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Fazedor de chuva

por jpt, em 01.11.17

rainmaker.jpg

 

O cardeal de Lisboa, Manuel Clemente, anunciou que quer fazer chuva. Associo-me ao seu benéfico esforço partilhando imagem de um dos seus colegas, sito entre os Kxatla (na África do Sul), aqui rodeado dos seus paroquianos enquanto promovia chuvadas, cerca dos anos 1920s (eu suponho que a fotografia é do grande Isaac Schapera mas não consigo comprovar isso).


16 comentários

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De Anónimo a 01.11.2017 às 10:19

Custa-me a acreditar que uma pessoa culta e inteligente, como parece ser o cardeal-patriarca de Lisboa, acredite na eficácia da oração para fazer chover.
E, se não acredita, no mínimo está a pactuar objetivamente com, a promover até a crendice e o obscurantismo dos fiéis (que ainda não são fiéis defuntos...).
João de Brito
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De jpt a 01.11.2017 às 21:56

Se não acredita está a mentir. Eu não aventei isso.
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De sampy a 01.11.2017 às 12:59

Parece-me um tiro ao lado pôr no mesmo plano a oração de petição e a acção mágica.
Dito isto, é de todo oportuna, vinda de crentes ou de não-crentes, uma crítica da imagem de Deus implícita nesta forma de rezar.
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De jpt a 01.11.2017 às 21:54

Como comentei abaixo (mas antes) eu gostava que me explicasse isso, a distinção. De modo competente, sff.
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De sampy a 01.11.2017 às 22:40

O rito ou acção mágica tem como pretensão o controlo das forças naturais e sobrenaturais, forçadas a realizar a nossa vontade.
A oração de petição visa, quando muito, convencer ou seduzir a divindade (directamente ou por interposta figura) a conceder-nos o que queremos.

Revisitando o post: o cardeal não é equiparável ao feiticeiro manda-chuva, mas aos paroquianos que o rodeiam expectantes. Uns recorrem a um taumaturgo terrestre enquanto outros se viram para um taumaturgo celeste.
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De jpt a 02.11.2017 às 05:18

Terá que aceitar a minha franqueza. Para além de denotar a distinção entre magia (e rito, no sentido que lhe dá) e religião, que é a vulgata oitocentista que continua a grassar no senso comum, o seu comentário (e o de outros, que ao invés do seu, surgem "ofendidos" mais abaixo) mostra uma noção errónea do que é o tão recorrente processo de fazer chuva. De facto, a operação de produção da chuva é logica (intelectualmente) e teologicamente similar no contexto católico e nos contextos espiritualistas que a fotografia ilustra: com as tecnologias discursivas e as contra-oferendas seleccionadas em cada contexto solicita-se aos espíritos protectores que impulsionem as chuvas esperadas - não, "fazer chuva" não é uma "magia" em que as tecnologias (as "mezinhas") agitam a natureza para que nela ocorra chuva (o tal "rito mágico" feito por aqueles que julgam, por deficiência de conhecimento, que podem manipular a natureza). Repito, sob o ponto de vista lógico, é exactamente o mesmo processo.
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De sampy a 02.11.2017 às 14:47

Permita-me discordar: o fazedor de chuva no contexto de uma tribo africana não é um mero sacerdote ou pontífice que se limite a um papel de mediação entre peticionários com suas oferendas e os espíritos benfazejos. Ele reivindica possuir o poder de fazer chover (ou de impedir a chuva), concedido ou delegado pelos espíritos, fruto de uma especial e única relação existente entre as partes. Ele invoca ou exercita esse poder através de técnicas, práticas, ritos e manipulação de objectos sagrados (como as pedras de chuva). A falha em produzir a chuva requerida implica a sua destituição.
O cardeal em nenhum momento terá manifestado a pretensão de possuir um tal poder ou terá garantido uma eficácia mágica da oração por ele recomendada.

Obsto também à interpretação feita de ter eu recorrido a uma distinção "oitocentista" entre magia e religião. Penso que a mentalidade mágica é transversal e subjacente a todos os sistemas religiosos; embora com diferenças qualitativas na sua intrincagem.

Por fim, faço notar que é bem possível que parte do incómodo com a iniciativa do cardeal tenha que ver com o distanciamento de uma cultura de ruralidade e de subsistência agrícola, que para muitos é algo já de completo estranho.
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De jpt a 02.11.2017 às 23:17

Tendo lido inúmeros textos relativamente recentes (das últimas décadas) sobre "fazedores de chuva", tendo entrevistado/conversado com vários "fazedores de chuva" e tendo acompanhado o contexto de algumas "realizações de chuva" nunca vi ou ouvi alguém dizendo que "faz chuva" mas sim, sempre, que propicia um ambiente junto dos espíritos protectores que conduzam à sua intervenção benevolente em questões de chuva.

Com toda a certeza que V. terá outras informações. Se me puder indicar as referências bibliográficas muito lhe agradecerei.
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De Vento a 01.11.2017 às 13:20

A chuva serôdia e temporã já começou a cair. A outra, que fertilizará os campos, virá com trovoadas.
A ciência, que se debruça sobre o natural e ainda não compreende o natural, tem de se meter nos seus chinelos e deixar o sobrenatural para quem entende disso.
«O olhar é a sala de espera do espírito, a antecâmara da verdade.» Mais importante que conhecer a natureza do mundo é examinar o mundo da natureza. Em todas as suas dimensões.
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De Tiro ao Alvo a 01.11.2017 às 19:35

O Jpt, quando escreveu o que escreveu, forçosamente tinha consciência de que, com este seu mordaz comentário, ofende a crença de muitos milhares, para não dizer milhões de portugueses. Gratuitamente, digo eu.
Não havia necessidade.
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De jpt a 01.11.2017 às 21:53

Eu gostava que me explicasse isso. De modo competente.
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De Tiro ao Alvo a 02.11.2017 às 09:11

Não sou capaz, Jpt - competente só há um (...) e mais nenhum.
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De jpt a 02.11.2017 às 10:08

Não. Competentes, neste caso, há bastantes. Basta não aceitar as leituras antiquadas, evolucionistas, que sufragam a pobre interpretação que consagra a superioridade intelectual/racional da religião monoteísta europeia sobre as outras formas de interpretar metafisicamente o real.
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De Tiro ao Alvo a 02.11.2017 às 14:13

Ora aí está: é o que eu dizia.
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De jpt a 02.11.2017 às 23:31

Pois, mas assim fico sem compreender onde encontrou o "mordaz", a "ofensa" e a "gratuitidade" no meu postal.
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De Tiro ao Alvo a 03.11.2017 às 12:49

Pois é.

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