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Grandes romances (12)

por Pedro Correia, em 12.07.14

 

QUEIMO, LOGO INSISTO

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

 

Um mundo sofisticado, onde a alta tecnologia proporciona aos cidadãos inegável conforto e múltiplas possibilidades de evasão nos momentos de lazer, pode afinal ser um inferno totalitário, onde o Estado utiliza a mesma tecnologia para suprimir qualquer voz discordante.

Inferno é a palavra exacta. Porque este livro decorre sob o signo do fogo. Não o fogo que arde sem se ver, não o fogo que aquece e revigora, mas o que destrói e mata.

Eis-nos mergulhados num universo concentracionário, algures num futuro de data incerta mas próxima, à semelhança da distopia descrita com brilhantismo por George Orwell no seu 1984. No romance de Orwell o regime do Grande Irmão invertia os valores através da perversão do significado das palavras: a verdade era a mentira, a paz era a guerra. Aqui, numa lógica similar, há um poder estatal sem rosto que chega ao macabro requinte de inverter a missão benemérita dos bombeiros: em vez de apagarem incêndios, apagam todos os vestígios de dissidência. As forças do bem ao serviço do mal.

Guy Montag é um desses bombeiros que não salvam mas destroem enquanto braço armado de um sistema totalitário. Ganha assim a vida há cerca de uma década, o que lhe permite acesso a todos os bens de consumo burguês. Mas não é feliz no casamento: a mulher vive alienada nas quatro paredes domésticas, três das quais monopolizadas por gigantescos ecrãs de TV interactiva onde ela dialoga a todo o momento com uma “família” virtual. Num perfeito exemplo de telenovela invadindo a realidade.

Também não se sente realizado na profissão que o manda queimar não só todos os livros que lhe apareçam pela frente mas também as casas de todos os que tiverem livros e forem sujeitos a denúncias de vizinhos e falsos amigos. Os próprios seres humanos se tornam suas vítimas directas: certa noite, uma mulher prestes a ser detida decide imolar-se pelo fogo à sua frente. A dúvida instala-se no espírito deste conformista que nunca antes havia questionado seriamente coisa alguma: ele começa enfim a tomar consciência de que constitui um parafuso num mecanismo repressivo de gigantescas proporções.

Um dia Montag regressa a casa depois de queimar livros de Dante, Swift e Marco Aurélio. «Ontem à noite pensei no querosene que tenho usado nos últimos dez anos. E pensei em livros. E, pela primeira vez, compreendi que um homem estava por detrás de cada livro. Um homem tinha de os conceber. Um homem tinha de levar muito tempo a escrevê-los. (…) Um homem tinha levado a vida inteira a registar os seus pensamentos, a observar o mundo e a vida, e eu apareci e destruí tudo em dois minutos! Acabou tudo.» (Edição portuguesa Publicações Europa-América, 2002, com tradução de Teresa Costa Pinto Pereira)

 

Fahrenheit 451, o título desta extraordinária obra que elevou a ficção científica a um patamar de excelência, abrindo uma porta que viria a ser transposta por escritores de diversas nacionalidades, «é a temperatura a que o papel do livro se incendeia e arde», como explica o autor em nota introdutória.

Este curto romance lê-se à mesma velocidade estonteante a que Ray Bradbury (1920-2012) escreveu o primeiro rascunho, em nove semanas vertiginosas, na Primavera de 1950, literalmente para ganhar a vida. Morava num modesto apartamento em Los Angeles, era já pai de duas meninas e utilizava a sala de dactilografia situada na cave da universidade local.

«Lá, em filas ordenadas, havia uma vintena ou mais de antigas máquinas de escrever Remington ou Underwood que se alugavam a dez cêntimos por meia hora. Metia-se a moeda, o relógio fazia tiquetaque como um louco e escrevíamos como loucos para acabarmos antes de se esgotar essa meia hora», lembrou o escritor norte-americano num posfácio redigido em 1982 para uma reedição deste romance de 1953 que teve uma versão em fascículos, nas edições de Março, Abril e Maio de 1954 da então recém-surgida revista Playboy.

Groff Conklin, o mais influente crítico de ficção científica daquela época, classificou-a «entre as grandes obras de imaginação escritas em inglês na última década ou mais». Ainda em 1954 (no mesmo ano de Hannah Arendt e depois de Tennessee Willliams, Nabokov, Brecht e Saul Bellow), Bradbury recebeu um prémio da Academia Americana de Artes e Letras por este livro, que na sua perspectiva era «um romance barato». Por lhe ter custado «nove dólares e 80 cêntimos».

 

Leitor voraz desde a infância, prolífico autor de contos, romances, ensaios e poemas ao longo de sete décadas, Bradbury costumava dizer de si próprio que não se tinha diplomado em nenhuma universidade mas nas bibliotecas. Um pouco à semelhança do que sucederia com um seu contemporâneo português chamado José Saramago.

Apesar do prémio de 1954, certa elite intelectual norte-americana começou por ignorar a literatura deste homem que «trouxe Marte para a Terra», na feliz definição do New York Times, em alusão a Crónicas Marcianas, outra das suas obras mais célebres. Foi preciso um conceituado cineasta francês, François Truffaut, adaptar Fahrenheit 451 ao cinema, em meados da década de 60, para lhe conferir a caução de respeitabilidade que muita crítica lhe negava nos Estados Unidos. Mas nem assim recebeu um Pulitzer.

A passagem do tempo fez-lhe justiça. E já permitiu concluir: estamos perante um dos melhores romances do seu segmento temático jamais escritos. Num estilo tenso, totalmente adequado ao desenvolvimento da trama, muito marcada pela perspectiva de um inverno nuclear com a bomba atómica posta ao serviço de um sistema ditatorial.

Antevia-se o futuro a partir do presene do passado próximo daquela época: Bradbury, ainda adolescente, ficara muito impressionado com as notícias de incineração pública de livros entre manifestações de aparente entusiasmo popular na Alemanha, outrora um dos redutos da cultura mundial. Este é o desígnio de qualquer poder totalitário: ver arder bibliotecas inteiras e, com elas, todas as sementes de subversão.

Com notável premonição, Bradbury antecipa aqui a capacidade hipnótica da TV massificada, o poder aditivo das redes sociais e até objectos ou instrumentos nessa altura inexistentes e hoje de uso quotidiano e generalizado, como os terminais de multibanco, o iPod ou a televisão de ecrã plano.

 

 

Sem acesso a livros, à mercê de slogans publicitários em sessões contínuas e de programas televisivos a puxar à lágrima fácil ou à gargalhada inconsequente, de besouros colados às orelhas emitindo sons destinados a travar o pensamento, acelerando sem limite de velocidade em veículos com propulsores a gás, os habitantes do mundo que Bradbury nos descreve são gente «saída do infantário para a faculdade e de regresso ao infantário”. Um mundo onde algo tão simples como caminhar ao ar livre se tornou um costume obsoleto, onde «as pessoas não falam de nada» e «ninguém tem tempo para ninguém».

Um sonho climatizado transformado em pesadelo. Com os “soldados da paz” travestidos de agentes da guerra suja empreendida pelo poder estatal contra os cidadãos. Utopia às avessas. Hitler e Estaline fundidos num mesmo abraço incendiário.

Cenário hoje sem correspondência com factos comprovados? Nem por sombras. Durante a Revolução Cultural chinesa – precisamente na época em que o filme Fahrenheit 451, com Oskar Werner e Julie Christie (última foto que ilustra este texto), era exibido nas salas de cinema – voltariam a ser queimados livros. Tal como no Camboja de Pol Pot e no Afeganistão talibã. E em certas “revoluções” islâmicas, já no século XXI.

A melhor ficção não se limita a ser espelho da realidade: antecipa-a. E pode produzir queimaduras de terceiro grau na tirania mais feroz.

 

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Últimos textos desta série:

 

As Vinhas da Ira - Fazer das fraquezas força

A Peste - Ratos e homens

O Delfim - Vícios privados, públicas virtudes

A Condição Humana - Um homem é a soma dos seus actos

O Grande Gatsby - O velho novo mundo

O Som e a Fúria - Somos o que vemos


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