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Fraternidades Perdidas

por Francisca Prieto, em 28.05.15

O tio Pedro vivia a sépia numa moldura de arabescos por cima da cómoda da avó Dorotheia.

Tinha ficado eternizado aos vinte anos a descer uma escadaria, generosamente untado em brilhantina, de casaco assertoado e cigarro na mão esquerda.

 

O tio Pedro era um número de telefone que a minha avó me pedia para rodar no mostrador quando deixou de ser capaz de ler letra miudinha. Eu era pequena e só ouvia uma metade da conversa que circulava pelo auscultador, mas era fácil adivinhar as deixas devolvidas às frases ladaínhadas mais ou menos uma vez por mês. “Então filho, como estás?”, “E a Lurdes?”, “Os dias estão a ficar mais compridos” (ou mais curtos, consoante a época do ano). E depois, o fatal “Então e quando é que me vens visitar?”.

Só conheci o tio Pedro no ano passado. O que quer dizer que a fatídica pergunta provavelmente ficava no ar na maior parte das vezes. Era sabido que o tio Pedro cumpria o calendário exactamente um par de horas por ano, quando sabia que tínhamos ido de férias e que não havia risco de se cruzar com o meu pai.

Parece que nunca tiveram nenhuma briga feia, nunca se insultaram, nunca pregaram uma bofetada um ao outro. Eram simplesmente tão diferentes que não tinham vontade de se dar.

A tia Lurdes não ajudava à festa. Consta que era obssessivamente possessiva, de tal maneira que nunca quis ter filhos para não ter de partilhar o marido.

 

Quando a minha avó morreu, os dois irmãos não se viam há vinte anos. Na altura eu estava a viver nos Estados Unidos, pelo que perdi esta única oportunidade de pôr a vista no tio Pedro (confesso que me pelava por saber como era, em carne e osso, o mítico rapaz garboso da foto). Contam os meus irmãos que o encontro no velório foi digno de uma cena do “Padrinho”.

Era uma noite de Janeiro, humedecida pela tristeza. Da capela mortuária começaram-se a ouvir, em crescendo, passos firmes a percorrer as lajes de pedra. O tio Pedro entra pela porta, avança para o meu pai, e os dois irmãos, de cabelo grisalho, sobretudo escuro de fazenda e comoção contida, abrem os braços em simultâneo e cumprimentam-se com um sentido beijo na face.

Ficou assim imortalizado o reencontro fraterno num simbólico abraço convicto, ao lado do leito de morte da mãe.

 

Só se voltaram a ver passados outros vinte anos. Em Outubro passado. Depois da tia Lurdes morrer, o tio Pedro pediu que chamassem o meu pai para o ir visitar ao lar onde morava.

Mais uma vez, não foram trocadas acusações. Limitaram-se a conversar como se não tivesse existido um gap temporal de quarenta anos, tendo o tio Pedro pedido ao meu pai que cuidasse das coisas dele.

Morreu passado um mês. Tratavam-se por “mano”.

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