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Grandes ilusões e memória curta

por Luís Naves, em 29.05.17

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Durante setenta anos, a Europa Ocidental esteve sob protecção americana, com o evidente resultado de um prolongado período de paz e prosperidade. Esta aliança resistiu a todas as administrações, a várias crises (Suez, Berlim, Cuba, Kosovo), mas a chanceler Angela Merkel parece acreditar que é altura de tentar outra coisa: ela disse ontem que “os tempos em que podíamos confiar totalmente em outros [países] acabaram”, numa referência ao Reino Unido e aos EUA, aqueles por quererem abandonar a UE, estes por não cederem às posições europeias em matéria de globalização, financiamento da NATO e alterações climáticas.

O que a chanceler sugeriu, e que entretanto foi suavizado, corresponde à aparente subversão da ordem mundial definida em Ialta pelas potências vencedoras da II Guerra Mundial, devendo os europeus definir no futuro o seu destino. Essa conferência ainda não foi revogada e os vencedores são os mesmos (a Rússia é a herdeira legal da URSS). Para mais, a chanceler falou em nome dos ‘europeus’, não usando a expressão ‘nós, os alemães’. Ao considerar que já não se pode contar, como antes, com os aliados ingleses e americanos, assumindo-se como suposta ‘líder europeia‘, Merkel repetia uma ideia que faz o seu caminho na eurocracia: os principais obstáculos ao futuro da Europa são as nações que a compõem; se queremos mais integração e segurança, temos de vencer os nacionalismos.

A Alemanha, tão confiante nos benefícios de uma integração acelerada, admite livrar-se da tutela americana que lhe garantiu a independência. Compreende-se a frustração de Donald Trump e de Vladimir Putin, herdeiros dos vencedores de Ialta, que obviamente não vão facilitar estas ambições. Com a saída do Reino Unido da UE, provavelmente numa separação litigiosa, a chanceler enfrenta o seguinte panorama inédito: os ingleses (e americanos) estão cada vez mais fora da equação continental e não interferem; os franceses precisam dos mercados alemães; a Itália precisa de ajuda financeira alemã de emergência; a Polónia (enfim, mais o antigo Império Habsburgo) é pobre e precisa do investimento alemão; a Turquia não conta.

Isto, no fundo, é a Europa alemã que Bismarck sonhou e não tem nada a ver com as comunidades europeias e NATO, que visavam a protecção e reconstrução da Europa, integrando os derrotados num conjunto onde os vencedores seriam sempre dominantes. Não se percebe se a tese de Merkel é pacifista, mas há nas declarações um óbvio cálculo eleitoral de conquista de votos à esquerda. No seu partido, isto deve ser controverso, mas o mais incompreensível é o entusiasmo da esquerda europeia, talvez por causa do anti-americanismo. Na UE, os partidos de esquerda estão a dividir-se em relação à ortodoxia comunitária, os radicais a recusarem o europeísmo e a corrente social-democrata a trair os trabalhadores que foram sempre a sua base social, aplaudindo cada nova vitória dos conservadores ou dos social-liberais, enfim das forças pró-globalização. Para quem toma decisões, grandes fatias do eleitorado deixaram de contar.

Neste contexto, a ambição de levar a União Europeia para um caminho estratégico autónomo é mais um passo na direcção do beco sem saída. Podemos não gostar de Trump, mas abandonar uma aliança com os Estados Unidos que correu bem durante setenta anos, em troca de uma aventura que nem aos alemães convém, só pode ser uma grande ilusão ou um erro monumental.


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