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Grandes romances (15)

por Pedro Correia, em 03.08.14

 

 

UM MAR DE LAMA

Agosto, de Rubem Fonseca

  

«A traição fazia parte do jogo político.»

Publicações D. Quixote, Lisboa, 1991 (p. 192)

 

No Inverno carioca, quando a temperatura é mais amena, o inferno do submundo torna-se quente como nunca. Assim foi pelo menos em Agosto de 1954, quando o clima político estava escaldante, o Rio de Janeiro ainda era capital federal e o presidente Getúlio Vargas vivia dias dramáticos que lhe quebravam a resistência psicológica na clausura do Palácio do Catete. As legiões de turistas que demandavam a Cidade Maravilhosa mal podiam pressentir os dramas ocultos naquele magnífico cenário de bilhete postal.

O talento de Rubem Fonseca -- e o que o torna uma voz inconfundível na literatura brasileira -- fica bem evidente nas páginas deste romance que resiste às tentações do psicologismo e a toda a sociologia de pacotilha, sempre pronta a "compreender" as motivações de pessoas e personagens. Aqui não há contemplações de espécie alguma: os factos falam por si. Temos acção ao ritmo da selva urbana, um estilo que nunca se deixa contaminar pelo lirismo e a resistência implacável do autor às mais ardilosas armadilhas do lugar-comum.

Agosto é o vertiginoso relato de 25 dias febris num Rio onde todas as paixões sórdidas andavam à solta -- nas mais diversas esferas, incluindo a política -- e que culminaria na manhã de 24 de Agosto de 1954, quando Getúlio, ainda de pijama vestido, pôs fim à vida com um tiro de revólver apontado ao coração no terceiro andar do palácio presidencial, hoje transformado em Museu da República. Quando a filha Alzira e o ministro da Justiça, Tancredo Neves (duas décadas depois eleito primeiro presidente civil brasileiro após uma longa ditadura militar), chegaram ao quarto já o chefe do Estado agonizava na cama.

 

Onde termina o relato histórico e começam os labirintos da ficção? O mérito de Rubem Fonseca, galardoado com o Prémio Camões em 2003, é alternar de tal maneira os fios dos dois novelos que não conseguimos desenrolá-los. Nem isso, em bom rigor, interessa. Como dizia aquele jornalista imortalizado por John Ford, «quando a lenda se torna facto, imprime-se a lenda».

Os protagonistas produzidos pela imaginação deste brasileiro filho de portugueses -- que foi advogado, polícia e professor antes de se dedicar por inteiro à escrita literária -- têm inegável autenticidade enquanto as figuras reais ganham dimensão romanesca ao cruzarem-se nesta mescla de reportagem, crónica política, inquérito policial e colagem de quadros duros de um quotidiano lunar numa cidade abraçada pelo sol.

Estamos perante um relato impiedoso de delinquência, hipocrisia e desamor que não poupa ninguém -- dos mais baixos escalões sociais à chamada classe dominante, cheia de vícios privados mal camuflados sob a fachada de virtudes públicas.

Vemos desfilar personagens memoráveis como o velho Adelino, um agricultor português analfabeto, natural de Sabrosa, acusado de um crime que não cometeu. Ou o inspector Rosalvo, que gosta de dançar boleros com prostitutas e confessa um irreprimível fascínio por mulatas devido à sua condição de «neto de português». Ou a fútil, infeliz e bela Salete, a quem o amante rico ofereceu um apartamento na Avenida Atlântica e um dia, tocada pelo remorso, procura a mãe negra, Dona Sebastiana, no mesmo morro miserável onde nasceu e de onde fugira sem olhar para trás. Ou o Turco Velho, assassino a soldo mas filho extremoso que todos os anos visita a mãe em Caxambu (Minas Gerais), onde faz prolongadas curas de águas medicinais para aliviar o fígado.

 

Bem-vindos, portanto, ao colorido e trágico Rio de 1954, quando nos cinemas se exibia Mogambo (com Clark Gable, Ava Gardner e Grace Kelly), os bicheiros clandestinos gratificavam esquadras policiais, generais ociosos conspiravam de manhã à noite e se popularizava a expressão «mar de lama», criada pelo jornalista Carlos Lacerda, director do diário Tribuna da Imprensa e declarado inimigo de Getúlio Vargas -- ex-ditador convertido à democracia, um populista gaúcho que a posteridade viria a consagrar como o mais amado dos presidentes brasileiros.

«Não havia isenção em parte alguma. Duas correntes facciosas e antagónicas se enfrentavam e a imprensa tomava o seu partido.» (p. 125)

A corrupção oleava os circuitos da política, o submundo do crime contaminava a hierarquia policial, o jornalismo trocava o rigor dos factos pelas paixões partidárias, os militares viviam na permanente tentação de manietar e asfixiar o legítimo poder civil. A honradez era virtude escassa e quem a praticava era apontado a dedo como bicho exótico -- desde logo a figura central do romance, o comissário Alberto Mattos, consumido por uma úlcera gástrica que o leva a beber litros de leite e a mastigar de forma compulsiva pastilhas Pepsamar. Vive sozinho num modesto apartamento, dividido entre duas mulheres com ligações perigosas e tendo como paixão mais evidente um gosto ancestral pela ópera -- com uma fixação pela ária "Uma Furtiva Lágrima", d' O Elixir do Amor.

 

 

«Essa era outra coisa desagradável de ser polícia: as pessoas quando não sentiam ódio sentiam medo dele.»  (p. 17)

Mattos, que foi getuliano na infância e juventude, é afinal uma figura tão trágica como o malogrado presidente. Mas a tragédia maior -- sugere-nos o escritor nas entrelinhas -- é a de um Brasil que parece condenado a repetir os erros de sempre em cada encruzilhada do destino, como se não aprendesse nada com as lições da História.

Um Brasil também com pulsão suicida.

 

«Juntos, bicheiros, mães-de-santo, brigadeiros golpistas, pistoleiros de aluguel e políticos corrompidos magnetizam de tal maneira o leitor que às vezes fica difícil saber onde termina a História do Brasil e onde começa o romance. Agosto será consagrado, sem a mais remota sombra de dúvida, como uma das melhores obras do nosso tempo. E como o melhor livro de Rubem Fonseca», assinalou o crítico Fernando Morais por alturas do lançamento, em 1990. Não se equivocou: estamos perante um marco da literatura brasileira e da literatura contemporânea de expressão portuguesa. Com o autor a depurar uma escrita já revelada nos seus contos, género em que é mestre indiscutível, e em romances como O Caso Morel (1973), A Grande Arte (1983) e Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos (1988).

São quase 300 páginas escritas num cunho deliberadamente impessoal mas envolvente. Agosto decorre num ritmo frenético que acelera enquanto se intensifica a contagem decrescente rumo ao clímax da morte do presidente acossado pela conspiração militar, pelas traições nas hostes getulianas e pelas suspeitas de envolvimento de membros da escolta presidencial na tentativa de assassínio de Lacerda, à porta da sua residência na Rua Tonelero, e de que resultou a morte acidental de um major da força aérea.

À medida que nos aproximamos das páginas finais, o estilo torna-se mais seco e trepidante, a cadência intensifica-se, os diálogos são despojados como nunca, as frases encurtam-se, não sobra uma palavra supérfula.

E ficamos divididos como leitores, tal como tantas vezes sucede perante uma obra que nos emociona, nos empolga, nos arrebata: queremos atingir rapidamente o fim com a noção antecipada de que sentiremos um vazio difícil de preencher quando o desfecho chegar.

 

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Últimos textos desta série:

 

A Condição Humana - Um homem é a soma dos seus actos

O Grande Gatsby - O velho novo mundo

O Som e a Fúria - Somos o que vemos

Fahrenheit 451 - Queimo, logo insisto

Martin Eden - Não há sucesso como o fracasso

O Leopardo - O sono em vez do sonho


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