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Fora da caixa (21)

por Pedro Correia, em 03.10.19

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«Quero levar os portugueses a viver habitualmente.»

Salazar (1938) 

 

Não sei se mais alguém pensou como eu. Mas achei refrescante a intervenção da candidata do MRPP no debate organizado pela RTP com os representes dos pequenos partidos. Não pelas ideias, claro: são mais antigas do que o animatógrafo, a grafonola, o hidroavião e o zepelim. Mas pela sinceridade: vê-la defender abertamente o «modo de produção comunista» revela-nos, por contraste, até que ponto o PCP se tornou um partido reformista, longe de qualquer ideal revolucionário. Há quanto tempo não ouvimos Jerónimo de Sousa advogar os dogmas do marxismo-leninismo? É possível um partido verdadeiramente comunista votar quatro orçamentos de Estado em estrita obediência às normas do pacto de estabilidade e aplaudir a maior contracção do investimento público de que há memória na democracia portuguesa?

Há muito que o PCP deixou de amedrontar as "classes dominantes": tornou-se um partido fofo, respeitador da moral burguesa e dos bons costumes. Isto explica-se, em parte, por já não ser acossado pela defunta "esquerda radical" que se acoitava sob a bandeira do BE: Catarina Martins deu uma guinada ao Bloco, tornando-o um movimento "eco-socialista", quase pós-ideológico, new age. Por muito que isso incomode o professor Fernando Rosas, a "renegociação da dívida" e a saída de Portugal do sistema monetário europeu deixaram de figurar entre as proclamações bloquistas, agora mais embaladas por jazz de hotel do que pelos estridentes acordes d' A Internacional.

Música para os ouvidos de António Costa, que nestes quatro anos reduziu os partidos à sua esquerda a caricaturas de si próprios. Enquanto se encarregava de seduzir largas parcelas da classe média com duas percepções dominantes: contas certas e ordem nas ruas.

Esquerda radical neutralizada e direita sociológica despojada das principais bandeiras: eis o balanço político de quatro anos de "geringonça", eis o contributo de António Costa para sedimentar o regime instaurado com a Constituição de 1976, alterando-lhe o eixo dominante ao leme de um partido socialista que há muito deixou de o ser.

Os antigos pregoeiros da revolução andam hoje mais preocupados com a extinção das focas do que com a extinção da classe operária. E quem ainda sonhar com a revolução comunista pode sempre votar no MRPP.

 

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38 comentários

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De Anónimo a 03.10.2019 às 11:34

A duvida que me assola em relação ao MRPP prende-se com os 70 anos da revolução chinesa, terão gostado mais das comemorações em Pequim ou em Hong Kong?
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 11:39

O MRPP prefere pato à Pequim com arroz chau-chau.
Comido com pauzinhos.
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De Anónimo a 03.10.2019 às 11:45

Em 76 gostavam mais de uma boa "caldeirada".
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 13:16

Com bacalhau.
Para rimar com Mao.
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De Anonimus a 03.10.2019 às 13:13

Pauzinho ou Paulada?
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 16:38

Paulada rima com feijoada.
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De Anónimo a 03.10.2019 às 11:45

Professor Fernando Rosas que por acaso foi um dos fundadores do MRPP, parece aquela rúbrica da TVI "isto anda tudo ligado"
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 11:47

E antes militou no PCP. A "esquerda radical" sempre foi endogâmica.
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De Luís Lavoura a 03.10.2019 às 11:55

Calma. Não convem falar muito de quem militou na esquerda radical, pois muitos deles estão agora no PS, no PSD, ou ainda mais à direita. Não convem atirar pedras aos telhados dos outros quando se tem telhados de vidro...
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 13:18

De endogamia percebe você. Já gerou laços endogâmicos com o Delito. Por usucapião.
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De Luís Lavoura a 03.10.2019 às 11:54

Concordo com o Pedro, é refrescante ouvir a propaganda do MRPP. Aquilo é marxismo puro e duro, a anunciar o colapso do sistema capitalista, e leninismo puro e duro, a anunciar que esse colapso conduzirá a uma guerra universal.
Assim é que é, aqueles tipos do MRPP são coerentes, não se vendem ao capital, não transigem com os fundamentos da doutrina!
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 13:19

Quando se vendem são expulsos. Passam de "educadores da classe operária" a renegados.
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De Anónimo a 03.10.2019 às 14:52

Diz-me Luís Lavoura, os MRPP's não compram de livre vontade produtos ás malvadas multinacionais "grandes grupos económicos" promovendo assim o lucro e exploração dos "trabalhadores" em vez de formarem uma comuna ?

lucklucky
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De Anónimo a 03.10.2019 às 12:28

Bem observado. A sinceridade da candidata do MRPP, curiosamente, é uma lufada de ar frsco no meio de tanto "double talk". Só por causa disso houvera de merecer uns votitos.
E sim, os actuais, perenes, donos da esquerda PCP, BE e PS, já não são o que eram.
PS. Nos sistema eleitorais uninominais os mentirosos e os camaleões têm vida curta. Folhagem caduca. Mudam de cor, caiem no chão, transformam-se em lixo.
Por cá os partidos -lá dentro cheios dos mesmos de sempre- são folhagem perene seja qual for a Estação do ano.
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 16:41

É como diz: com o MRPP não há "double talk". É pão pão, queijo queijo.
E por falar em pão: o PAN que aprenda.
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De Anónimo a 03.10.2019 às 12:29

Por alturas do PREC a minha casa era perto de uma sede do MRPP, por ironia o antigo posto da GNR. Todos os dias eram dias de "festa", tiros para o ar, o COPCON a carregar e os "proletários" a ripostar.
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 16:40

Ironia mesmo, essa de usarem o antigo posto da GNR como sede.
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De António a 03.10.2019 às 12:36

É um engano pensar que o PCP e o BE estão mais fofinhos. Talvez mais pragmáticos, debaixo da pele new-age continuam a ser o que sempre foram.
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 13:23

Olhe que não, olhe que não. Tornaram-se tigres de papel. Costa aplicou-lhes a anestesia burguesa. Amansando-os.
Você imagina Jerónimo a ameaçar "partir os dentes à reacção", como fazia Cunhal?
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De Anónimo a 03.10.2019 às 13:26

A Luta Popular ainda aí está, em versão on-line…

https://www.lutapopularonline.org/



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De jpt a 03.10.2019 às 14:05

O "desvio de direita" do PCP é óbvio e custou-lhe grandes perdas autárquicas. Vamos a ver nestas eleições, mas parece-me que o afastamento da hipótese da maioria absoluta do PS reduzirá a pressão do voto útil e a derrota não será tão grande como pareceu até há pouco. Mas gostaria de saber se ainda usam a velha palavra de ordem "assim se vê a força do PC ..."

Quanto à congregação de grupelhos sigo a análise de Cunhal, "o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista". Ou, no chilrear actual, "@ radicalism@ pequen@-burguês de fachada socialista"
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 16:46

Cada vez me convenço mais que Cunhal, hoje, acusaria este PCP de perigoso "desvio de direita".
Não por acaso, alguns dos seus mais fiéis discípulos no partido foram desde o primeiro dia ferozes opositores da geringonça. Se o PCP merecesse o mesmo tratamento informativo dos outros partidos, este tema já teria sido diversas vezes abordado em jornais e televisão.
Quanto aos bloquistas, Cunhal diria deles isso mesmo: radicais pequeno-burgueses de fachada socialista, aliados úteis da reacção, etc. Recorrendo a todo o arsenal retórico do leninismo.
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De Justiniano a 03.10.2019 às 16:09

O que estes últimos 8 anos anos demonstram é que ao consenso do Estado de Direito liberal e social democrático que vinha praticamente dos fins, juntou-se-lhe o PCP, não por convicção mas por reconhecimento da utilidade da linguagem (o bloco já era versado no discurso legitimador liberal e na justificação do Estado social de direito. Cultua-o com um rigor subversivo assinalável e expondo as suas contradições e a falha de salvaguardas). A este consenso acresce um outro, a que chegou o PS, o consenso da aparência de boas contas!! Táctico, precário e naturalmente artificial, como tudo no PS!
E emergiu um novo e último consenso, talvez o mais pernicioso e destruidor, ao qual chegaram por cobardia, tibieza ou mera sucumbencia o PSD e CDS, o consenso do experimentalismo social e cultural (em breve ecológico, também)!! No espaço de 45 anos passámos da feliz melancolia ao hedonismo histriónico!
E o PS é, e sempre foi, a sínteses de todos os consensos, um consenso embriagado!!
E tudo isto em ambiente de festa;




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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 16:52

A "síntese de todos os consensos", precisamente, faz do PS uma espécie de reedição do velho PRI mexicano. O partido do sistema, por excelência. E, por extensão, o partido do Governo - com excepções que servem apenas para validar a regra.
Não por acaso, o PS governou em 17 dos últimos 25 anos - com Guterres, Sócrates e Costa. Tem estado no poder durante 68% do tempo neste último quarto de século.
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De Vorph Valknut a 03.10.2019 às 17:01

Em jeito de anedota. A minha mãe fez parte das campanhas de alfabetização pós 25 de Abril. Durante uma reunião, o Arnaldo Matos, que eram um dos "comandantes" daquilo, disse para a minha mãe baixar o tom. Com orgulho, da minha santa mãe, ela mandou - o bugiar.

Sim, penso que a geringonça deu cabo dos partidos da esquerda. Revelaram que no Poder não se distinguem do PS, vá lá, da sua ala mais à esquerda. É penoso ver o pessoal do Bloco /PC tentar justificar as sucessivas aprovações dos orçamentos socialistas, como penoso é assistir à traição, do PS, dos partidos que permitiram formar governo. Falta abrir espaço à Direita. À esquerda, os únicos partidos com futuro serão sociais democratas, mais nada. O marxismo está enterrado. À Direita falta Manuel Monteiro (não me venham com a ND).
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De Pedro Correia a 03.10.2019 às 23:27

Interessante reflexão.

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