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Fim do bar aberto?

por Diogo Noivo, em 30.01.17

CGTP_UGT.jpg

 Carlos Silva tenta explicar a Arménio Carlos o que é um papel assinado

 

Por dever de um ofício que tive em tempos, participei em várias reuniões com centrais sindicais ou com sindicatos a elas associados. Recordo-me que negociar com a UGT e com os seus afiliados era muito duro, tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista político. Não era fácil chegar a acordos, mas era possível. Já com a CGTP o processo era substancialmente mais fácil: raramente se negociava. A central liderada por Arménio Carlos entrava nas negociações dizendo que não ia negociar – porque era contra o sistema capitalista de mercado, porque considerava a austeridade um crime comparável ao Holocausto, ou por qualquer outra razão que não admitia excepções ou cedências. No entanto, exigia sempre permanecer à mesa. Ficava calada, ou a colocar cascas de banana com o intuito de descarrilar o processo negocial. Em resumo, a UGT cedia em troca de cedências dos seus interlocutores; a CGTP queria obter cedências, mas nunca estava preparada para abdicar de uma vírgula.
Outra grande diferença entre as duas centrais sindicais está nos limites. Para a CGTP vale tudo. Em 2013, participei numa negociação com sindicatos afectos à UGT e à CGTP. Foi um processo moroso, difícil, mas lá chegámos a uma base comum de entendimento. Quando nos preparávamos para assinar o acordo, um dos sindicatos próximos da CGTP aparece com uma nova reivindicação: queriam que os trabalhadores em apreço deixassem de pagar a parte correspondente ao subsídio de desemprego na contribuição para a Segurança Social. O argumento? Simples: somos funcionários públicos, nunca seremos despedidos, logo não faz sentido estarmos a contribuir para o subsídio de desemprego dos outros. Importa ter em mente que 2013 foi o annus horribilis do desemprego na Europa. Neste ano os portugueses mostram ter uma solidariedade à prova de bala, mas para este sindicato qualquer argumento – mesmo que eticamente abjecto – valia para dinamitar o acordo.


A única central que obrigou os sucessivos Governos a ceder foi a UGT. Se tivermos presente que os ganhos reais para os trabalhadores se obtêm por via de negociações ou de acordos entre sindicatos, patronato e Governo, uma parte muito importante dos ganhos laborais em Portugal deve-se à UGT. O que tem um custo para esta central sindical. Ao assinarem os acordos são de imediato acusados de traição pela CGTP. Na psique do sindicalismo radical, apostada numa luta que os levará à vitória final, os Governos são por definição entidades mefistofélicas. Como tal, um acordo, mesmo que vantajoso, funda-se num pecado capital inaceitável. No fundo, para a CGTP, entrar num acordo substantivo com um Governo implica mutilar a sua identidade política e ideológica. Por essa razão, em 2006, a única vez em que a CGTP aceitou subscrever um acordo a sério (um momento tão inédito que é considerado um marco histórico), não houve cerimónia de assinatura. A central sindical, liderada na altura pelo inefável Carvalho da Silva, assinava com vergonha, ainda que do acordo resultasse um aumento do salário mínimo. E, claro, foi uma questão de tempo até que a CGTP imputasse os aspectos negativos do documento à UGT.
Carlos Silva, Secretário Geral da UGT, terá chegado ao seu limite. Se a CGTP quer uma adenda ao último acordo de concertação social, então que o assine primeiro. É um mínimo olímpico. Veremos se a CGTP se qualifica. Para a central sindical de Arménio Carlos, a relação com os sucessivos Governos tem sido uma espécie de bar aberto: entram, servem-se, fazem a festa, e alguém que pague a conta. Esperemos que Carlos Silva seja bem-sucedido na missão de trazer um módico de decência ao estabelecimento.

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9 comentários

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De Manuel Silva a 30.01.2017 às 10:16

Caro Diogo Noivo:
A CGTP confunde permanentemente o «Género Humano com o Manuel Germano» (frase muito feliz e operativa do escritor Mário de Carvalho).
E este Sectário-Geral fala mais depressa do que pensa: pelo que a coisa, se já não era prometedora, torna-se ainda mais difícil.
Surpresa para mim é o António Chora, conotado com os líricos do BE, ainda piores em fantasia do que o PCP, porque tocam música sem pauta, digo, surpresa é a sabedoria e o bom senso que tem revelado à frente da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa.
E não sei se imagina o cerco que lhe tem sido feito pelos sindicalistas do PCP, que estão salivantes de desejo que se reforme para abocanharem o osso.
Temo pela permanência da Autoeuropa entre nós, cuja saída seria uma tragédia: representa 1% do PIB e muitos milhares de postos de trabalho directos e indirectos numa região deprimida, apesar de perto de Lisboa.
O rendimento per capita da Península de Setúbal é de 12 mil euros e o da zona norte, à volta de Lisboa, é de 27 mil (números arredondados).
Não sendo o maior, um grande problema do PCP (e seus sindicalistas) é que ainda usam leitores de cassetes, no tempo do digital e da cloud.
Quando transferem informação do leitor de cassetes para o suporte dos interlocutores, e vice-versa, aquilo só faz ruído.
Eu nem me lembro quando deitei fora um leitor de cassetes que havia cá em casa, talvez há 30 anos e quase já não uso os CD e os DVD.
E conheço razoavelmente bem a situação na Margem Sul e na Autoeuropa, vivo numa câmara do PCP que tem maioria absoluta de 46% com apenas 17,98% dos votos dos eleitores, à conta da abstenção de 62% (por ausência de alternativas credíveis) e do milagre do Santo Método do Hondt.
Sei como se comportam aqueles sujeitos e a mistificação que é a sua apregoada «boa gestão» autárquica.
A sindical é semelhante.
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De Anónimo a 30.01.2017 às 10:48

Bem exposto. Mas é de realçar que praticamente são tudo sindicatos da função pública. Que não estão a negociar directamente com o "patrão" -o contribuinte real, o empresário e o trabalhador do privado- mas sim atravéz de entreposto negociador ... outro conjunto de funcionários públicos, o "Estado".

Os representantes dos "patrões" privados não deviam colaborar NESTA dita "concertação social" encenada pelo Estado. Gostaram de ser tratados como "gado"?. Metáfora socialista?.

Se o promotor Estado e as centrais da função pública querem negociar, óptimo. Concertem-se. Se lhes dá muito gosto utilizar os termos "trabalhadores" e "patrões", por. Mas na realidade são tudo "trabalhadores" da função públicado a viver à sombra da árvore das patácas, vulgo a AT, Autoridade Tributária.

Alcunhado de Socialismo este ordenamento social impôs-se em certos Países.
Afinal um mal encenado regabofe com consequências bem conhecidas.
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De Manuel Silva a 30.01.2017 às 11:20

Senhor Anónimo (das 10:48):
Como eu gosto deste nome, e é muito popular hoje em dia.
Disse: «praticamente são tudo sindicatos da função pública»?
O António Saraiva, o João Machado, o Francisco Calheiros e o Vieira Lopes representam, todos eles, sindicatos da Função Pública?
Que tontice!
De facto, a sua tontice confirma que vivemos no mundo da pós-verdade?
O que interessa é o que se diz nas redes sociais (e nos «media») independentemente de ser verdade ou não.
Normalmente muito coisa nem é verdade.
Depois, as mentiras – ou pós-verdades – circulam e fica criados os factos alternativos.
É neste ambiente que nós vivemos.
Cada um na sua bolha, cada um com as suas verdades.
A realidade passa ao lado, pois poucos a conhecem verdadeiramente.
O Umberto Eco, o último grande intelectual europeu recentemente desaparecido da nossa convivência, dizia a propósito das redes sociais: «No momento em que todos têm direito à palavra na Internet, temo-la dada aos idiotas. Antigamente os idiotas falavam na tasca da aldeia, mas eram logo mandados calar. A asneira ficava por ali. Hoje têm direito à palavra na Internet (com difusão para para todo o mundo) em pé de igualdade com os prémios Nobel».
Como têm que dizer alguma coisa, dizem o que sabem: NADA.
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De Achtung a 30.01.2017 às 13:23

Manuel, adiciono que outra função primordial dos Sindicatos é prestarem apoio jurídico às situações de despedimento ilegais (cada vez mais comuns, os despedimentos sem indemnizações, sem pré-aviso, etc- E isto ocorre porque muitos empregadores sabem que em virtude da situação económica delicada do despedido - salários baixos, etc - o recurso à via judicial é complicada.
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De Manuel Silva a 30.01.2017 às 15:01

Achtung:
É evidente que os sindicatos são elementos ainda essenciais no mundo actual, no futuro ninguém saberá.
Eu tanto me insurjo contra alguns extremistas fanáticos da Direita que acham que nunca deveriam ter existido, como contra os fanáticos da Esquerda que os instrumentalizam para lutas partidárias ou outros fins menos próprios.
Mas tem toda a razão no que diz sobre essa vertente actual.
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De JS a 30.01.2017 às 11:16

Bem exposto. Mas é de realçar que centrais sindicais e sindicatos da função pública são Estado.

Os representantes dos "patrões" da actividade privada não deviam colaborar NESTA actual "concertação social" promovida e encenada pelo Estado. Gostaram de ser tratados como "gado"?. Metáfora socialista?.

Se o promotor Estado e as centrais da função pública querem negociar, óptimo. Concertem-se. Se lhes dá muito gosto utilizar os termos "trabalhadores" e "patrões", porque não?. Mas na realidade são tudo "trabalhadores" da função pública a viver à sombra da árvore das patácas, vulgo a AT, Autoridade Tributária.

O privado é outra "guerra". Negociações podem e devem ser orgazinadas, por empresários e trabalhadores da economia privada.

E se o "Estado" quer fazer prevalecer uma qualquer sua autoridade, para os seus empregados, uma espécide pescadinha de rabo na boca, -e para os empregados do privado- é só legislar e assumir as consequências.

Alcunhado de Socialismo este ordenamento social impôs-se em certos Países. Um mal encenado regabofe com consequências bem conhecidas.
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De Salazar Marxista a 30.01.2017 às 11:48

Infelizmente a CGTP é o braço armado do PCP, tendo sido a principal responsável pelo descrédito do movimento sindical. É muito triste e imoral usar as reivindicações justas de quem trabalha como arma política.
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De JS a 30.01.2017 às 13:36

Como é de ver a versão anónimo foi enviada estemporaneamente sem estar na versão final. As minhas desculpas.
É verdade, há (muitos) patrões que também são trabalhadores.
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De Joaquim azevedo a 31.01.2017 às 16:57

Pensei que aquele papel fosse a cábula do que ele tem que dizer ao tribunal enquanto testemunha abonatória do patrão Ricardo Salgado.
Espero que aproveite também para lhe agradecer a promoção á cadeira de secretário geral da UGT. Demonstrar gratidão fica bem a qualquer um.

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