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Delito de Opinião

Gastronomia moçambicana em Lisboa

jpt, 13.08.22

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A era do Covidoceno muito devastou. Tanto que desde o seu advento eu não ia ao santuário lisboeta da culinária moçambicana, esse Restaurante Moçambicano Roda Viva (sito no Beco do Mexias, ali ao Largo de Chafariz de Dentro, em Alfama). Agora na companhia de dois bons amigos, de visita a Lisboa - e ambos com larga experiência do interior do país, "mato" como se insiste em dizer, o mais novo tarimbado em Zavala, o seu mais-velho graduado em Sofala, Manica e Tete - lá fomos ver como param as modas naquela Ka-Chamba, a "casa" do Octávio Chamba...

Confesso que ia com algum temor, sabedor que - quantas vezes - os pequenos restaurantes têm tendência a ir fenecendo. E, mais do que tudo, conhecendo os efeitos tectónicos que nas casas de pasto têm as vagas de turistas que têm ocupado a Lisboa central.

Pois o resultado não poderia ser mais reconfortante. Os preços aumentaram ligeiramente - como tal poderia não ter acontecido? -, mas mantendo-se no acessível às bolsas remediadas. E a refeição foi recebida com júbilo por estes três veteranos: o mais novo, que ali se estreava, ainda pediu xiguinha (de feijão nhemba) ou cacana, nisso comprovando a sua sapiência na matéria - mas esses pratos não são acessíveis no quotidiano, dada a inexistência dos condimentos no mercado nacional.

Por isso as nossas opções foram outras. Os três comemos mais do que o suficiente para nos saciarmos, em qualidade e quantidade: foi-nos tal conseguido apenas com duas doses de um bela matapa de camarão, apresentada como deve ser, tanto em consistência como em sabores (com aquele leve traço amargo que muitos por cá tentam esconder), e um caril do mesmo, verdadeiramente "de trás da orelha". Tudo bem misturado com xima, a qual surge - tal como sempre ali - exactamente "no ponto". Entretanto o serviço fora gentilíssimo, como é tradição na casa. Pausado, "vakani-vakani" (o até lânguido e sempre filosófico "pouco-pouco") disse o mais-novo, em arrobo macuófono (afinal?), como é tão melhor para estes sítios e momentos.

No final do repasto estávamos... felizes. E se assim foi, se felizes ficámos, para quê procurar outros, e mais rebuscados, adjectivos? Para celebrar tamanho agrado bebemos duas "aguardentes da CPLP " (um belo grogue cabo-verdiano), recordando e augurando (talvez utópicos) as nossas andanças.

Saí reconfortado com a vida, como sempre ali me acontece, mas agora ainda mais dado o tempo que passara desde a última visita. Carregando um frasco do picante da casa, o verdadeiro "Ka-Chamba" - já alvo, soube-o agora, de encómios em página inteira do "Público", atenção do MEC, esse único verdadeiro influencer nacional. 

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