de maturação que se prolongou por quase uma década resultou aquele que muitos consideram o melhor romance ambientado na I Guerra Mundial. Hemingway começou a escrevê-lo a 1 de Março de 1928, no seu apartamento da Rue Notre-Dame des Champs, em Paris, e terminou-o em 22 de Janeiro do ano seguinte, na residência de Key West, Florida. Foram meses submetido a uma rigorosa disciplina de escrita: todas as manhãs relia o que redigira na véspera e não abandonava o posto de trabalho sem sentir que a história progredia.

Assim nasceu O Adeus às Armas. «Mais do que um grande romance, é um dos mais belos romances de amor que jamais se escreveram -- elevando-se tão alto, e tão dilacerante, como Tristão e Isolda», assinalou em prefácio o escritor Adolfo Casais Monteiro, tradutor português da obra (disponível em edição Livros do Brasil, embora eu recorra à da Ulisseia lançada em 1982). Outro conhecido prefaciador, Drieu la Rochelle, apresentou-o aos leitores franceses em 1938 com estas palavras certeiras: «Um verdadeiro escritor é aquele que conhece demasiado bem as coisas para falar delas, portanto transforma esse conhecimento em escrita.»

 

 Helen Hayes e Gary Cooper no filme O Adeus às Armas, de Frank Borzage (1932)

 

Enquanto escrevia, cheio de energia criadora, Hemingway foi confrontado com acontecimentos da sua vida privada que o marcariam, contribuindo para acentuar a dimensão trágica do romance que tinha entre mãos: o suicídio do pai e a gravidez de risco da mulher, Pauline, de que resultaria o nascimento do filho Patrick, numa cesariana de emergência.

Escrito na primeira pessoa do singular, para lhe acentuar a dimensão de testemunho, O Adeus às Armas abre com um dos mais famosos parágrafos da literatura norte-americana, cheio de aliterações e conjunções copulativas -- exemplo fidedigno da arte de Hemingway, cultor de «uma nova prosa para reflectir uma nova época», sem as pomposidades e os efeitos gongóricos do passado:

«Para o fim do Verão daquele ano vivíamos numa aldeia que, para lá do rio e da planície, confrontava as montanhas. No leito do rio havia seixos e pedregulhos secos e brancos ao sol e a água clara corria suavemente pelos canais. Passavam tropas em frente da casa e desciam a estrada, e a poeirada que levantavam cobria as folhas das árvores. Os troncos das árvores estavam também cobertos de pó e as folhas caíram cedo naquele ano e víamos as tropas marchando pela estrada fora e o pó que se levantava e as folhas levantadas pela brisa caíam sobre os soldados em marcha e depois a estrada deserta e branca sem nada além das folhas.»

Era uma calma ilusória. E aquele cenário de secura era ilusório também: a chuva percorre todo o romance -- do capítulo inicial até às magoadas linhas finais, cobrindo tudo de lama como numa praga bíblica.

E é ainda a Bíblia claramente sugerida na relação apaixonada entre o tenente norte-americano Frederic Henry e a inglesa Catherine Barkeley, numa evidente transplantação do mito do Jardim do Éden para a Itália ensanguentada -- recriação muito livre da fulgurante e malograda ligação do futuro escritor hospitalizado na Via Alessandro Manzoni, em Milão, à bela enfermeira Agnes von Kurowsky, norte-americana filha de um alemão, nascida sete anos antes de Hemingway.

Conseguirá o amor superar os traumas da guerra?

Na vida real não foi assim: Agnes pôs fim ao breve idílio, consciente da diferença de idades e da personalidade instável do jovem que esteve prestes a perder a perna. Viram-se pela última vez em Dezembro de 1918, quando estavam ainda acesas todas as ilusões e ambos pensavam casar-se nos Estados Unidos. Muitos anos depois, ela diria que tudo não passou de um fugaz derriço de juventude. Mas as cartas dela para ele, hoje depositadas na Biblioteca Kennedy, demonstram o contrário.

E, de algum modo, O Adeus às Armas também.

 

Inscrita na melhor tradição do romance norte-americano -- caracterizado pela sua vitalidade e pela crença nas virtudes individuais como meio de superar problemas colectivos, bem patente em autores como Melville e Twain -- mas rompendo com as formas clássicas, esta obra sobre o amor e a morte em cenário de guerra é uma magnífica reflexão sobre o destino do homem sobre a terra, consciente da sua finitude mas lutando como Sísifo contra ela. Sem ignorar que está condenado ao fracasso. E que, tal como Adão, permanecerá longe do paraíso.

«Quando as pessoas defrontam o mundo com tanta coragem, o mundo só pode quebrá-las matando-as, e por isso, é claro, mata-as. O mundo quebra toda a gente, e depois muitos ficam mais fortes no lugar da fractura. Mas àqueles que não consegue quebrar mata-os. Mata os muito bons, os muito doces, os muito corajosos, imparcialmente.» (p. 268)

São páginas que se revisitam sempre com emoção: os diálogos tensos entre os militares antes de uma ofensiva inimiga (com linguagem considerada obscena para a época); a desastrosa retirada de Caporetto, nada lisonjeira para o exército italiano, numa prosa tão vívida que levou Mussolini a proibir o livro, só editado em Itália após a II Guerra Mundial; a despedida dos amantes à porta de um hotel de Milão, numa noite tempestuosa; a fuga para a Suíça neutral, a bordo de um pequeno barco a remos, também debaixo de chuva copiosa.

Editado em 27 de Setembro de 1929 -- um mês antes do crash da Bolsa de Nova Iorque --, O Adeus às Armas foi um êxito imediato. Quatro meses depois, tinham sido vendidos 80 mil exemplares. Em 1961, ano do suicídio de Hemingway, o número subira para 1,4 milhões. Entretanto haviam deflagrado muitas outras guerras. Incluindo a maior de sempre, que mergulhou o mundo na idade atómica.

«Palavras abstractas como "glória", "honra", "coragem" ou "santidade" tornavam-se obscenas comparadas aos nomes concretos das aldeias, aos números das estradas, aos nomes dos rios, aos números dos regimentos e às datas.» (p. 200) 

 

Este romance, escrito precisamente a meio do intervalo entre as duas guerras mundiais, tem ainda um carácter premonitório raras vezes sublinhado pela crítica. O filho que não chega a nascer funciona como metáfora da esperança adiada num planeta limpo desse pecado original que é a guerra.

Escrevendo noutro tempo, e num contexto muito diferente, Sophia de Mello Breyner Andresen resumiu em versos admiráveis este dilema existencial do frágil ser humano confrontado com os horrores do mundo: «Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e nos separa.»

Versos que Catherine poderia ter sussurrado a Frederic naquela noite de despedida em que a tempestade se abateu sobre Milão.

 

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Últimos textos desta série:

 

O Som e a Fúria - Somos o que vemos

Fahrenheit 451 - Queimo, logo insisto

Martin Eden - Não há sucesso como o fracasso

O Leopardo - O sono em vez do sonho

Agosto - Um mar de lama

O Homem que Via Passar os Comboios - Fora dos carris


12 comentários

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De Carlos Faria a 17.08.2014 às 13:13

Não haja dúvida que esta série de artigos mostram bem quantos grandes livros nos passam à margem, já li vários Hemingway e de todos gostei, um deles penso que iniciou a série ou foi dos primeiros, mas "O adeus às armas" ainda não li, tal como a maioria dos que por aqui tem passado.
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De Pedro Correia a 17.08.2014 às 15:36

Sim, Carlos, esta série começou com 'O Velho e o Mar', também do Hemingway.
Para mim 'O Adeus às Armas' é o melhor romance deste escritor, de que tanto gosto e que aprecio noutras facetas (contista, cronista, memorialista). E é um dos quatro ou cinco melhores romances sobre a I Guerra Mundial. E um dos melhores romances norte-americanos de sempre.
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De Miguel R a 17.08.2014 às 22:03

Sem dúvida o melhor dos quatro que li dele. Comprei o «Adeus às Armas» na estação do Oriente, antes de tomar lugar numa viagem para o Norte. Devorei-o nesse mesmo dia. Genial na sua simplicidade.
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De Pedro Correia a 17.08.2014 às 23:47

É uma boa síntese: "genial na simplicidade".
Recomendo sempre que se mergulhe na obra de Hemingway pelos contos, pela novela 'O Velho e o Mar' e por este extraordinário romance de que falo aqui.
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De RAA a 17.08.2014 às 13:40

Excelente post. É um romance magnífico.
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De Pedro Correia a 17.08.2014 às 15:34

Obrigado, Ricardo. É um romance magnífico, sem dúvida.
Um abraço.
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De Anónimo a 17.08.2014 às 16:13

Um excelente texto, como sempre.
Brilhante a ideia de 'casar' o poema da Sophia com a prosa do Hemingway.
Li este livro (e muitos outros dele) ainda era muito jovem, está na altura de o reler.
Fui à Bib e encontrei lá o Simenon, que li num ápice, e o Pedro tem razão: estava a ler o Popinga e a lembrar-me do Mersault.
Também lá encontrei 'resmas' de prémios Nobel. Eu depois conto.
:-)
Antonieta
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De Pedro Correia a 17.08.2014 às 17:17

Agradeço-lhe essas palavras, Antonieta.
A meio da releitura deste magnífico romance vieram-me à memória os versos de Sophia, de que tanto gosto. Versos que se me impuseram logo como epígrafe. "Casar" Sophia com Hemingway pode provocar torcicolos em alguns puristas das letras, mas neste caso parece-me perfeitamente justificado.
Popinga é, de facto, um Mersault 'avant la lettre'. Também ele mata porque sim. Também ele se vê envolvido em situações que o confrontam com o absurdo existencial.
Acho espantoso que isto não tenha sido posto em evidência por tantos estudiosos da literatura de expressão francesa do século XX.
Quanto a Nobéis, continuo na fase de releituras. Só.
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De Anónimo a 17.08.2014 às 17:55

Eu pensava que ia parar com os Nobéis (por falta de verba) mas descobri na Bib uma colecção brasileira (Editora Opera Mundo) com os Nobel desde o início (1901 - Sully Prudhomme) até aos anos setenta, salvo erro. É uma loucura, está lá tudo.
Já li o Barrabás do Pär Lagerkvist e O Pátio Maldito do Ivo Andric.
Tenho aqui a Grazia Deledda (1926) e a Sigrid Undset (1928).
Estes livros têm o discurso de entrega do prémio e também a vida e obra de cada autor, para além de uma obra integral.
Um único senão: são em 'brasileirês'.
But who cares anyway?
Estou feliz!
:-)
Antonieta
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De Pedro Correia a 17.08.2014 às 23:49

Grande descoberta. Aproveite bem, Antonieta. Eu li recentemente 'O Pátio Maldito', que me decepcionou.
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De Costa a 17.08.2014 às 20:38

O Velho e o Mar e Fiesta (sempre um mistério, para mim, a adopção deste título, na tradução portuguesa), foi dele desgraçadamente tudo o que li até agora. Por Quem os Sinos Dobram, estava - está - em espera, por conta de outras leituras, embora não de ficção, sobre a Guerra Civil de Espanha. Algo me diz agora que foi ultrapassado nessa prioridade.

Quanto a A Oeste Nada de Novo, e por mim, é isso mesmo: um assombroso libelo antibélico . Tanta coisa que deveria ser de leitura obrigatória...

Costa
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De Pedro Correia a 17.08.2014 às 23:54

'Fiesta' foi o nome da versão inglesa do romance que prevaleceu na tradução portuguesa, assinada por Jorge de Sena. Ignoro o motivo por que os ingleses adulteram o título original, embora a tourada constitua o pano de fundo deste romance sobre a 'geração perdida' que combateu na I Guerra Mundial e viveu desde então como se fosse póstuma de si própria. Muitos novos ainda, mas já todos demasiado velhos para cultivarem ilusões de qualquer espécie. 'Fiesta' - a tourada - é o sucedâneo em tempo de paz daquela guerra que os perseguirá para sempre.

(ups, mais um pouco e estou aqui a escrever um novo texto para a série Grandes Romances)

P. S. - 'A Oeste Nada de Novo' será o próximo.

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