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Grandes romances (14)

por Pedro Correia, em 26.07.14

 

O SONO EM VEZ DO SONHO

O Leopardo, de Giuseppe Tomaso di Lampedusa

 

«Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi.»

 

Na década de 50, quando o mundo ocidental acreditava sem fissuras no dogma do progresso, um obscuro crítico literário italiano, figura taciturna e solitária, escreveu uma fascinante apologia da imobilidade que chocou os meios editoriais da época. De tal maneira que as duas principais editoras, a Einaudi e a Mondadori, devolveram o manuscrito à procedência, recusando imprimi-lo. Uma decisão de que mais tarde se arrependeriam: editado enfim por Giorgio Bassani na Feltrinelli, em 1958, O Leopardo viria a transformar-se num dos mais influentes romances do século XX apesar de remar contra a corrente. Ou precisamente por causa disso.

Fama inteiramente merecida, a que a adaptação cinematográfica, sob a direcção de Luchino Visconti, conferiu ainda maior reputação em 1963 com um elenco multinacional e a conquista da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Visconti, um comunista que não ocultava o fascínio pela velha aristocracia ligada ao mundo rural, captou exemplarmente o espírito do romance, transpondo-o para o celulóide com inigualável brilho. Não falta quem o considere o melhor filme de todos os tempos.

Por uma daquelas dramáticas ironias do destino em que a realidade persiste em superar a melhor ficção, Giuseppe Tomaso di Lampedusa não viveu o tempo suficiente para testemunhar o êxito da sua obra. Morreu com apenas 60 anos em Julho de 1957, de cancro pulmonar, ainda antes de fixar o texto definitivo nas provas tipográficas e portanto sem jamais ter visto impresso aquele que seria o seu primeiro e único romance, escrito vertiginosamente em poucos meses, entre 1955 e 1956, à mesa de um café de província, como se uma voz interior lhe ditasse o manuscrito por imperativo de urgência.

 

O Leopardo equivale a uma notável pintura em painéis: é composto por oito blocos – «oito murais de sumptuosidade renascentista», como os classificou Mario Vargas Llosa –, cada  cada qual com um tema central representando um marco cronológico da família de D. Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina, Duque de Querceta e Marquês de Donnafuga, figura tutelar da aristocracia implantada no velho Reino das Duas Sicílias derrubado pelos condottieri de Garibaldi ao serviço da monarquia “plebeia” dos Sabóias que unificou a Itália em 1861. 

Viviam-se tempos novos, sob a bandeira tricolor do Risorgimento, que prometia varrer todos os vestígios ancestrais. Tempos personificados em Tancredi Falconeri, sobrinho do Príncipe e militar integrado nas fileiras de Garibaldi. Com três filhas (Carolina, Concetta e Caterina) e um filho que sempre menosprezou por considerar fraco, Paolo, D. Fabrizio via em Tancredi o seu legítimo herdeiro. E deste sobrinho que chegará a deputado e a embaixador em Lisboa aprendeu uma inesperada lição: ceder alguma coisa é o preço que se paga para evitar cedências máximas. Em suma: a Casa de Sabóia era preferível a uma república. Ou, como diria um seu émulo nove décadas mais tarde – no tempo em que Lampedusa escreveu esta obra, quando o Partido Comunista Italiano era um dos mais poderosos da Europa – a implantação da república seria sempre preferível ao comunismo.

Mudar aparentemente tudo para que tudo permaneça na mesma, dirá o Príncipe, adaptando à sua maneira o que lhe dissera Tancredi. Conclusão: as mudanças à superfície, por mais efervescentes que sejam, não iludem a natureza imutável da essência de todas as coisas. Um princípio que contraria o determinismo histórico e as bases dialécticas do progresso humano, axiomas do marxismo. Não surpreenderam, portanto, as ferozes críticas que o romance recebeu dos intelectuais próximos do PCI e a rejeição do manuscrito pela Einaudi, onde pontificava Elio Vittorini, um dos arautos do neo-realismo italiano.

Além dos detractores políticos, não faltaram também os detractores estéticos de Lampedusa, que baseou esta singular narrativa na personalidade do seu bisavô Giulio Fabrizio Tomasi. Censuraram-lhe o estilo deliberadamente anacrónico (inspirado na tradição oitocentista, de Stendhal e Flaubert). Depreciaram-lhe as frases longas, cheias de orações subordinadas, e a peculiar pontuação, que Bassani burilou mas edições posteriores recuperaram em nome da fidelidade ao texto original.

 

Estas críticas, que Lampedusa já não pôde escutar, estiveram longe de travar o avassalador sucesso deste romance póstumo: galardoado em 1959 com o Prémio Strega, o mais prestigiado de Itália, O Leopardo não tardaria a ser um êxito editorial, cedo ultrapassando a barreira dos cem mil exemplares. Um êxito que o filme amplificou.

Nenhuma crítica, porém, ilude a força intemporal deste romance com os seus inesquecíveis episódios que cobrem meio século de vida familiar, siciliana, italiana – entre 1860, o ano do desembarque dos camisas vermelhas de Garibaldi em Marsala, enquanto em Donnafuga se reza o terço («Nunc et in hora mortis nostrae. Amen»), até 1910, quando o cardeal de Palermo põe fim à exposição das decrépitas relíquias veneradas pelas idosas filhas do Príncipe.

Pelo meio, subsistem quadros inesquecíveis naquela Sicília «embrutecida pelo sol»: a longa cena do baile, do melhor que nos forneceu a literatura; a deslocação de D. Fabrizio ao prostíbulo em Palermo; a apaixonada corrida de Tancredi e a noiva, Angelica, pelos aposentos vazios do vasto Palácio de Donnafuga; os momentos em que o senhor de Salina contempla as estrelas no seu telescópio, como se pretendesse abraçar a eternidade; a morte do Príncipe, numa idade em que se tornara «inutilmente sábio» mas inabalável nas suas convicções.

«Nunca estivemos tão desunidos como desde que estamos unidos. Turim não quis deixar de ser a capital, Milão acha que a nossa administração é inferior à dos austríacos, Florença receia que lhe roubem as obras de arte, Nápoles chora pelas indústrias que perde e aqui, na Sicília, está a preparar-se uma catástrofe. (…) Por agora já não se fala em camisas vermelhas, mas voltar-se-á a falar. Quando elas desaparecerem aparecerão outras, de cor diferente; e depois outra vez vermelhas.» (Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Presença, 1995. Há uma tradução mais recente, de José Colaço Barreiros, numa edição da D. Quixote que não posso recomendar por mutilar consoantes supostamente "mudas".)

 

 Fotograma do filme (1963)

 

Em 2011, o Guardian incluiu-o entre os dez melhores «romances históricos» de sempre. Distinção justa, embora sob um rótulo redutor. Saga familiar sem se esgotar no tema da família, romance “histórico” que descrê da História, esta é uma obra única, que foge a todas as etiquetas e não reclama filiação em nenhuma corrente estética.

O rasto memorável do romance encontra ecos até no léxico comum. Gattopardismo (de Il Gattopardo, título original do romance) é uma palava que entrou no discurso jornalístico italiano – e já está consagrada no dicionário – para significar a adaptação a um novo contexto político, social e económico por parte daqueles que ambicionam conservar os privilégios do poder.

Poucos escritores podem gabar-se de semelhante proeza.

«A obra-prima de Tomasi di Lampedusa recorda-nos que o génio é complicado e arbitrário e que, no seu caso, opor-se à própria noção de progresso, descrer da hipótese de justiça e assumir de forma inequívoca uma visão retrógrada e arcaica da História não o impediu de escrever uma imperecível obra artística», observou Vargas Llosa sobre este romance na sua colectânea de ensaios literários La Verdad de las Mentiras.

 

Enquanto milhares de livros nos falam euforicamente do mundo em mudança, este fala-nos com indisfarçável melancolia do que permanece imune a todas as mudanças: é um retrato modelar da esterilidade do esforço humano, bem inscrita nesta frase do Príncipe de Salina: «Il peccato che noi Siciliani non perdoniamo mai è semplicemente quello di “fare”. (…) il sonno è ciò che i Siciliani voliono.»

O sono em vez do sonho.

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Últimos textos desta série:

 

O Delfim - Vícios privados, públicas virtudes

A Condição Humana - Um homem é a soma dos seus actos

O Grande Gatsby - O velho novo mundo

O Som e a Fúria - Somos o que vemos

Fahrenheit 451 - Queimo, logo insisto

Martin Eden - Não há sucesso como o fracasso


14 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 26.07.2014 às 16:47

Este é um daqueles do qual nunca se esquecem os detalhes, porque o diabo reside neles :):)
“Cambiare tutto perché niente cambi.”
Bom fim de semana
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De Pedro Correia a 26.07.2014 às 21:14

É um livro que não se esquece, Dulce. Até por não haver nenhum que se pareça com ele.
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De Costa a 27.07.2014 às 01:33

Brilhante texto, o seu. E é como escreve neste seu comentário, não se esquece. Conheci bem tardiamente esta obra: na edição de 2007, da Teorema. Fatalmente em tradução, porque incapaz de a ler na língua original, restará sempre a dúvida quanto ao que da tradução possa ter resvalado para traição. Um inevitável risco para quem traduz e para quem lê.

Em todo o caso uma leitura verdadeiramente inesquecível. Um livro soberbo e a que se impõe regressar. Devo-lhe, creia, o quebrar da inércia. Agosto trará dias de férias.

Costa

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De Pedro Correia a 27.07.2014 às 11:25

A tradução da Teorema é a mesma que refiro no texto sobre a D. Quixote, edição mais recente, e tem a enorme vantagem em relação a esta última de não se acocorar perante o acordês.
Uma boa tradução é sempre recomendável, mesmo para quem conheça razoavelmente a língua italiana, pelos particularismos dos diálogos, cheios de arcaísmos, regionalismos e falares dialectais, que podem por vezes desencorajar a leitura.
Ainda bem que o meu texto estimulou a sua vontade de (re)ler. Este é o objectivo primeiro desta série. E é também para isso que servem os blogues, fazendo a diferença. Para a comunicação instantânea, tu-cá-tu-lá, as redes sociais chegam e sobram.
Obrigado pelas suas palavras, que também servem de incentivo à continuação da série. Temas não faltam. Entusiasmo também não. Espero apenas que não falte o tempo. Porque textos destes exigem muito tempo.
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De Anónimo a 26.07.2014 às 17:24

Ainda há pouco estava em Goa com o "Ouro e Cinza" e o Tigre Indiano e eis que chego aqui e deparo-me com o Leopardo Italiano.
Que bela surpresa!
Li o livro, vi o filme e não fiquei nada desiludida com o Visconti, antes pelo contrário.
Agora o score é 9/5.
Estava a ler o Paulo Varela Gomes e a pensar que o Pedro, que já correu mundo, deve ter fantásticas memórias de viagens.
Para quando um livro?
:-)
Antonieta
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De Pedro Correia a 26.07.2014 às 21:16

Cada vez tenho mais vontade de escrever esse livro, Antonieta...

'O Leopardo' é uma das raras obras-primas da literatura que não perdeu na transposição para o cinema, antes pelo contrário.
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De fasw a 27.07.2014 às 00:55

"Visconti, um comunista que não ocultava o fascínio pela velha aristocracia ligada ao mundo rural, captou exemplarmente o espírito do romance, transpondo-o para o celulóide com inigualável brilho."

Visconti era Conde, filho de um Duque. Os Visconti são uma família aristocrata italiana.

O livro é estimável, o filme é esquemático, como referia há tempos Vasco Pulido Valente. Cai num esteticismo que perseguiu Visconti e está longe de ser o melhor filme dele.
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De Pedro Correia a 27.07.2014 às 11:19

Sim, o "esteticismo" de Visconti era criticável noutros contextos. Mas não neste. Tinha tudo a ver. A Sicília que ele filmou era de algum modo a anti-Sicília, no sentido de fuga ao lugar-comum. Podia tê-la filmado ao estilo de 'La Terra Trema', numa perspectiva neo-realista, olhando o romance de fora para dentro, polvilhando-o de muita pobreza endémica e rancor social. Simplesmente, esse 'Leopardo' não seria o verdadeiro 'Leopardo'. E ele entendeu muito bem precisamente devido ao olhar aristocrata que neste caso não disfarçou.
Há um outro filme dele de que também gosto muito, e não pode de modo algum ser classificado de "esteticista": 'Rocco e os Seus Irmãos'. Há muito que não o vejo, mas é também uma obra-prima sem qualquer dúvida.
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De Anónimo a 27.07.2014 às 13:28

Ainda bem que fala nesse filme, Pedro. Tenho ali o dvd (que comprei numa promoção da Fnac juntamente com alguns do Truffaut) à espera de 171m livres para o visionar. Os blogues também servem para isto...
E que nunca lhe falte o tempo para as séries e para escrever o tal livro das viagens.
:-)
Antonieta
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De Pedro Correia a 27.07.2014 às 15:44

Não faltará, assim espero. Até porque a Antonieta e muitos outros leitores do DELITO merecem.
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De Jorg a 28.07.2014 às 09:36

"Il Gattopardo" é antes de mais, um 'cautionary tale' sobre os paladinos do dito "progresso", as suas 'ideologias' e 'novidades' - as rasteiras e alarves representadas por Sedara; idealistas mas renegando esforço de adesão a realidade,como as de Chevalier; ou ainda, como com o Sobrinho Tancredo, as meramente oportunistas, de salvar o que se pode e ir ganhando umas coroas, seduzindo as Angelicas que emergem das "novas oportunidades".
Visconti, comunista italiano - a adjectivação de nacionalidade não é irrelevante.. - filmava, nos anos 60, já essa perplexidade - não estava necessariamente a "reflectir" sobre a inutilidade triste dos aristocratas reaccionários, estava a rever notas sobre a fauna de novos "progresseiros", a listar umas quantas notas sobre novas taxonomias...Por mim, tais 'zootecnicas' foram ajudandao ( e ainda ajudam) a perceber algumas coisas relevantes que aconteceram a Portugal na ultima década.
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De Pedro Correia a 28.07.2014 às 22:07

É uma óptica interessante, a sua. E, sim, perfeitamente plausível. Os grandes livros são assim: permitem múltiplas leituras. Nenhuma delas mais "correcta" do que as outras: todas são legítimas, dependendo do olhar de quem lê.
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De da Maia a 28.07.2014 às 11:01

O Pedro é das melhores pessoas a compor textos em blogs, e estas suas crónicas são exemplo disso. Não há apenas o cuidado no texto, há ainda estética de juntar as imagens certas no sítio certo, o destaque sem exagero, o compromisso entre puxar a atenção de uma leitura rápida para uma leitura mais atenta.

Destacou, e muito bem, o conceito do sono vs. sonho, porque muitas vezes o sonho dos homens é apenas sonolência, embalado no "se eu quisesse..." por oposição ao "quero".
Essa ideia, que "a realidade pode estragar o sonho", parece indiciar que alguma indolência das populações mediterrânicas resulta de um nirvana natural.
O "progresso" será apenas ruído de crianças que estraga o sono dos velhos...
Muito interessante.
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De Pedro Correia a 28.07.2014 às 22:13

Foi essa a minha leitura deste romance tão fascinante, caro daMaia. Pelo menos é a minha leitura actual: há dez anos teria sido outra (e foi), daqui a dez anos será talvez diferente.
Este é um dos encantos imperecíveis da melhor prosa de ficção: permite-nos levantar voo com ela. Voamos com asas alheias até certo ponto, ganhamos asas próprias a partir de certo patamar. E nunca sabemos até que alturas, sempre graças a ela, conseguiremos voar.

(obrigado pelas suas palavras)

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