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Fora de série (12)

por João Campos, em 27.05.16

É muito provável que os nossos filhos e netos olhem um dia para os filmes e para as séries dos anos 80 e pensem: aquela gente era louca. Olhando nós para trás, não admira: perante o mundo cada vez mais entricheirado, mais intolerante, mais politicamente correcto e mais mal humorado, o atrevimento e a irreverência daquela década não tão distante quanto isso parece quase remetê-la para os confins longínquos da História. Não tenhamos ilusões: muitas produções dos eighties não chegariam hoje à pré-produção, pela certeza de que iriam ferir susceptibilidades num mundo onde o humor mais atrevido se tornou numa espécie em vias de extinção.

 

A série que vos trago hoje não teria qualquer hipótese de passar pelo politicamente correcto deste ano da graça, mas com muito pouca graça, de 2016: Sledge Hammer!. Numa época em um espirro vai ofender um ou outro grupo, as tropelias do polícia violento, misógino, e machista interpretado de forma inspirada por David Rasche iriam fazer a Internet - o palco de todas as indignações contemporâneas - esgotar o stock de forquilhas e archotes virtuais. Pouco importaria que a série fosse uma sátira especialmente bem conseguida ao Dirty Harry de Clint Eastwood e à tradição de bad cop dos anos 70. Pouco importaria que o registo propositadamente exagerado dos episósios em momento algum permitisse dar alguma seriedade às tiradas do inspector Sledge Hammer. Para as brigadas da indignação selectiva, nada daquilo seria admissível.

sledgehammer.jpg

Para mim e para o meu melhor amigo de infância, Sledge Hammer! não só era admissível como era uma delícia. É claro que não compreendíamos a sátira da série (nem teríamos as referências para tal), mas nem por isso deixávamos de nos divertir imenso com aquele humor deadpan, a ver Sledge Hammer desenrascar-se apesar da sua inusitada incompetência, a causar enxaquecas ao inesquecível Capitão Trunk e a safar-se de sarilhos diversos graças à determinação da sua segunda parceira Dori Doreau (a primeira, como se sabe, era a Magnum de calibre .44 pela qual Sledge Hammer seria capaz de colocar as mãos no fogo).

 

À distância destes anos, já não me consigo recordar qual era a minha idade exacta quando descobri Sledge Hammer!, ou em que canal a série passou (provavelmente na RTP, mas talvez já tenha sido na SIC daqueles primeiros e revolucionários anos). Mas lembro-me de vê-la, e da marca indelével que deixou: as imagens perduraram na minha memória, mesmo quando durante anos tentei, sem sucesso, recordar-me do título daquela série com o polícia maluco que falava com a Magnum. Enfim, maravilhas da Internet: o título foi recuperado e a série foi revista. Continua exagerada, atrevida e muito, muito divertida. E, ironia das ironias: ainda que seja profundamente filha do seu tempo e impossível de ser concebida noutra época que não nos anos 80, talvez a sua sátira seja mais actual e pertinente hoje, trinta anos volvidos, neste novo e estranho milénio.

 


10 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 27.05.2016 às 18:52

Sei que passou por cá fins de 80 , princípios de 90, era transmitida pela RTP um dia de semana à tarde que na altura coincidia com a minha folga, tenho quase a certeza que tinha um nome de guerra português, mas curiosamente não me recordo qual era.
Aquilo era uma loucura de sadismo !
Que maluquice.
Não creio que me tenha deixado saudades. :)
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De João Campos a 27.05.2016 às 20:24

Também não me lembro do título em português. É possível que não tenha sido adaptado, mas não faço ideia. Já ter conseguido lembrar-me do título original foi um pincel...!

Não creio que houvesse ali sadismo. O tom era demasiado ligeiro e exagerado para isso.
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De lucklucky a 27.05.2016 às 19:16

"Trust me I know what i am doing!"

Passou na RTP meados dos anos 80 penso que ainda SIC não tinha nascido sequer.
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De João Campos a 27.05.2016 às 20:22

A série, tal como eu, é de meados dos anos 80 (é um ano mais nova que eu, para ser preciso). Terá passado pelo menos no início dos anos 90, ou não teria memória dela a cores.

Regra geral, sempre que ele dizia essa frase metia o pé na argola.
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De lucklucky a 28.05.2016 às 00:35

Pelo que pesquisei tem razão. Tinha ideia que foi mais cedo.

Outra série que gostei num registo iconoclasta foi Parker Lewis can't loose.
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De João Campos a 28.05.2016 às 20:50

Eu também tive de pesquisar, lucklucky. Como disse, não me lembro bem de que idade tinha quando a vi. Mas a memória da diversão, essa perdurou.
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De Diogo Noivo a 28.05.2016 às 14:58

Excelente texto, João. Também eu via a série religiosamente. Na altura, como tu, não percebia o alcance do 'non sense' atrevido, mas divertia-me imenso. Bons tempos em que os espectadores não eram tratados como criaturas inimputáveis e de indignação fácil. E obrigado por me teres recordado o título da série (também já não me lembrava; só mesmo a Magnum e o disparate divertidíssimo me ficaram na memória).
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De João Campos a 28.05.2016 às 20:53

Ora essa, estamos cá para ajudar.

Eram bons tempos mesmo. É cliché dizer que "antigamente era tudo mais simples", mas no caso do humor era mesmo: fazia-se tudo e mais um par de botas, e os espectadores sabiam o que era para levar a sério e o que era comédia. Daí para cá o mundo só tem ficado mais aborrecido.
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De Teresa Ribeiro a 28.05.2016 às 20:00

Passou-me completamente ao lado, que pena. Deixaste-me curiosa.
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De João Campos a 28.05.2016 às 20:55

É uma produção muito curiosa daquele tempo. É possível que o estilo e o humor não faça as preferências de toda a gente (e, claro, há outros valores de produção na televisão contemporânea que a colocam a milhas de praticamente tudo o que foi feito antes), mas merece pelo menos uma espreitadela.

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