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Falhanço

por José António Abreu, em 12.02.16

As declarações do primeiro-ministro no sábado passado, amplamente glosadas na Internet (incluindo aqui no Delito), teriam levado Bloco de Esquerda e PCP a exigir a demissão do governo (e Pacheco Pereira a escrever uma crónica demolidora) se o primeiro-ministro ainda fosse Pedro Passos Coelho. Mas a hipocrisia da esquerda é secundária quando as declarações indiciam uma falta de respeito muito mais profunda do que a decorrente de simples - e, em condições normais, razoavelmente fácil de desculpar - ausência de tacto.

O plano dos economistas liderados por Mário Centeno com que António Costa se apresentou às eleições baseava o crescimento no consumo interno, trocando mesmo receitas públicas actuais por receitas futuras (a famosa descida da TSU). Era um plano arriscado, com tantas probabilidades de resultar neste mundo conturbado (e, acima de tudo, sobreendividado) como eu tenho de ainda hoje - e por esta ordem - conquistar o coração da Jessica Chastain e ganhar o euromilhões, mas pelo menos apresentava alguma coerência formal. Fazemos isto e isto e isto, de modo a obter este e este e este resultado, sendo que, em tese, havia compatibilidade entre o que se fazia e o que se esperava. Só que o plano foi estraçalhado, primeiro num sentido pelos parceiros da «geringonça», depois no outro pelos técnicos da Comissão Europeia, transformando-se numa manta de retalhos que não apenas dá às corporações o que tira à generalidade dos cidadãos e das empresas (já seria mau, por dificultar a recuperação) mas pura e simplesmente não bate certo.

A UTAO, o Conselho de Finanças Públicas, a Comissão Europeia, o FMI, o Eurogrupo, os bancos de investimento, as agências de notação e os mercados (é estranho que as taxas subam tanto: afinal, não tinham descido apenas por acção do mesmo BCE que continua a comprar paletes de dívida nacional?) sabem-no. O desconforto de Mário Centeno (claro opositor da implementação das 35 horas de trabalho na função pública no decorrer de 2016, já enredado em justificações entre o populismo e a absurdidade, agressivo em Lisboa, humilde em Bruxelas) ou de Trigo Pereira (que se força a escrever elogios ocos ao orçamento) mostra que até mesmo na área do governo há quem perceba que a situação pode descambar rapidamente. (Galamba, à altura do mestre Sócrates, permanecerá firme até muito depois do colapso.)

Mas António Costa (especialista em questões de poder) sabe que o seu futuro (o único que lhe interessa) depende do timing e das características da próxima crise. Isto fá-lo-á resistir durante tanto tempo quanto lhe for possível, tentando distorcer os acontecimentos, manobrar as expectativas e, acima de tudo, aguardando um golpe de sorte. De vez em quando, porém, não evitará declarações como as do sábado passado. Ao recomendar aos portugueses menos consumo depois de assentar todo o programa de governo em mais consumo, António Costa, consciente ou inconscientemente (talvez como quando chamou primeiro-ministro a Passos Coelho), admite o falhanço da sua estratégia. O resto é uma questão de tempo.

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14 comentários

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De Rui Rocha a 12.02.2016 às 12:56

É isto.
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De José António Abreu a 12.02.2016 às 22:15

Eia, apanhei-te num bom momento, foi?

(Just kidding. Obrigado.)
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De Octávio dos Santos a 12.02.2016 às 13:57

Como escrevi aqui...

https://www.publico.pt/politica/noticia/nao-se-endireita-1721471

... António Costa será sempre um «primeiro-ministro com asterisco».
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De José António Abreu a 12.02.2016 às 22:14

Infelizmente, não remetido para uma nota de rodapé.
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De Anónimo a 12.02.2016 às 17:47

Geringonça foi a do anterior governo que o que dizia hoje, desmentia amanhã que teve um ministro que de irrevogável passou a revogável no dia seguinte e com subida de posto. Foi isto que nos ofereceram durante quatro anos e agora blasfema-se contra este governo que ainda mal teve tempo de se mexer, mas que tudo fazem para denegri-lo. Este mundo conturbado é um mundo onde a direita se move às mil maravilhas, mundo esse que é gerido por agências de rating, banca e grupos que maltratam uns e beneficiam outros. Diga-me porque razão a Holanda é dada como um exemplo e tem uma dívida maior que a da Grécia? Porque razão o grupo Bidelberg manda nisto tudo? António Costa não admite falhanço, quem falhou foi o anterior governo, desse já nós temos a certeza, deste deixe-os pôr mão à obra e depois comente.
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De José António Abreu a 12.02.2016 às 22:13

O que é que quer, não gosto de bater contra a parede, ainda por cima quando a estou a ver...

Quanto à dívida da Holanda ser superior à da Grécia: aposto que a dívida da Sonae também é superior à de uma mercearia de bairro.

http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2015/02/weodata/weorept.aspx?sy=2013&ey=2015&scsm=1&ssd=1&sort=country&ds=.&br=1&c=138%2C174&s=GGXWDN%2CGGXWDN_NGDP%2CGGXWDG%2CGGXWDG_NGDP&grp=0&a=&pr.x=80&pr.y=9
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De Anónimo a 13.02.2016 às 01:31

Quanto à dívida da Holanda foi o próprio Presidente do Eurogrupo que o afirmou, está gravado. Não se esqueça que o senhor é holandês. Também acredito que a dívida da Sonae é maior que a da mercearia e também sei que a Sonae nunca tem dívida zero. Desculpe, mas ainda não viu nada destes, já dos outros, viu que com tanta austeridade, passámos de 90% para 130% da dívida. Isto é que a Troika trabalhou bem. Grandes técnicos e querem mais. Técnicos destes, não ensinam nada, só nos embrutecem e estragam. É a realidade e está bem provada.
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De Anónimo a 12.02.2016 às 22:17

" teriam levado Bloco de Esquerda e PCP a exigir a demissão do governo (e Pacheco Pereira a escrever uma crónica demolidora) se o primeiro-ministro ainda fosse Pedro Passos Coelho." Claro. É que há uma diferença: este governo é apoiado pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP enquanto que o de Passos não era nem nunca seria (penso eu). Lapalisse diria o mesmo.
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De José António Abreu a 12.02.2016 às 22:40

Vocês são tão divertidos. Portanto os princípios - e, logo, os motivos para escândalo - dependem das conveniências. Marx (o Groucho) não diria melhor.
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De Anónimo a 12.02.2016 às 23:32

"dependem das conveniências." Não, não, ao contrário das gentes normais nós estamos sempre contra as nossas conveniências.
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De lucklucky a 13.02.2016 às 03:22

A conveniência é o Poder sobre os outros.

Para muita gente o lucro mede-se em outras coisas que não o dinheiro, por exemplo a possibilidade de prender quem nos chateia politicamente é lucro para um Marxista.
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De Anónimo a 13.02.2016 às 14:48

"A conveniência é o Poder sobre os outros. " O que é que queria que fosse?
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De Anónimo a 13.02.2016 às 18:24

Nós os marxistas somos lixados e há que ter medo de nós. Não brincamos em serviço.
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De Diogo Noivo a 13.02.2016 às 11:38

Na mouche!

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