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Ferro Rodrigues no pós-Alcochete

por jpt, em 16.05.18

Ferro rodrigues.jpg

Há dois meses bloguei este "O governo está a dormir". A ideia era simples e nada original: a) ambiente em torno do futebol está um caldeirão fervente, acicatado pelos estratégias presidenciais nos grandes clubes nacionais e suas derivas confrontacionais na imprensa, em particular nos inúmeros programas televisivos de comentário futebolístico, já excêntricos ao registo de comunicação social pois mergulhados no mais barrasco da estética "reality show" - recordo que na véspera do assalto à academia do Sporting um comentador televisivo se levantou e ameaçou fisicamente um outro, afecto a outro clube, ante a relativa placidez do moderador e do total silêncio da direcção daquela estação. Sobre este ambiente escreveu ontem, "tão mais melhor", Ferreira Fernandes este belo artigo, "Alcochete";

b) num contexto destes era previsível que mais tarde ou mais cedo ocorreria um incidente grave nos campos de futebol ou nas suas cercanias, previsivelmente entre claques, esses tugúrios de auto-marginalizados. E, em fins de Março, perdi a paciência com o presidente do meu clube, que insultou o do Braga nos dias antecedentes ao Braga-Sporting, isto pouco tempo depois dos violentos incidentes aquando da visita do Benfica àquela cidade, assim estuporadamente incendiando (ainda mais) o ambiente e fazendo perigar o bem-estar dos espectadores, em particular dos visitantes, pois em clubística minoria. Mostrando-se totalmente irresponsável.

Diante de tudo isso era (e é) notória a inactividade governamental, o qual tem relativa tutela sobre os clubes e sobre os órgãos de comunicação social. Nem acções efectivas nem por indução, um total "deixa-andar" a denotar as pinças com que o poder trata o mundo do futebol, temendo perdas de popularidade.

Surge o ataque a Alcochete, afinal uma confrontação autofágica. Só agora, e decerto que pelo impacto mediático, o poder abana e intenta reagir. Anuncia-se uma "alta autoridade" ou similar. E o presidente da Assembleia da República vem fazer uma inusitada declaração política no próprio parlamento, sublinhando a sua condição de sportinguista. Vitupera o incentivo ao ódio, o populismo, o autoritarismo no mundo associativo, e em particular Bruno de Carvalho. Esteve bem. E aborda as acusações de corrupção que impedem agora sobre o Sporting (um clube em evidente descalabro) mas também sobre outros clubes, com particular relevo as sobre o Benfica.

Mas atente-se como ele o faz. Convoca as autoridades judiciais a investigar os clubes, pois, e di-lo com evidente acinte, dado que "sempre prontas para investigar, (e bem), os políticos" (e note-se as entoações, supra-explícitas). Deixemo-nos de rodeios, isto é um remoque do Presidente da Assembleia da República às investigações que recaem sobre o poder político, em particular sobre os anos de governação de Sócrates (aquela cujo legado ele reclamou no seu primeiro discurso parlamentar após ter sido eleito presidente do grupo parlamentar do PS quando Costa chegou a secretário-geral). Denota uma reacção crispada, um viés corporativo, um desagrado com o funcionamento das instituições. Em suma, aversão à democracia. É pelo menos pouco curial no presidente do parlamento. De facto, é muito mais do que isso, roça o inadmissível. E é totalmente demagógico que o faça a reboque de uma comoção generalizada, como a provocada pelo vil ataque de Alcochete.

O poder político acordou para a questão do ambiente do futebol. Mas, mostra-o o presidente da AR, levantou-se com os meneios de sempre. Impúdicos.

 

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14 comentários

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De V. a 17.05.2018 às 01:24

O PR ainda vá lá mas o PAR não tem rigorosamente nada de se pronunciar sobre este assunto — não é uma matéria de ordem legislativa e muito menos da esfera parlamentar ou das outras merdas ranhosas que ele tutela. O que ele está a fazer é a legitimar o interesse socialista em criar mais uma estrutura que não serve para nada a não ser para dizer que são eles que mandam e colocar mais cabrestos da laia dele em lugares de influência para blindar os discursos: i.e. definir o que se pode dizer sobre uma coisa e se quiseres uma fatia do bolo tens de fazer o que eu digo. Gente desta topa-se à légua. Jogam todos da mesma maneira. Dizer que é sportinguista é só para disfarçar.
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De jpt a 17.05.2018 às 09:01

O parlamento não é uma "merda ranhosa", é o centro institucional da democracia. E ele não o tutela, preside-o no modelo de primus inter pares. Quanto ao resto - e eu alonguei-me no postal, cometendo o pecadilho da auto-referência, exactamente para para o sublinhar - a situação abrasiva no futebol, e até pela desmesurada (e induzida) influência sociocultural que este vem tendo, é um assunto que convoca, e há muito tempo, o(s) acto(s) político(s). Como tal é pertinente que a segunda figura do Estado (independentemente se se goste ou não de quem ocupa o posto) aborde o assunto.

Quanto à modalidade com que o poder/governo decide enfrentar a situação, a tal anunciada "alta autoridade", isso é outro assunto. Mas não me parece que as declarações de Ferro Rodrigues sejam mecânicos reflexos de uma justificativa desse anúncio.
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De lucklucky a 17.05.2018 às 02:30

Isto é simplesmente um ataque à Justiça pelo nº2 do Estado usando como vector o Futebol.

Aliás ao autor que clama pela ainda maior politização do futebol não se admire depois pelos resultados que tiver. A contaminação da política pelo futebol é muito fácil. Demasiado fácil.
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De jpt a 17.05.2018 às 09:10

Eu não clamo por uma "politização do futebol" - quanto muito clamarei por uma desfutebolização da política e da locução sobre a política. O futebol é uma actividade omnipresente, daí que com grande importância social e económica - e também como veículo de transmissão de modelos culturais: as perspectivas identitárias eivadas de clubite, o paradigma de debate como se clubístico, o culto idólatra do sucesso a todo custo, a futebolização das aspirações e práticas das gerações novas, etc, a imersão de associações desportivas (a sociedade civil) em práticas de economia especulativa, algo sufragado pela paixão clubística, a constituiição de grupos sociais proto-marginalizados em torno da simbologia desportiva, etc. Tudo isto são assuntos de política. Não entender isso, resumir esta preocupação a um desejo de partidarizacão da política é ver mal a coisa
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De lucklucky a 18.05.2018 às 05:15

São assuntos de política? não serão ao invés assuntos de polícia e justiça? E já não há leis suficientes?

Eu percebo que é contra sua vontade, mas quanto mais a Política contacta com o Futebol e vice versa mais os dois lados ficam contaminados pelo mal do outro.
Para já, tem mais uma "autoridade" para mais uns tachos partidários onde irão parar os nosso impostos.
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De Meister Von Kälhau a 17.05.2018 às 08:35

Notei também a crítica indirecta, pelo desconforto do comentário, à investigação, pelo MP , de políticos. Mas que esperar de um homem habituado pela sua forma aos comentários simiescos:

Ferro Rodrigues diz a António Costa: "tou-me cagando para o segredo de justiça"

Não sendo de agora os partidos vêem no cargo de PAR um género de prebenda a certas figuras do paleolítico pelos serviços prestados à Nação degradando por isso a dignidade associada ao cargo. Num passado recente tudo figuras medíocres.

Quanto ao Futebol recordemos ainda o Canelas e o seu líder Fernando Madureira, líder dos Super Dragões que não tendo actividade profissional que o justifique se faz passear de Lamborghini pelas ruas do Porto , vivendo, ainda, numa das zonas mais caras do Porto. Será o homem informador policial ou algo mais para tamanha doçura no viver?






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De jpt a 17.05.2018 às 09:17

Não confundamos as coisas. Primeiro, estou crente de que, tal como celebrizou o especulativo Desmond Morris, todos somos símios nus. Mas o relevante é que expressão de Ferro Rodrigues foi dita num momento de grande tensão - no qual o homem estava a ser injustiçado, de modo soez - numa conversa telefónica entre dois homens que se conhecem. Não é curial atacá-lo politicamente por isso. Acho mesmo que nem é base suficiente para se considerar que ele conduz a sua actividade política segundo esse dito.

Quanto ao que refere sobre uma outra claque nada sei. Mas, e tal como refiro no anterior postal que ligo neste último, o problema destes grupos auto-marginalizados é transversal, não se trata do "meu" clube vs. os outros clubes.
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De Meister Von Kälhau a 17.05.2018 às 09:34

"O macaco é um animal demasiado simpático para que o descendamos dele"
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De jpt a 17.05.2018 às 09:56

Também é verdade, a degenerescência seria demasiada
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De lucklucky a 19.05.2018 às 01:25

Simpáticos? Directamente para o Aristocrata: Violentos e Sexistas

https://www.quora.com/Can-animals-tell-the-difference-between-male-and-female-humans

These species are found in large number in forests in Northern Kerala(India) . The place is under strict wildlife laws so farmers can do nothing to defend their crops .All gun licence in the area got cancelled and the shotguns are confiscated. The monkeys feed on almost all crops. They dig up young plantain trees and eat the core. Eats all fruits and damage plants & properties.

My ancestral home is situated there. All the above disturbances occur there and the only to shoo them away from the property is presence of a human male. The moment my uncle steps out of the home they make a run for the trees. But that is not the case for the women at home. The monkeys simply ignore them and continues the mischief.
The curious thing is that this strategy worked with even small boys. I really don’t know what make the monkeys fear a 7 year old boy than a 30 year old woman.

---
In India there are a lot of stray monkeys that keep causing havoc. They will try destroying whatever they can if they don’t find food.
Generally they are scared of air guns and would run if you fire empty rounds also. But these monkeys were very smart whenever our Land Lady came out with the gun, these monkeys would not even move from their position. They knew she would not harm them. But if her son or husband came out with the air gun they would vanish in seconds.

-----
I can tell you for sure that baboons know the difference between men and women! When my son was young we went to a birthday party in the Nairobi National Park. Here are the baboons enjoying the picnic tables.

When the mothers or children tried to chase the baboons away, they wouldn't really care. The would scamper behind us, trying to grab the snacks. If we got too close, they would show signs of aggression.

But when the one father in our group approached the baboons, they would slink away without putting up a fight. Every time he sat down, they would come bounding back.
I found their disrespect for women very disheartening, perhaps because their overall behavior seems so similar to our own, yet no amount of telling them I’m a professional, responsible, independent adult would change their views.

Ou
http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/6959209.stm

Nachu's women have tried wearing their husbands' clothes in an attempt to trick the monkeys into thinking they are men - but this has failed, they say.

"When we come to chase the monkeys away, we are dressed in trousers and hats, so that we look like men," resident Lucy Njeri told the BBC News website

"But the monkeys can tell the difference and they don't run away from us and point at our breasts. They just ignore us and continue to steal the crops."

In addition to stealing their crops, the monkeys also make sexually explicit gestures at the women, they claim.
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De Meister Von Kälhau a 19.05.2018 às 09:16

Falávamos nos Bonobos
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De lucklucky a 19.05.2018 às 19:46

Pois pois...
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De Vento a 17.05.2018 às 13:12

Eu não vejo que o acontecimento de Alcochete possa demonstrar um caldeirão fervente em torno do futebol. O comportamento de um pequeno grupo, neutralizado pela polícia, não devia ser combustível para tanta histeria.
Ao chamar-se à colação "O Macaco Nu" de Morris, o que se deve realçar também são as tribos das quotas, as partidarites, as tribos ditas jornalísticas, as tribos metoo, as tribos financeiras e económicas, as tribos científicas... Em suma, o tribalismo é um fenómeno político.

Este tribalismo, que é desenvolvido e promovido na política e por políticos, sente-se ameaçado com o fenómeno do Conhecimento e da Informação. Não admira, portanto, que o acontecimento mediático seja transformado num circo de propaganda para poder vincar ainda mais uma pseudo-necessidade legislativa que em tudo favorecerá os objectivos das tribos dominantes.

Em torno das agressões familiares, ou da violência doméstica, fez-se um alarido de tipo modernista com o objectivo de tratar o assunto por via da repressão. O mesmo aconteceu com o piropo e também com os traumas em torno de um assobio com mensagem de cariz sexual, denominado por assédio. Acontece que desde que essa repressão foi legislada os casos de agressões aumentaram e os assobios não pararam.
Disse aqui que depois que a pena de morte foi instituída a criminalidade aumentou nos USA.
Portanto, a abordagem, em matéria de agressão, é terapêutica e não legislativa e repressiva.
O Homem não é programado pela lei. O problema da esquerda dita modernista, onde se inclui o PS, mas também dos anteriores meninos e meninas da dita direita, é não ser capaz de associar o seu moralismo religioso, auto-repressivo e fingido, ao acontecimento na Polis.

Em resumo, a cidade dos meninos e das meninas do coro está a esboroar-se; e eles e elas pensam que o problema está nos outros.

E finalizando, o problema é ver-se na política um poder, "o poder político", e não, através da política, o poder servir. "O macaco Nu" serve-nos também como ponto de referência para demonstrar que as vestes não alteram o que encobrem.
A via do espírito é a nova fronteira. Pentecostes, ou Shavuót, está à porta.
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De jpt a 17.05.2018 às 13:24

Eu não disse que Alcochete demonstra o caldeirão fervente que é o futebol nacional. Disse que há dois meses publiquei um texto sobre a apatia político-governamental diante do caldeirão fervente que é o futebol nacional, no qual era (e é) expectável grosso incidente. Aconteceu este, felizmente sem danos de maior (não há mortos nem feridos graves) mas cuja excentricidade ainda mais faz soar a agressividade que grassa.

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