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Delito de Opinião

Fazer política como quem brinca na areia

Pedro Correia, 27.10.21

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A importância maior dos canais televisivos de informação reside na comunicação instantânea, colhida em directo. Nenhum político fica indiferente a isto. Os mais competentes aproveitam estes momentos a seu favor: qualquer tempo de antena é precioso para marcar a agenda numa actividade que tem horror ao vácuo.

Os menos talentosos, pelo contrário, encontram nos directos não um precioso aliado mas um incómodo adversário. Porque intervir em directo implica falar sem válvula de segurança. Neste cenário, um político mediano ou medíocre expõe em larga medida as suas fragilidades.

Na semana passada, Rui Rio surgiu duas vezes em directo. Com 24 horas de intervalo. Nunca para fazer marcação cerrada ao Governo, mas para visar alvos internos. Nisto, nada de novo: as declarações mais duras do actual presidente laranja foram sempre dirigidas a figuras do próprio partido.

A diferença, desta vez, é que pareceu imitar aqueles jogadores a que no futebol chamamos brinca-n’areia: gostam tanto de ter a bola que evitam passá-la aos companheiros, prejudicando a equipa. Querendo driblar outros, acabam por se fintar a si próprios.

As televisões estavam lá, mostrando um Rio brinca-n’areia. Na tarde de quarta-feira, manda dizer que no dia seguinte levará ao Conselho Nacional uma proposta para a convocação de eleições directas em 4 de Dezembro. Procurando confundir adversários por antecipação. Horas depois, porém, parece ele o confundido: em vez de antecipar, adia. Afinal vai propor que sejam congeladas as eleições até à votação final do Orçamento do Estado.

«Se [o Orçamento] não for aprovado haverá eleições legislativas. Não vejo como é que o partido pode fazer eleições internas e legislativas ao mesmo tempo. (…) Sou o líder do partido, fui o candidato a primeiro-ministro em 2019, liderei todo este tempo… Se amanhã houver eleições, quem é que é o candidato? Obviamente.»

Clareza no discurso? De forma alguma. Perceptível, a mensagem? Nem por sombras. Eis o risco dos directos: passou a ideia de que o presidente do PSD é inseguro e receia o confronto. Quem lidera a sério jamais precisa de lembrar que é líder.

Se esteve mal na quarta, pior andou na quinta. À entrada do Conselho Nacional, face aos jornalistas, de novo sucumbiu à vertigem do directo. E lá voltou a perder-se em reviengas.

«Como se está a ver que o PSD está a subir, que o PSD até pode ganhar eleições legislativas, há um assalto ao poder daqueles que põem o seu interesse pessoal à frente daquilo que é o interesse do país e o interesse do PSD. (…) Parece que perderam o sentido das coisas e de repente estão meios loucos.» Com este surpreendente desabafo: «Lamento profundamente que o partido tenha chegado a este estado.» Como se o presidente do partido não fosse ele. Há quase quatro anos.

Faria melhor Rio em imitar Jerónimo de Sousa. Raras vezes o secretário-geral do PCP fala em público sem estar de olhos fixos num papel. Goste-se ou não, ali não há lugar para improvisos políticos. Quem quer brincar na areia que vá para a praia.

 

Texto publicado no semanário Novo

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