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Feita de terra e alma

por Pedro Correia, em 19.11.18

loureiro-dos-santos.png

 

Honra, palavra antiga. Como outras, que nos parecem em acelerado desuso neste tempo de implacável voragem de valores. Palavra que - neto, sobrinho e primo de oficiais do Exército - sempre associei à instituição militar. 

Na adolescência, nos anos de brasa da revolução, habituei-me à presença quotidiana dos militares na nossa vida colectiva. Fizeram o 25 de Abril e nos dois anos seguintes andaram na crista da onda, com sucessivos protagonistas: António de Spínola, Vasco Gonçalves, Costa Gomes, Otelo Saraiva de Carvalho, Pinheiro de Azevedo, Ramalho Eanes.

Alguns deles quiseram transformar Portugal numa "sociedade socialista" (com diversos padrões, do soviético ao líbio, passando pelo albanês), outros bateram-se por uma democracia plena, sem tentações totalitárias. Os dois modelos confrontaram-se num tenso dia 25 de Novembro, vai fazer 43 anos, com a vitória - felizmente para nós - dos moderados, que devolveram o poder às instituições civis, integrando o escol fundador da nossa democracia multipartidária e representativa. 

 

Entre esses militares, figurou o general José Loureiro dos Santos, falecido no sábado, aos 82 anos, e cujo funeral hoje se realiza. Transmontano de Sabrosa, teve um brilhante currículo, que de algum modo já se prenunciava ao ser distinguido em 1953 com o prémio nacional como melhor aluno do ensino secundário português. Diplomado na Academia Militar, foi sendo gradualmente promovido de alferes a general de quatro estrelas, entre 1957 e 1991. Cumpriu uma missão de serviço em Angola, como capitão, de 1962 a 1965. Foi comandante da Região Militar da Madeira, chefe do Estado Maior do Exército, vice-chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, ministro da Defesa Nacional (em dois governos), membro do Conselho da Revolução, director do Instituto de Altos Estudos Militares. Leccionou, como professor catedrático convidado, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

É ainda autor de vasta obra, dedicada sobretudo a temas relacionados com a estratégia militar e política num planeta cada vez mais globalizado. Nestes anos mais recentes, partiram dele algumas das observações mais sagazes e pertinentes sobre a marcha da História, nas suas frequentes aparições televisivas ou em artigos de jornal. Alertava, por exemplo, para a necessidade de definirmos a plataforma continental atlântica como um objectivo estratégico do qual devíamos «tomar posse efectiva», sem aguardamos autorização alheia.

Como justamente assinalou o Presidente da República, era «um pensador de Portugal e do mundo».

 

Ninguém o confundia com um teórico desligado da realidade, longe disso - daí o mérito acrescido das suas intervenções públicas. Muito valorizadas pelo facto de em dois momentos cruciais da nossa História recente, com a patente de major, ter estado no lado certo: a 25 de Abril de 1974, ao emergir como delegado da Junta de Salvação Nacional no arquipélago de Cabo Verde, onde era comandante militar, e a 25 de Novembro de 1975, quando integrou o núcleo operacional que conteve o golpe extremista e abriu caminho à democracia liberal em que vivemos desde 1976. Honrando, nas duas ocasiões, a farda que envergava.

Habituei-me a ouvi-lo com atenção, apreciando-lhe a integridade intelectual e a lucidez das suas análises. Lamento muito que esta geração de militares que tanto admirei esteja a desaparecer. Tudo tiveram e de quase tudo se desprenderam, com inegável patriotismo - outra palavra hoje fora de moda.

Palavra «feita de terra e alma», na lapidar definição poética de Miguel Torga, conterrâneo do oficial-general de quem agora nos despedimos.


38 comentários

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De Fernando Sousa a 19.11.2018 às 16:16

Muito bem, Pedro. É verdade que há um mundo a desaparecer mas também que há outro a despontar - fiquemos atentos. Que a nostalgia não nos adormeça.
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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 21:12

Seguramente que não, meu caro Fernando. Nada de anestesias gerais - nem sequer locais.
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De Teresa Ribeiro a 19.11.2018 às 16:23

Bela e justa homenagem.
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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 21:14

Infelizmente vai diminuindo o número destes militares que serviram o País pelo menos em três ocasiões tão cruciais quanto irrepetíveis, Teresa. Antes de 1974, em Abril de 1974 e em Novembro de 1975.
Acresce, no caso de Loureiro dos Santos, uma ulterior carreira já sem farda como comentador de grande nível e académico de mérito.
Merece sem dúvida esta singela homenagem.
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De Anónimo a 19.11.2018 às 17:52

A estrada entre Borba e Vila Viçosa abateu e morreram várias pessoas. A culpa é do Passos Coelho.
Apresso-me a esclarecer isto antes que culpem este Homem.
É que a esquerdalha está feliz.
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De Anónimo a 19.11.2018 às 18:59

Não duvide.


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De Bea a 19.11.2018 às 20:19

Não, não. A culpa é de todos os sucessivos governos, dos autarcas que autorizam a exploração e de quem suga a terra até ao tutano, sem lei ou respeito pelos equilíbrios que nos protegem. Quem por lá passava antevia o que sucedeu. Não fomos nós as vítimas, mas podíamos ser. Poderemos ser, numa próxima vez, noutro lugar. Do que importa raro se fala e menos se faz. Mas neste como provavelmente noutros países, a usura e o lucro mandam tudo. E fiscalidade não há. Pobre de quem lá ficou.
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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 21:21

É uma história dramática, sem dúvida, mas nada tem a ver com o que escrevi.
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De Makiavel a 19.11.2018 às 21:59

Uma verdadeira praga, os que vêm falar de bugalhos.

Retenho de Loureiro dos Santos as análises lúcidas que fazia à geopolítica internacional.
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De Bea a 20.11.2018 às 09:58

Há bugalhos que nos tocam profundamente. E nem me parece que ao General Loureiro dos Santos ofenda a breve interrupção.
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De Makiavel a 20.11.2018 às 12:40

Não se afobe. O que não vão faltar são postais sobre aquela desgraça, ora culpando o autarca, ora culpando os donos das pedreiras ora culpando o Sócrates. Não é preciso interromper um postal evocativo da memória de um ilustre português.
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De Bea a 20.11.2018 às 09:55

É certo, mas até os telejornais - e não apenas - se interrompem para comunicar notícias tristes.
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De Makiavel a 19.11.2018 às 21:57

Nada disso. A culpa é do Sócrates.
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De Anónimo a 19.11.2018 às 19:03

Militar com "M" ...

"Pecou" um pouco pela inacção durante o período que passou por Cabo Verde.

RIP " Nunca os esquecemos"


Amendes


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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 21:21

M maiúsculo, sim.
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De Anónimo a 19.11.2018 às 19:05

Excelente texto que o Pedro Correia dedicou a este militar de excepção.
Poucos são os que como ele nos honraram.
Que descanse em paz.
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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 21:20

Agradeço as palavras que aqui deixa.
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De Bea a 19.11.2018 às 20:26

Bonita e merecida homenagem. Vão desaparecendo os nossos modelos. É natural, viveram o seu tempo e obedecem à lei da vida, tudo que nasce há-de morrer. O que me pergunto é quem os substitui, que modelos ficam para o futuro. Que nós os tivemos e eram - são - bons. E não sei se teremos nas nossas hostes pessoas tão íntegras e que sejam assim admirados pelos portugueses.
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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 21:20

Espero que palavras como honra e pátria, tal como Loureiro dos Santos, Salgueiro Maia, Ramalho Eanes e vários outros militares as corporizaram, não sejam conspurcadas nem aviltadas pela demagogia mais rasteira, tão frequente nos dias que vão correndo.
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De Elvimonte a 19.11.2018 às 20:44

Dos mais brilhantes estrategas nacionais (em sentido lato) dos últimos 100 anos, senão mesmo o mais brilhante.

Recordo-me da última vez que o vi na TV, em pleno "passismo", dizer: "a senhora Merckel está a fazer à Europa aquilo que Hitler não conseguiu fazer". Depois disso nunca mais o vi na TV e percebo bem porquê.
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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 21:15

Depois disso foi várias vezes à televisão. A vários canais, aliás.
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De Maria Dulce Fernandes a 19.11.2018 às 21:17

Excelente texto, Pedro. Concordo até ao ponto final.
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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 21:24

Grato pelas suas palavras, cara Maria Dulce.
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De s o s a 19.11.2018 às 23:26

parece que me estou a ver no funeral e a fazer o elogio funebre, lendo este post.

Ok, será assim, mas era consensual ? Pelos vistos era, pois o PC nao refere inimigos.

Do que gostei foi da expressao moderados. Eram moderadas as esposas vitimas de violencia domestica e que nao se queixavam ? .

Entendemos que para o PC moderados eram todos quantos se opunham á tal via socialista. Mas, e entre os moderados ele era quem, de que lado esteve ?

O PC nao explica se o rambo é moderado ou se moderado é o aviador que lança as bombas ?

Se calhar nao estamos a falar de um militar mas de um politico . Naquele tempo do "moderismo " ele qual visionador, defendia livros gratuitos para os estudantes ?!

Engraçado, quiça misterioso, que o PC nao refira nada que o senhor militar tenha defendido e que se tivesse concretizado.

Esta aqui no sapo um titulo que diz que a escola nao prepara para a vida. Os oficiais militares nas suas escolas aprendem e ensinam o objetivo de serem dispensaveis ?
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De Pedro Correia a 19.11.2018 às 23:32

Não percebi a que propósito menciona o Rambo. Por vezes escrevo sobre filmes, mas não foi hoje o caso.
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De s o s a 20.11.2018 às 22:56

ok, percebi que o post nao é sobre filmes, é o proprio post que faz o ( ou um ) filme relativamente ao tal senhor militar.

Como, agora, nem sequer desenha sobre "moderado", nao vale a pena explicar a referencia a "rambo". , referencia que a mim me parece clarinha :, o rambo militar e o aviador militar.
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De Pedro Correia a 20.11.2018 às 23:01

Que obsessão com o Rambo. Será da musculatura?
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De s o s a 20.11.2018 às 23:00

no momento de enviar a resposta a net tinha partido, provavelmente nao enviei, pronto, mas agora neste segundo momento é assim , e só : rambo militar, piloto militar.

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