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Delito de Opinião

Farol das meias-tintas

Sérgio de Almeida Correia, 20.01.26

(créditos: Getty Images)

Conhecidos os resultados da 1.ª volta das eleições presidenciais de 2026, Marques Mendes assumiu a derrota, praticamente sozinho, com a família, e mais uns poucos apoiantes. Aqueles que seriam os principais e mais importantes apoios desapareceram. Resguardaram-se. Por vontade própria ou a pedido do candidato derrotado não o sabemos. Não será relevante. É uma questão de somenos.

Legítimo é que qualquer eleitor interessado e que tenha votado num dos candidatos derrotados se interrogue, querendo participar na 2.ª volta, sobre em quem poderá votar.

É normal que o eleitor cujo voto não concretizou o seu ideal procure orientação no espaço político onde se colocou, olhe para o candidato que apoiou, ou para o líder do partido em que milita ou com o qual simpatiza, e pergunte se deverá votar na 2.ª volta e em quem.

Marques Mendes e Cotrim Figueiredo não quiseram tomar posição para a segunda volta. Fosse por despeito ou ressabiamento, fica-lhes mal. Para muito do seu eleitorado não foi indiferente votar neles entre mais de uma dezena de candidatos.

Houve dirigentes políticos, autarcas, líderes de opinião, militantes do PSD e da área política deste, com percurso e pergaminhos, que num momento crucial da vida política nacional, e desde o primeiro minuto, não vacilaram e assumiram que iriam votar António José Seguro na 2.ª Volta. Refiro-me a pessoas como o presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, Poiares Maduro, Rui Moreira, Carlos Carreiras, José Eduardo Martins, António Capucho e Pacheco Pereira, alguns que muito contribuíram pela sua intervenção política e cívica para que Luís Montenegro fosse hoje primeiro-ministro.

À esquerda seria natural que havendo apenas dois candidatos para a segunda volta todos saíssem, alguns com reticências, a apoiar aquele que mais perto do seu espaço político se situa.  

E até mesmo no centro-direita, quanto ao Iniciativa Liberal, logo o líder da bancada parlamentar, Mário Amorim Lopes, tomou posição, a título pessoal, no sentido de apoiar Seguro, pois que Mariana Leitão prudentemente anunciara uma decisão oficial depois de convocar os órgãos do partido e destes se pronunciarem sobre esse ponto.

À semelhança do que aconteceu noutras ocasiões, Montenegro refugiou-se no silêncio, no tacticismo, na tibieza, na necessidade, digo eu, de recorrer à calculadora, de ver primeiro o que os outros vão fazer e dizer, bem ao contrário do que se espera de um líder. Para Montenegro tudo é uma questão de sobrevivência política. Só que não será por aí que ficará garantido o cumprimento da legislatura e a realização dos investimentos e das reformas de que o país necessita.

Aquilo que me faz espécie é perceber qual a dúvida que paira neste momento no espírito de Luís Montenegro.

Então o seu governo, que manifestou apoio a Mário Centeno, socialista, ex-ministro e ex-governador do Banco de Portugal, para um lugar no Banco Central Europeu, em representação de Portugal, pessoa de quem André Ventura diz raios e coriscos, tem dúvidas em apoiar António José Seguro na 2.ª volta da eleição presidencial? Precisa de reflectir? É indiferente apoiar Ventura ou Seguro para Presidente da República? Como compatibilizar a posição veiculada pelo ministro das Finanças de apoio a Centeno com mais este recolhimento? É ao lado do putinesco Órban, da condenada Marine Le Pen, dos cadastrados Donald Trump e Bolsonaro, e de Nigel Farage, líder do Reform UK, que entre outras coisas advoga o abandono do Reino Unido da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, que Montenegro pretende colocar-se?   

Ainda que possa dar de barato, o que não me pareceu ser o caso, a afirmação de Ventura de que Portugal precisava de três Salazares, em mais uma tirada para chocar o país e impressionar o seu eleitorado, a agenda e o modelo de sociedade social e político proposto pelo Chega e defendido por André Ventura, admirador confesso de autocratas, é incompatível com os nossos valores constitucionais, com uma democracia ainda que repleta de defeitos, que os tem, e o sonho de a tornar mais justa, mais equilibrada, menos conflitual, mais madura, moderna e civilizada, respeitando leis e regulamentos; acima de tudo a dignidade da pessoa humana em todas as suas vertentes.

A escolha seria indiferente entre dois candidatos com um pensamento reconhecidamente democrático, que fossem igualmente respeitadores da Constituição da República. Sucede que o está no cardápio é optar entre um candidato radical, assumidamente anti-regime, oportunista, de extrema-direita, não de direita tout court, que se reclama católico praticante e está sempre pronto a espezinhar os valores do cristianismo, e um outro do campo da social-democracia, do socialismo-democrático e dos valores que estas correntes representam.

A opção está muito para lá de decidir entre apoiar um populista, excessivo, manipulador, com um discurso que não se coíbe de distorcer, mentir e inventar desde que isso possa valorizá-lo perante o seu eleitorado potencial, e dar-lhe votos, alguém que pretende não deixar pedra sobre pedra e criar, o que só de pensar é assustador, um homem novo, talvez um país de pequenos venturinhas, e apoiar um outro candidato respeitador da democracia, das suas regras e das suas instituições, com pouco ou nenhum carisma, um discurso pouco apelativo, por vezes parecendo uma litania, ciente das nossas virtudes, defeitos e dificuldades, guiado por padrões de respeito, humanismo, moderação e decência, com provas dadas de isenção e não-conformismo com o actual estado de coisas, capaz de funcionar como um referencial de equilíbrio e de unidade da nação.

Para um democrata, à direita, ao centro ou à esquerda, não pode ser igual escolher entre dois modelos de sociedade que mutuamente se excluem.

Mais do que a defesa do regime, em causa está uma opção civilizacional. Entre o caminho para um estado autoritário cada vez menos disfarçado, intolerante, injusto, castrador, aterradoramente boçal no gesto e na palavra, que não respeita nada nem ninguém, só devendo obediência à vontade de um chefe com pretensões a caudilho e tiques mussolinianos, e uma democracia imperfeita, a necessitar urgentemente de reformas, a todos os níveis, e de gente séria, preparada e empenhada, que tenha a capacidade de agregar, com autoridade para se impor pelo exemplo e a integridade para que a fractura não se abra irremediavelmente. Entre uma democracia e um regime plebiscitário.

Não é difícil perceber isto. E pode ser dito respeitando-se a inteligência e a liberdade de escolha dos eleitores. De todos, incluindo dos que votaram em André Ventura e que em nada se distinguem dos outros, dos que não votaram nele.

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