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Ferro Rodrigues

por jpt, em 14.12.19

0378.jpgQuando vivia em Maputo contactei - por razões profissionais ou conjugais - com inúmeros governantes portugueses ali visitantes, na sua maioria socialistas. Oscilavam entre o pungente (Vitalino Canas era um exemplo tétrico de défice mental) à extrema compostura arguta (Sousa Franco ou Luís Amado foram disso exemplos). Isto não é uma avaliação política: um imbecil nunca poderá ser bom governante mas alguém muito decente e capaz pode falhar rotundamente. É apenas uma consideração pessoal. Recordo isto devido ao episódio "vergonha" que Ferro Rodrigues acaba de protagonizar na AR a que preside. Pois há cerca de duas décadas ele visitou Maputo como ministro e a impressão que deixou foi a melhor: educado, afável, muito bem preparado.

Politicamente pouco me interessa. Para mim ele é, acima de tudo, o homem que acabado de ser eleito presidente do grupo parlamentar do PS, sob o novo secretário-geral Costa, foi discursar ao parlamento reclamar o legado governativo de Sócrates (estava este, então recém-regressado ao país, a pavimentar a sua via para Belém, entre posfácios de Eduardo Lourenço, conferências sobre Rimbaud, e elogios alheios ao seu magnífico PEC4). O qual foi detido logo a seguir (julgo que até na semana seguinte). E deixemo-nos de coisas, se até eu, mero emigrante de longo prazo, vulgar antropólogo docente, sabia desde 2007/8 das trapalhadas da banca, das aleivosias da malta que o rodeava, das coisas bem estranhas dos negócios em Moçambique (sobre as quais ninguém fala), do combate à liberdade de imprensa - e do quão misteriosa era a fonte dos seus recursos pessoais - é completamente impossível que o seu predecessor no PS tudo ignorasse. Sabia-o perfeitamente, sabiam-no os seus mais próximos (como o sabiam todos os membros daqueles governos, e o pessoal "menor" circundante daquele poder). Ou seja, Ferro Rodrigues não foi apenas conivente com o socratismo. Reclamou-o como legado a preservar. E o seu opróbrio (vede como evito o termo "vergonha") é esse.

Pode agora surgir Ferro Rodrigues a querer censurar o léxico do extremo-direitista Ventura, erro crasso que este muito agradece, como é óbvio. Mas o que me nada me surpreende é a impudicícia (vede como evito o termo "vergonha") com que os socialistas defendem esta patetice. Explico-me melhor: acabo de ler no mural FB de um prestigiado socialista a sua reflexão sobre o caso, até elíptica. E no seu mural há um comentário que ele acolhe, e até responde plácido ainda que discordante: trata-se de uma veemente concordância com Ferro Rodrigues aposta por um deputado (poeta,filósofo, bloguista) importante deste poder. Porfírio Silva de seu nome, o homem que acusou Passos Coelho de usar o cancro da sua mulher como propaganda eleitoral.

A minha pergunta é esta: pode Ferro Rodrigues, que aceita ombrear no seu grupo parlamentar com um filho da puta destes, ter algum critério sobre o léxico alheio? E já nem pergunto o mais óbvio, pode alguém que aceita dialogar com um filho da puta daqueles colher algum respeito pelas suas opiniões?

No meio disto quem se sai a rir, claro, é o comentador da bola. Irá longe, parece-me.


19 comentários

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De Vento a 14.12.2019 às 10:32

Procurando analisar o sentido da posta, verifico que jpt termina com uma nota poética. Nota esta que me fez entrar na "circulatura do quadrado" e recordar um episódio daqueles espectadores que se deslocaram a um concerto - que de concerto tinha nada, pois era só um - para assistir à actuação de um violinista.

Estava o violinista na metade de sua "performance", quando da audiência surgiu uma voz:
Sai do palco violinista filho da puta.
De imediato outra voz se fez sentir, ainda mais indignada:
Quem foi que chamou este filho da puta de violinista?

Acabei de compreender que a "circulatura do quadrado" é aquela que nos engaveta sempre no mesmo espaço. Não há como sair.
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De jpt a 14.12.2019 às 10:43

obrigado por encontrar alguma nota poética neste enojado desabafo
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De Vento a 14.12.2019 às 12:45

Compreendo seu enojado desabafo. Transcendendo a pepita com o adequado quilate que nos oferece, é minha opinião que qualquer alusão à existência de um governo bem como de uma estrutura governativa em Portugal, baseada nos tradicionais 3 pilares, é um mero eufemismo. Os eufemismos servem para suavizar o nome dado à realidade.
Explico:
Portugal não tem governantes: tem títeres hipotecados a Bruxelas que na assembleia se digladiam para fazer parecer que nenhum deles está sob esta realidade.
Conclui-se que os funcionários de um governo supranacional estão aí para defender seus postos e presumirem que possuem uma estrutura base de apoio que legitima a cedência e rendição com que presentearam o país. PS, PCP, BE são os seguidores incondicionais da perspectiva Schauble, que deixou também claro como se poderia anexar um dito governo de esquerda na Grécia através da neutralização de Varoufakis.

Esta realidade transporta-me para a regência de Portugal sob o domínio dos Filipes.
Posto isto, resta ao povo português sentir vergonha na cara para transformar este momento em um novo momento de glória. Até que surja a vergonha, carreguemos a cruz, isto é, com os títeres.
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De Anónimo a 14.12.2019 às 13:53

Haja Fé, Vento e São Jorge proteger-nos-a.

WW
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De Vento a 15.12.2019 às 18:42

Um abraço WW.
É um prazer "vê-lo" por aqui. Festas Felizes.
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De Joaquim Ramos a 14.12.2019 às 10:47

O episódio "vergonha" de Ferro Rodrigues são dois em um. O acinte a Ventura e logo a seguir o fazer-se despercebido à deputada Joana Mortágua.
Recordando o grande Eça, "Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos... pelo mesmo motivo!!"
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De jpt a 14.12.2019 às 11:15

Não apanhei esse episódio com Mortágua. Tenho que ir procurar
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De Anónimo a 14.12.2019 às 12:32

Claro e muito enfático.
A Sr .ª deputada bloquista do alto da sua arrogância abordou o problema do assassino amianto iniciando a sua intervenção: - É uma vergonha...
Ferro Rodrigues ignorou.
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De jpt a 14.12.2019 às 13:01

E essa história do amianto é mesmo uma vergonha.

Quanto a Ferro Rodrigues apenas me repito: Porfírio Silva é um imundo filho da puta e quem aceita coexistir com um gajo daqueles não tem qualquer amplitude para avaliar outros. E, deixemo-nos de rodeios, o escumalha Silva é unha com carne com a vice no partido de Costa, e como tal com Costa. É esta gente que pode opinar como se de um ponto de tomada de vista superior?
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De Anónimo a 14.12.2019 às 13:49

É uma vergonha. É uma vergonha. É completamente vergonhoso o que o árbitro fez ao Benfica. Já não se pode jogar bolas para o ar, que é logo penalti. É uma vergonha. Estão todos feitos, para o campeonato ir outra vez prós mesmos.
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De Anónimo a 14.12.2019 às 13:54

Estava-mos todos à espera, as agências noticiosas de todo o mundo, para se falar deste assunto tão importante.
Quer dizer o árbitro assinalou um chega pra lá e temos um assunto para discussão.
Agora, ainda mais discutível, vai ser pedida uma explicação ao VAR
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De JgMenos a 14.12.2019 às 14:18

A inquietação da esquerdalhada face ao desrespeito pelo linguajar abrilesco,
a indignação de quem reclama o exclusivo da reivindicação sem contas feitas, por esta vir do que dizem ser a extrema-direita,
a cambalhota programática fácil e oportunista que cruza os terrenos de um monopólio que se tem por garantido,
tudo leva ao enervamento que descompõe um monumento à mediocridade e a nervosos aplausos da imbecilidade
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De Anónimo a 14.12.2019 às 15:21

"Birds of a feather", meu caro, "birds of a feather"...


JSP
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De billy a 14.12.2019 às 16:18

A ascensão da direita radica unicamente na incompetência atroz e corrupta do centro, no moralismo hipócrita da esquerda, e na negligência que tanto estes como os anteriores mostram com a sua obsessão em agradar ao funcionalismo público. Com este presidente, governo e AR bem podemos esquecer os problemas do clima. A tragédia humana já terá acontecido quando o enxofre cair das nuvens e as trombetas soarem nos Céus.
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De V. a 14.12.2019 às 20:18

É curioso que o ogre do parlamento não se incomodava muito quando chamavam "ladrão" e "gatuno" ao Primeiro-Ministro anterior naquela mui nobre e asseada espelunca.
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De marina a 14.12.2019 às 20:46

Que bem que escreve.Obrigada.
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De Anónimo a 14.12.2019 às 23:27

O chega pra lá quer lá saber do amianto, amanhã diz o contrário.
Ele tem o tique de comentador de futebol-tv, e o vergonhoso foi um golo anulado ao Benfica, o Ferro é do Sporting e não aguentou. Agora vai falar com o VAR.
Como é que Ferro foi naquela?

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