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Ferro e fogo no Brasil

por João Pedro Pimenta, em 14.09.18
 
No último 7 de Setembro o Brasil comemorou mais um aniversário. Dificilmente poderia ser mais atribulado. Poucos dias antes tinha ardido o seu Museu Nacional, a memória de duzentos anos de acervos e colecções de paleontologia, etnologia, geologia, etc, espalhados pelo velho Palácio de S. Cristóvão, a morada da família real portuguesa aquando da sua prolongada estadia no Rio. Naquele edifício moraram seis monarcas ou futuros monarcas (entre os quais uma futura Rainha de Portugal e um futuro Imperador do Brasil, que aliás eram irmãos), e ali se delineou o futuro de Portugal e a independência da gigantesca colónia, entretanto promovida a Reino. O estado de degradação e negligência do edifício e do seu conteúdo, divulgado após o desastre, chocam pelo terceiro-mundismo da coisa. Sabe-se que já se tinha assinado um acordo que libertaria fundos para obras de fundo, o que só avoluma a tragédia do caso: afinal os meios existiram, mas a salvação chegou tarde demais. O caso, como seria de esperar, despoletou acusações e discussões políticas de todo o tipo, incluindo manifestações frente à carcaça fumegante do edifício, com bandeira empunhada e tudo, acusando os actuais poderes instituídos. A verdade é que o último chefe de estado brasileiro a visitar o Museu e a casa dos seus longínquos antecessores reais e imperiais fora Juscelino Kubischek de Oliveira - esse mesmo, J.K, o construtor de Brasília. Desde então mais nenhum tinha visitado, oficialmente, ao que se sabe, aquelas salas. Nem seque Fernando Henrique Cardoso, um reconhecido intelectual. É uma triste metáfora do desinteresse a que os dirigentes do Brasil votaram a memória histórica e a cultura do país, e por sua vez, o incêndio é ele mesmo uma metáfora e uma lição do momento que vive o país.
 
 
Poucos dias depois, o candidato Jair Bolsonaro, à frente nas sondagens para a primeira volta das presidenciais de Outubro, é esfaqueado por durante um comício em Minas Gerais, ao que parece por um desequilibrado que já militara no PSOL (o equivalente ao Bloco no Brasil). À primeira vista parece quase uma ironia eleitoral, já que Bolsonaro não se cansa de apelar à violência contra os seus adversários e é um saudosista da ditadura militar. É daquelas figuras que se pode apelidar de "fascista" sem provocar grandes reclamações, além de  ter demonstrado nos debates televisivos que não dá muito mais do que aquele discurso básico. Pessoas que elogiam Marine LePen dizem cobras e lagartos dele. Só que o Brasil já não é uma ditadura e o candidato teve a devida autorização para se apresentar a eleições. O normal seria poder andar pela rua sem receio de sofrer atentados. Se eventualmente apela ao ódio, isso é responsabilidade das autoridades competentes, eleitorais, policiais ou outras, não de pobres  diabos armados.
 
 
Não se sabe se o atentado terá o efeito "Marinha Grande", mas é bem possível que tenha acrescentado mais uns votos ao militar. De qualquer maneira, é mais um capítulo do ódio que percorre a política e a sociedade brasileira. Vale a pena lembrar que este ano já tivemos tiros dirigidos à caravana de Lula (tal como aconteceu com Bolsonaro, não faltaram as teorias de "fingimento") e o assassínio da vereadora Marielle Franco, no Rio. E ainda os episódios da prisão de Lula, da sua politização e dos desgaste que isso provocou ao PT e aos seus apoiantes. Só mesmo no último minuto é que o partido que durante anos governou o Brasil confirmou o ex-prefeito de S. Paulo e ex-ministro Fernando Haddad como candidato presidencial. Ao menos os "petistas" livram-se de ver o seu candidato acusado de ser "analfabeto" (esta parcela será mais facilmente preenchida por Bolsonaro). No meio deste carrossel de intriga, ódio, e violência que mina o Brasil, temos ainda dois candidatos minimamente decentes, que se chegarem à segunda volta terão a eleição quase garantida. São eles os repetentes Ciro Gomes (que tem aquele pequeno defeito dos políticos brasileiros de ter feito parte de não sei quantos partidos, parando agora no clássico PDT, fundado por Leonel Brizolla) e a ecologista evangélica Marina Silva. Junte-se-lhes Geraldo Alckmin, político experiente mas também algo desgastado, pelo PSDB, e apoiado pela direita clássica, Henrique Meirelles, até agora ministro das finanças de Michel Temer e primeiro candidato do hegemónico MDB desde ha mais de vinte anos, e mais os habituais candidatos de partidos minoritários, formações de esquerda radical ou evangélicos lunáticos. A eleição da primeira volta promete. A da segunda está para se ver. Uma coisa é certa: o vencedor já não irá a tempo de visitar o Museu Nacional do Brasil. JK foi mesmo o último. Se alguma coisa se tentar fazer ali, será um pastiche entre as paredes do velho Palácio de S. Cristóvão. A maior missão será impedir que o Brasil, para mais encurralado entre uma Argentina entre grave crise económica e o êxodo de venezuelanos fugidos à tirania de Maduro, pegue fogo.
 

brasil socorro.jpg

 

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15 comentários

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De Pedro a 15.09.2018 às 09:06

PSOL o equivalente do Bloco? Porquê?

Não quererá o autor dar a entender, subliminarmente, ser o Bloco um partido de violentos radicais?

É que não faz a mesma associação, dos outros partidos brasileiros referidos, aos partidos políticos portugueses
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De João Pedro Pimenta a 15.09.2018 às 17:34

Não é nenhuma birra minha, a correspondência é confessa e é o próprio Bloco que se associa ao PSOL, em eventos conjuntos - por exemplo, o candidato desse partido à presidência do Brasil, Guilherme Boulos, esteve há uns meses em sessões em Lisboa juntamente com o BE. Difícil é fazer qualquer outra associação.
Mas se quiser sempre lhe digo que o PDT é o correspondente do PS, o Democratas será o do PSD, o PP será o CDS-PP (a sigla também ajuda, embora o significado seja diferente), o velho PCB é o nosso PCP, o MDB compreende o PS e o PSD, e o resto se quiser deixo ao Pedro como passatempo político. Boa sorte.
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De Anónimo a 15.09.2018 às 22:36

"Violento e radical" só se for mesmo o comentador Pedro. Consegue explicar onde é que o BE ou o PSOL recorreu à violência? É que eu conheço um militante do PSD que cometeu um homicídio no Brasil e depois exilou-se em Portugal...
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De FLobo a 15.09.2018 às 17:09

O PSOL pode se assemelhar ao BE, mas nunca teve sua representatividade e muito menos sua dimensão. Acrescento que vale a lembrança que a gestão daquele Museu, o Nacional era loteado justamente por membros do partideco PSOL.
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De João Pedro Pimenta a 15.09.2018 às 18:25

Tem a sua representatividade. Já teve candidatos presidenciais que ficaram em terceiro lugar, e quase conquistaram o Rio de Janeiro nas últimas municipais (é verdade que também tiveram mais apoio porque do outro lado estava um pastor da IURD):
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De Anónimo a 15.09.2018 às 17:37

Este tipo de assuntos de outros países faz-me lembrar os jornaleiros e o mau jornalismo atual. Atualmente sabemos tudo o que não interessa mesmo a milhares de quilómetros daqui, o objetivo é desinformar as pessoas. Mas parece que é isto que vende! Eis um exemplo do jornalismo atual: "Está estudado mais televisão leva a menos sexo". Será que não temos assuntos nossos para falar? Ou será isto uma manobra de diversão? Isto também mostra que têm tempo livre não aproveitado da melhor maneira.
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De João Pedro Pimenta a 15.09.2018 às 18:27

Tem razão, anónimo, vivemos isolados sem ecos do resto do Mundo (muito menos do Brasil e o seu estranho idioma), que não interessa nada, e eu só escrevi mesmo como manobra de diversão a mando de não sei quem.
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De Anónimo a 16.09.2018 às 01:49

Perfeito
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De Anónimo a 16.09.2018 às 10:55

Há também aqueles que não querem compreender! Nós não sabemos o que se passa cá mas sabemos o que se passa noutros países a milhares de quilómetros daqui. Vivemos sem ecos do que se passa cá graças a constantes manobras de diversão. Se não tem assuntos nossos importantes para falar, talvez eu lhe possa dar sugestões e até já deu uma, a manipulação dos media!
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De João Pedro Pimenta a 17.09.2018 às 01:03

Caro anónimo, se me dá a sua autorização, gosto de falar de assuntos que interessam, sejam cá ou lá. Agradeço o seu zelo, mas eu próprio faço as minhas escolhas. E se seguirmos o seu raciocínio ao extremo, não sabemos nada de nada e melhor será que não escrevamos, pura e simplesmente.
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De Anónimo a 17.09.2018 às 13:02

Você faz-me lembrar os defensores dos animais que metem os seres humanos e os animais no "mesmo saco", para eles é tudo igual! Há uma diferença entre os assuntos de cá e os de lá, não é tudo igual. Depois disse asneiras porque eu não sou a favor de não sabermos nada de nada, eu sou a favor de sabermos o que é importante e contra as manobras de diversão. Não percebo qual a duvida e só não compreende, quem não quer compreender. Depois se fala em determinados assuntos aqui é para serem comentados, ou estou errado? Assim começo a perceber porque fala de assuntos com pouco ou nenhum interesse!
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De João Pedro Pimenta a 17.09.2018 às 19:29

Muito bem, escrevi para ser comentado. Por isso, porque é que não comenta, em lugar de andar anonimamente a encher a caixa de comentários de palha? Se não lhe agrada, paciência, mas garanto que não é alguém que nem dá o nome que me vai dizer o que devo escrever ou não.
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De Anónimo a 16.09.2018 às 17:05

Como eu disse, com estes media nós sabemos tudo o que não interessa, quem comenta isto?
"Jovem elefante morre eletrocutado na Tailândia"
Até parece que foi no zoo de Lisboa!
Mas morrem pessoas cá e não sabemos! Mas acontecem certas coisas cá e não sabemos! Mas como disse, parece que é isto que vende!
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De Junior Reis da Silva a 16.09.2018 às 09:21

Já que o assunto é política brasileira, esse anônimo seria o candidato Cabo Daciolo e suas conspirações
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De João Pedro Pimenta a 17.09.2018 às 01:02

Só não falei desse porque delírio também tem os seus limites.

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