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Delito de Opinião

Fazer frente a bullies

João André, 01.03.25

Um amigo escreveu-me ontem que futuros historiadores dirão que a reunião de ontem entre Zelensky e Trump (mais Vance e demais esbirros) marcará o fim da NATO. Não sei se concordarei, penso que terminou quando Vance se dirigiu aos antigos aliados na conferência de Munique.

Poderá no entanto marcar o início do fim do poderio americano. Não creio que haja ainda líderes europeus com um módico de inteligência e decência que creiam que os EUA os ajudariam em caso de necessidade. O Departamento da Defesa americano já indicou que irá reduzir os custos com bases e as europeias estarão quase certamente na lista de coisas a cortar (tal como os mísseis nucleares no continente). Sem esse poder dissuasor, aos europeus resta renderem-se à irrelevância ou descobrirem a vontade de se defender a si mesmos.

Só que os EUA perderão acesso aos recursos europeus e, de arrasto, aos de muitos outros antigos aliados. Mesmo na Ásia, será difícil imaginar a Coreia do Sul ou o Japão a confiarem em Trump ou Taiwan a acreditar que os americanos estariam dispostos a arriscar o seu sangue para os proteger. Acrescendo a isto os cortes nas missões diplomáticas (que provavelmente se irão reflectir nos "países de merda de África e Ásia"), e a influência americana irá desaparecer e ser substituída pela chinesa.

Todos perderemos (bem, talvez não os chineses) com um mundo onde os EUA abandonam os seus princípios (mesmo quando os defendiam apenas no seu interesse). Será um mundo de instabilidade e onde a - ainda - maior potência está dominada por bilionários infantis ou maliciosos que só têm interesse nos outros como clientes ou servos.

Na sequência do vergonhoso comportamento de Trump e Vance, temo (e ao mesmo tempo quase desejo) que os ucranianos acabem por remover Zelensky para lá colocar alguém que se mostre obsequioso ao ogre laranja. Temo porque demonstra que o bullying resulta. Desejo porque nos ganharia tempo. A questão é qual opção os ucranianos, como eslavos que são e como tal altamente orgulhosos, irão escolher: apoio e subserviência, ou orgulho e dificuldade. Uma oferece alguma segurança no curto prazo (embora nunca se saiba o que Trump e Putin, falsos como são, decidirão fazer no futuro). A outra oferece riscos claros, mas poderá ser a única forma de existir uma Nação ucraniana dentro de algumas décadas.

Sejamos claros: o momento de ontem poderá ter sido o fim da NATO e da ordem pós-II Guerra Mundial (ou mais um marco no caminho). Poderá ser o início de um conflito ainda mais alargado do qual os EUA se alhearão. Poderá no entanto servir como fundação para o estabelecimento de uma Nação e de mais uma fundação para uma Europa do futuro. É preciso querer (e saber, como cidadãos dessa Europa) que o caminho para isso vai ser duro e custoso.

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