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Grandes mudanças

por Luís Naves, em 30.10.16

O nosso mundo é dominado por dois fenómenos que correm em paralelo, a ruptura e a dessacralização. Vemos a tendência da ruptura em notícias diárias sobre rebeliões populistas nas democracias, em delirantes projectos para criar regimes teocráticos ou ainda nas cenas caóticas envolvendo migrações em massa: no fundo, as sociedades contemporâneas não têm soluções para as ‘selvas’, para o ocasional demagogo ou para os delírios homicidas dos fanáticos. Todos estes exemplos estão ligados a mundos em extinção, que não têm resposta para o que aí vem.

A dessacralização é menos óbvia, mas está presente na linguagem politicamente correcta que cada vez mais trava as discussões, está também presente na forma algo estranha como instituições conservadoras acompanham os tempos (tentando adiar o seu declínio) surpreendendo os próprios críticos com a ousadia das inovações. Os papas da literatura, para citar um exemplo recente, guardiães do templo, atribuíram em dois anos consecutivos o Prémio Nobel da Literatura a um trovador e a uma repórter, dois excelentes exemplos da cultura popular.

Pode ser menos evidente, mas esta cultura popular vive dias revolucionários, a dessacralização garante-lhe um lugar proeminente na linha do tempo, para além de existir uma nova e agressiva corrida à criação de impérios que vão dominar ainda mais o seu futuro. Por razões tecnológicas, não haverá sobrevivência para quem não tiver massa crítica. O que se aplica, aliás, ao jornalismo ou à literatura: acabou a era dos autores obscuros que vendiam meia dúzia de exemplares e iam ganhando lentamente a fama; hoje, sem garantir escala, ninguém é publicado. Assim será com a televisão, com o cinema. Os países ocuparão pequenos nichos de exotismo. Isto aplica-se a todas as elites que dominaram o passado, até nas descobertas científicas, que dependem do dinheiro para experiências complexas.


2 comentários

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De Vento a 30.10.2016 às 14:40

Creio que as coisas não estão assim tão azedas. A primeira parte de sua reflexão revela que a zona de conforto que os cidadãos de alguns países do ocidente julgavam viver era zona de areias movediças. Hoje toca-lhes as angústias que julgavam ser autóctones de outros pontos do globo.
Por um outro lado, a instrumentalização da informação continua aí para substituir a sacralização anterior por outras formas de sacralização, algumas delas denominam-se de populismos. Esta onde dita comunicativa inicia-se há muitos milénios e atinge o seu nível mais elaborado na Alemanha de Hitler e noutras ditaduras do leste e do oeste.
De forma diferente continua a prevalecer o pode-se e não o deve-se.

Todavia existe uma errada percepção sobre o fenómeno actual. A dita consciência das massas, tão apregoada nas ditaduras já referidas, só agora começa a ter uma efectiva, ainda que tímida, expressão do seu verdadeiro significado.
A disponibilidade tecnológica colocada ao alcance do cidadão comum tornou-o mais consciente de seu poder e da propagação de sua voz. Paralelamente essa mesma tecnologia proporciona-lhe termos comparativos jamais disponibilizados à humanidade. E com os termos comparativos sobrevem-lhes também a capacidade argumentativa que muitos julgavam residir no seu restrito e limitado saber.
É esta a linha de desconforto, não a sua, que detecto em seu texto.

Também não é verdade que a capacidade tecnológica venha a ser um vector de determinação selectiva. A idade da pedra não terminou porque as pedras tivessem acabado. Elas continuam aí e a ser usadas com outros propósitos.
O que a tecnologia vem mostrar é que para ser usada necessita ser mantida. E o que se pode perder num lado, reciclado pode ser usado para este propósito. Não se venderam menos carros por terem surgido os aviões, mas apareceram mais pilotos e condutores, e mais mecânicos e electrónicos e muitos outros mais como operários no fabrico de pneus e industrias e investigadores que pretenderam fazer evoluir os materiais em conforto e segurança.

Acontece que o mundo não é pobre, é pleno de injustiças. E são essas injustiças associadas a uma certa idolatria do eu que faz renegar o princípio da subsidiariedade. Com isto vem sempre a inevitável revolta que surge com o despertar das consciências que sempre foram usadas em favor de interesses de poucos, de classes e com muito pouca classe.
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De lucklucky a 30.10.2016 às 16:18

"populistas" aí está mais uma vez narrativa subliminal do Jornalismo.

Como se a maioria dos regimes para começar pela Republica Portuguesa não sejam Populistas.

Basta olhar para o valor da Dívida chamada habitualmente -"Publica"- mas que deveria ser chamada de Dívida Política para se perceber se um regime, cultura, sociedade é Populista ou não.

A designação de Dívida Publica em vez de Dívida Política é já uma narrativa.

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