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Foi-se a ternura

por Teresa Ribeiro, em 03.02.14

Foi amor à primeira vista. Manhattan, a que assisti ainda adolescente, levou-me logo ao tapete. Nunca ninguém me tinha feito rir assim da natureza humana. Era como se a cada gargalhada ele me insuflasse subtis doses de ternura. Fiquei viciada em Woody Allen. Adorei todos os seus filmes, mesmo aqueles de que não gostei assim tanto. Brincava com essa minha cegueira de convertida. E chamava-lhe "o meu Woody". Quando Mia Farrow armou escândalo acusando-o de pedofilia, não hesitei em alinhar com o coro que a acusava de histeria e despeito. Afinal eu conhecia-o. Aquela alma sensível que timidamente se escondia atrás de um sentido de humor irresistível podia lá assediar sexualmente uma criança.

Ontem levei um duche frio. É bem feito. Penso que em dado momento me terei convencido que aquela aparência frágil, absolutamente desprovida de glamour, era o seu certificado de garantia. Provava que a imperfeição que lhe cabia era sobretudo a que se via do lado de fora. Que tonta! Quem me mandou chegar à meia idade ainda a acreditar que há génios bons. 


21 comentários

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De Duche frio a 03.02.2014 às 16:17

Duche frio é ler o seu texto. Seguindo o link que deixa e lendo o texto do Público, a única conclusão que se pode tirar é que é necessária cautela a fazer juízos definitivos. Não se aqueça, esfrie antes destes julgamentos na praça pública.
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De Teresa Ribeiro a 03.02.2014 às 21:23

Concedo. Talvez porque sempre o coloquei nas alturas, reagi a quente às notícias. Woody Allen tem direito à presunção de inocência e até agora ainda nada se provou contra ele. Por outro lado sabe-se que é difícil provar a culpa dos abusadores e que os mesmos negam sempre o que fazem até ao limite do possível.Também é um clássico acusar as vítimas de perturbações mentais quando decidem fazer as suas denúncias.
Se nada se provou contra Allen, também nada comprova que Dylan sofra de perturbações mentais e nesse caso é legítimo interrogar-nos sobre o que levará uma pessoa mentalmente sã a fazer este espalhafato.
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De Mário Pereira a 04.02.2014 às 23:11

Não foi só a Teresa que pensou assim. Comigo passou-se exactamente o mesmo. Independentemente da prova ou falta dela - questão para os tribunais -, costuma dizer-se que não há fumo sem fogo. E uma acusação dessas não se faz de ânimo leve. Não há ídolos puros, essa é que é essa. E o WA já tinha mostrado que é avariado da cabeça, quando se apaixonou pela filha adoptiva. Um autêntico estafermo, ainda por cima...
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De Sc. a 05.02.2014 às 02:12

Na altura, lembro-me que Woody Allen exclamou algo como "ainda por cima num sótão! Eu, que tenho claustrofobia"...

Pareceu-me uma defesa eloquente - e todos os claustrofóbicos terão pensado o mesmo: acreditei em Allen então e acredito agora.

Já agora, em Portugal "cientifica-se": mas as pessoas normais e mentalmente sãs não mentem nem são más? A maldade é um sintoma de doença, uma deficiência de uma proteína?
Lemos pouco Shakespeare e, por isso, temos mais facilidade em esquecer o abismo que somos todos.

(E também gostamos de "jurisdicionalizar" as nossas convicções: o "in dubio pro reo" é um princípio da apreciação da prova de um réu num tribunal. Aquilo em que acreditamos - porque não interfere com a liberdade de outrém, pode obedecer a outros critérios mais apertados ou mais largos - que não terão de ser, por isso, mais ou menos justos).
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De Teresa Ribeiro a 05.02.2014 às 12:15

Tem toda a razão naquilo que diz. Acreditamos naquilo que gostamos de acreditar e para isso simplificamos. Lemos pouco Shakespeare ou não lemos de todo. Em contrapartida não falhámos na infância os clássicos que nos levam a raciocínios maniqueístas, do género: os bons são sempre bonitos, os maus são sempre feios (que mais tarde extrapolamos para: as pessoas que admiramos não têm facetas obscuras).
Posto isto, assumo que jurisdicionalizei a coisa. Foi mais forte do que eu porque, ao contrário do Sc., fiquei com grandes dúvidas quanto à inocência de WA.
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De cristof a 03.02.2014 às 18:02

como anda por aqui(medias) ainda mais lamento que tal como eu, nao se tenha um olhar filtrado do que gente importante para os media interessados "aparentam" na imagem vendida. Olha quem ! ao profissionalismo anglosaxonico não caça com furoes cegos e como dizia a minha avó não se dá ponto sem nó - senão acontece como em Portugal, Espanha, Italia...são os depositários duma "amizade" de seculos univoca. Nos fornecemos e "eles" recebem.
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De Cristina Torrão a 03.02.2014 às 18:46

“Woody Allen é um testemunho vivo da forma como a nossa sociedade falha aos sobreviventes de abuso sexual” - essa é que é essa!

Ser génio, infelizmente, não é garantia de se ser boa pessoa (há muitos exemplos, em todas as artes). E pessoas como estas continuam a acreditar que não estão a fazer mal a uma criança, se a molestam sexualmente. Porque, pensam eles, as crianças esquecem. E porque é fácil manipulá-las. E porque se acredita mais facilmente num génio famoso do que numa pessoa perturbada psicologicamente. E porque se pode acusar uma ex-mulher de ser histérica e de se querer vingar com acusações de o ex-marido ter molestado os filhos, por ele ter nova namorada.

Pessoas destas são do mais cobarde que há e pensam que estão em cima da lei. O mundo é injusto, Teresa, e não há nada que possamos fazer para o mudar! É horrível, eu sei, mas é assim. Ainda hoje li o resumo de um filme sobre uma mulher-polícia canadiana que esteve em Sarajevo, no pós-guerra, em missão de paz. Apercebeu-se do tráfico europeu de mulheres jovens, que são usadas como escravas sexuais. Quis denunciar, foi calada, afastada. Porque os funcionários das Nações Unidas estão envolvidos e muitos usam os "serviços" dessas jovens. Um deles (das Nações Unidas) parece que conclui assim o caso: "Pois é, todas as guerras têm as suas putas".

O mundo é assim!

P.S. Vou verificar o nome do filme.
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De Teresa Ribeiro a 03.02.2014 às 21:30

Já levei um puxão de orelhas aqui na caixa de comentários, Cristina. Enfim, pode não ser o que parece. Gostaria muito que assim fosse, mas está difícil de acreditar que passados vinte anos Dylan tenha tomado esta iniciativa porque é dada a fantasias persecutórias de cariz sexual induzidas pela mãe.
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De Cristina Torrão a 04.02.2014 às 12:39

Penso exatamente como tu. Dou-lhe o benefício da dúvida (ao Allen) mas é pequeno, muito pequeno.
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De Cristina Torrão a 03.02.2014 às 19:02

O filme chama-se, no original, The Whistleblower".

http://en.wikipedia.org/wiki/The_Whistleblower

O que disse em cima, li-o na minha revista de TV alemã. Vai ser transmitido hoje na ZDF, mas, infelizmente, não posso ver. A citação é de uma personagem do filme, funcionário das Nações Unidas.
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De Teresa Ribeiro a 03.02.2014 às 21:30

Obrigada, Cristina. Vou ver.
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De João André a 04.02.2014 às 09:21

Tive uma reacção semelhante Teresa, mas também já tinha sentido algo do género quando Allen deixou Farrow e se juntou à filha adoptiva dela. Pareceu-me algo de... incorrecto (para ser gentil).

Estas declarações não são, na realidade, novas. São uma história com 20 anos e que não receberam na altura a mesma atenção porque a internet era coisa de meia dúzia de geeks e não exisitam blogues, facebooks ou tweeters. Talvez tenha sido verdade, talvez não. A memória vívida do caso que Dylan Farrow parece demonstrar parece-me estranha. Normalmente é difícil ter memórias tão claras de coisas que aconteceram aos 7 anos. Além disso a mente gosta de completar lacunas usando a sua própria imaginação (de forma totalmente inconsciente). Nada disto implica que o abuso não tenha sucedido, apenas tenho por certo que não sucedeu da forma que Farrow relata.

Ainda assim, há um caso mais antigo e que foi provado: Roman Polanski a abusar uma jovem. Por causa disso Polanski não pode entrar nos EUA (está condenado a prisão). Isso não impede que seja celebrado em Hollywood. A relação dos artistas com as falhas humanas sempre foi e sempre será complexa: é possível celebrar um génio que seja um crápula? É isso que, no fundo, a carta de Farrow discute. Se Allen é um crápula ou não, será assunto para os jornais, redes sociais, convicções pessoais ou justiça. Já o debate sobre natureza humana e génio artistíco pode ter lugar sem necessidade de factos.
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De Teresa Ribeiro a 04.02.2014 às 12:28

Há vinte anos perdoei-lhe sem grandes reservas a relação que estabeleceu com Soon-Yi, porque tomei como rigorosas as suas justificações: de que nunca estabelecera uma relação parental com ela, que mal se viram durante a sua fase de crescimento, que ela era uma mulher adulta, etc, etc. O casamento que se seguiu foi a cereja no bolo, que reforçou a minha ideia de que Allen era uma pessoa decente. Já nessa altura Mia denunciou o caso com Dylan e apesar de ainda não haver redes sociais e uma tão massiva utilização da Internet foi muito falado nos media. Mas eu, como expliquei no post, recusei-me a acreditar e considerei não passar tudo de uma infame difamação dela, movida por despeito e desejo de vingança.
O que me levou a mudar de opinião agora? Foi ser a própria Dylan a desenterrar a história e - pormenor importante - a ser apoiada pelo filho biológico de Allen. Pode ter sido tudo induzido pela mãe desvairada? Pode. Fui muito emocional a reagir? Sim. Mas a dúvida instalou-se, nada a fazer. E levou-me justamente ao ponto de que falas: à reflexão sobre a natureza humana e o génio (seja ou não artístico), que dá pano para mangas. Sabemos hoje de tantos crápulas que nos fizeram vibrar de emoção. Assim de repente lembro-me do Chaplin, que foi um monstro com as mulheres, do Tolstoi, de Picasso... há tantos exemplos.
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De Cristina Torrão a 04.02.2014 às 12:55

Também me lembrei desse caso com a Soon-Yi e comparei-o a umas declarações de Michael Douglas. Todos sabemos que Douglas foi um mulherengo, parece ter acalmado com a idade e depois do casamento com a Catherine Zeta-Jones (que, neste momento, nem sei se ainda persiste). Mas não é pedófilo. E houve algo, há uns anos atrás, que me pôs a pensar. Douglas contracenou com Gwyneth Paltrow num remake daquele clássico de Hitchcock (desculpem, mas não me lembro do título), em que o marido contrata um assassino para matar a mulher e constrói um álibi (quase) perfeito. No original de Hichtcock, a mulher era protagonizada por Grace Kelly. No remake, o casal é constituído por Douglas e Paltrow. Acontece que Paltrow é filha de um conhecido produtor de Hollywood e lembro-me de Michael Douglas dizer que, para ele, foi estranho e até difícil contracenar com uma mulher que conheceu em criança, que acarinhou e com quem brincou. Ora, tratava-se apenas de um filme, Douglas é um profissional como poucos e nem há cenas muito íntimas entre eles.

Por isso, acho que essa relação de Woody Allen com Soon-Yi tem algo de estranho, sem dúvida... E, na altura, também achei que a Mia Farrow tinha era ciúmes. Mas, sendo uma tentativa de calúnia, que não deu certo, é mesmo muito esquisito que insistam.
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De Teresa Ribeiro a 04.02.2014 às 21:19

Pois, também me parece muito estranha essa insistência.
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De Francisca Prieto a 04.02.2014 às 12:13

Bolas Teresa, estou tão solidária com o teu sentimento. O problema é que nunca mais vou conseguir ver os filmes dele com a mesma descontração. Raismapartam.
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De Teresa Ribeiro a 04.02.2014 às 12:30

É isso mesmo, Francisca. Acabou-se o fascínio. Tenho tanta pena!
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De Caetano a 04.02.2014 às 19:29


Segui o link , li o texto e os textos nele linkados , confesso que não consigo estabelecer essa acusação nem tão pouco o seu contrário, mas é precisamente o julgamento sumário aquilo que mais temo, num ou noutro sentido, como o texto e os comentários ilustram. Já vi um pai ser acusado de abuso sexual de um filho num processo de divórcio, os técnicos já o descrevem como um clássico, quatro anos depois o cambalacho montado pela mãe e falsas testemunhas foi descoberto, tomo portanto a minha dose q.b. de cautelas e caldos de galinha, a prudência também o recomenda. É fácil condenar as pessoas ao pelourinho ou à fogueira. Repito, não sei se é culpado ou inocente, causa-me muita impressão ver alguém, publicamente, apontar o dedo com base numa "fezada".
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De Teresa Ribeiro a 04.02.2014 às 21:38

Não me vou repetir, Caetano. Já me pronunciei nesta caixa de comentários o suficiente sobre "julgamentos sumários". A questão agora não é o que diz a Mia Farrow, mas o que diz a "alegadamente abusada", portanto fia mais fino.
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De José Menezes a 04.02.2014 às 21:50

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