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Falar muito e comer quase nada

por Pedro Correia, em 04.07.19

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Já aqui expressei a minha perplexidade pelo facto de haver tão escassas descrições de lautos manjares na literatura portuguesa. Perplexidade tanto maior quanto é sabido que gostamos de comer e encontramos uma apreciável variedade de opções gastronómicas no País, viajemos para onde viajarmos dentro das nossas fronteiras. Às vezes parece-me que os nossos escritores consideram o tema um assunto menor. Ou, para ser mais directo, que não apreciam mesmo os prazeres da mesa. Podemos percorrer a obra inteira de vários autores sem depararmos com um único repasto memorável. 

Há excepções, claro, e bem notáveis. Mas, certamente não por acaso, são aquelas que todos conhecemos - com destaque para a inesquecível ceia proporcionada a Jacinto na sua primeira noite em Tormes. 

 

Foi, portanto, com imenso agrado que deparei há dias com uma apetecível refeição descrita por Agustina Bessa-Luís na terceira e última parte do seu romance Fanny Owen. Abriu-me o apetite, confesso. De tal modo que não resisto a partilhar convosco esse excerto:

«Faziam-se bolachas de amêndoa e de cidrão, assim como refrescos de violeta e de bergamota. Servia-se peru à Cardeal, colorido com cascas de camarões pisados e assado no espeto, receita que só era ainda aviada nas cozinhas de Mesão Frio, assim como a empada de lombo de lebre, assim como leitão de javali com molho picante.»

 

Caramba, uma descrição destas até dá gosto. Sobretudo por ser tão rara nas nossas pomposas letras, jamais propícias a trocar a sala pela cozinha. Falta-nos um Rex Stout, falta-nos um Georges Simenon, falta-nos um Vázquez Montalbán - escritores que não tinham complexos em demonstrar a sua paixão pela arte culinária. Ao contrário do que sucede na literatura portuguesa, em que muito se fala e quase nada se come.

Mais um motivo para aqui lhe deixar a minha vénia grata enquanto seu leitor muito atento, Dona Agustina. 

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37 comentários

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De Luís Lavoura a 04.07.2019 às 11:36

O Pedro diz que os portugueses gostam de comer, mas o facto é que, ao longo da nossa história, quase sempre a maior parte dos portugueses comeu pouco e mal. Talvez seja essa a razão pela qual lautas refeições sejam escassamente referidas na literatura - porque, de facto, tais refeições seriam raríssimas para a maior parte da população.
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De Anónimo a 04.07.2019 às 12:16

O naco de broa e o caldo são realmente a comida mais mencionada na literatura portuguesa.
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De Pedro Oliveira a 04.07.2019 às 14:37

"A maior parte da população" não produz literatura.
Pedro Correia, fala de pessoas que escrevem, que produzem literatura, o engenheiro Lavoura pensa, sinceramente, que essas pessoas estão sub-alimentadas?
Como versejava Natália Correia (a prima do Pedro) "sub-alimentados do sonho, a poesia é para comer" e a prosa, também, acrescento eu.
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De Pedro Correia a 04.07.2019 às 15:10

Muito a propósito, esse verso da minha "prima" açoriana, meu caro Pedro.
Um abraço.
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De Luís Lavoura a 04.07.2019 às 15:32

A Natália Correia era prima do Pedro? Eu julgava que fosse tia-avó!
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De Miguel a 04.07.2019 às 15:58

O Buñuel também explica isso: o ágape é fonte de profundas e recorrentes frustrações para a classe burguesa.
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De Pedro Correia a 04.07.2019 às 17:25

Ora bem. Aí está 'O Charme Discreto da Burguesia' para prová-lo.
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De Corvo a 04.07.2019 às 12:37

Não é o que mais me seduz a descrição de lautos repastos na literatura.
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De Pedro Correia a 04.07.2019 às 13:40

Agora com licença... vou almoçar.
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De Maria Dulce Fernandes a 04.07.2019 às 12:40

Estamos a viver a era do "saudável", Pedro, seja lá o que isso queira dizer.
Tudo tem gorduras, açucares ou demasiados hidratos de carbono, que não sendo devidamente trabalhados, poderão causar dramas estéticos irreversíveis.
Cozidos, grelhados, vegetais, frutas e sementes com uma frugalidade assombrosa, é o que propõem os nutricionistas para uma longa e saudável existência.
Nada do que é realmente bom interessa. Tudo se resume a unidades, folhas, gramas, sei lá.
Eu gosto de comer. Como saudável também , mas nem por isso deixo de comer o que gosto.
Sempre se comeu bem ao longo da história das classes mais favorecidas, receitas essas que preduram na tradição de cada país ou região como pratos típicos e que vêm felizmente sendo recuperadas para que não se percam por dentre as alfaces desta vida.
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De Pedro Correia a 04.07.2019 às 13:39

A prova que sempre se comeu bem - naturalmente entre as classes mais favorecidas - é a longa tradição gastronómica desenvolvida em Portugal, nas mais diversas regiões, de sopas, pratos de peixe, pratos de carne e sobremesas.
O nosso património culinário é vasto, diversificado e muito apreciado além-fronteiras. Sei do que falo: vi famílias chinesas, em Macau, deliciarem-se com feijoadas à transmontana ou bacalhau assado com batata a murro. Vi lá gente de todo o mundo a saborear com indisfarçável prazer os nossos pastéis de nata.

Que este património culinário não esteja reflectido, em larga medida, nas páginas da nossa literatura é algo que sempre me surpreendeu. O escritor português gosta de apresentar-se como um ser austero e espartano, ou mesmo nefelibata. Crê que lhe assentará melhor em termos estéticos - ou até ideológicos, em certos casos.

Quase nunca se comete o pecado da gula no romance nacional. Tudo muito conforme com os doutos ensinamentos eclesiais - mesmo por parte de escritores ateus.
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De Anónimo a 04.07.2019 às 14:17

Tem toda a razão.
Lá está, devia fazer parte do receituário de qualquer autor: abrir a refeição com um belo prato de sopa áspera de nabiças, antes de pegar no ‘moleskine’. Talvez, desta forma, em vez de notas vagas sobre coisa nenhuma, descrevessem o mundo onde vivem.
Isabel
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De Pedro Correia a 04.07.2019 às 15:08

Sopa de nabiças soa muito a neo-realismo, Isabel.
Está fora de moda.

Pode não comer-se, mas bebe-se bastante na literatura portuguesa. Do bagaço ao absinto, não faltam alcoóis de todo o género.
Água é que nem por isso.
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De Anónimo a 04.07.2019 às 15:38

Percebo a dificuldade de alguns autores, alguns nós cegos só se desfazem à custa de muita vodka.

Mas insisto na apologia ao que está fora de moda, um bom e simples repasto, acompanhado de um copo de maduro tinto da casa, não tolda o juízo e faz milagres.

Não é por acaso que associamos tantas vezes a boa poesia ao vinho. Se os romancistas não dão o devido valor ao que se come (e bebem mal), os poetas não costumam falhar.

Isabel


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De Luís Lavoura a 04.07.2019 às 15:44

Sopa de nabiças soa muito a neo-realismo, Isabel.
Está fora de moda.


É verdade. Mas eu ainda faço bastante lá em casa. E outra similar mas ainda mais saborosa, em que se substitui as nabiças por acelgas - uma coisa que se usa muito em França mas que, sabe-se lá por quê, em Portugal quase não se conhece.
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De Anónimo a 04.07.2019 às 18:11

Das acelgas não tenho memória, mas sei de quem comia sopa delas.
Agora por falar em francês, um belo acompanhamento é o alho-francês simplesmente cozido e temperado com um nico de manteiga, ou mesmo estufado.
Mas nada dessas coisas migadas que agora se usa, um inteiro, macio, a desfazer-se por camadas.
Isabel
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De António a 04.07.2019 às 14:19

É a cozinha e o wc. Nos livros nunca ninguém vai ao wc.
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De Pedro Correia a 04.07.2019 às 15:07

Tem lógica. Se não comem, não há necessidade de descomer.
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De Corvo a 04.07.2019 às 15:29

Mas bebem e há necessidade de desbeber.
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De Pedro Correia a 04.07.2019 às 23:46

Qualquer canteiro de papoilas serve para tal efeito. Ficam logo saltitantes.
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De Anónimo a 04.07.2019 às 15:20

Conheci uma senhora, que hoje teria 103 anos, que dizia: estou certa que seria rica no Brasil se vendesse lenços, nos folhetins/novelas nunca os vejo assoarem-se senão ao braço ou às mãos.
Isabel
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De António a 04.07.2019 às 22:28

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De Bea a 04.07.2019 às 15:58

Lembro-me de ler essa passagem, mas já nem sabia onde:). Não sei se será defeito português, a culinária não é o objecto da escrita. Pode vir a propósito e acontecer. No caso de Tormes tinha mesmo um bom motivo para. Mas há situações em que falar de trouxas de ovos tira o glamour e a pedalada ao romance. E no entanto, em situações deste quilate, sempre me lembra a afirmação de Isabel Allende a vitoriar a gula por ser, dos sete pecados mortais, o único em que benefício e prejuízo são do próprio (não terá inteira razão, mas é quase assim).
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De Pedro Correia a 04.07.2019 às 19:01

Ela tem razão, Bea. É, de facto, quase assim.
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De Anónimo a 04.07.2019 às 16:05

Os abades camilianos tratavam-se bem...


JSP
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De Pedro Correia a 04.07.2019 às 19:00

Sim, tratavam-se muito bem. E a prosa camiliana reflecte isso.
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De Fernando Antolin a 04.07.2019 às 17:02

Do Montalbán, tenho toda a série Pepe Carvalho, inclusivé um volume intitulado As receitas de Carvalho.

Tal como outro do Simenon, as receitas do comissário Maigret.

Aquilo que refere é justíssimo e, realmente, algo estranho

Abraço
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De Pedro Correia a 04.07.2019 às 18:58

Adoraria ter esse livro do Montalbán, que nunca li: pode ser que o encontre um dia destes.

O das receitas do Simenon conheço bem: está sempre na "biblioteca" da cozinha cá de casa e até já preparei dois pratos inspirado nestas receitas. Uma caldeirada e um coelho salteado com esparguete fresco.
Ficaram bem, em qualquer dos caos.
Mas tenho uma discordância de base filosófica com o paladar do Comissário Maigret: ele, como originário da França "profunda", aprecia muito pratos com base de natas. O que está longe de ser o meu caso.

Um abraço, Fernando. É sempre um prazer receber as suas visitas.
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De João Sousa a 05.07.2019 às 12:00

O Pedro fala na ausência de comida na literatura portuguesa e a primeira coisa que me ocorreu, e inclino a cabeça envergonhado por tal, foi a sopa de peixe do José Rodrigues dos Santos (Codex, se não estou em erro) que tantas e tão divertidas linhas inspirou na blogosfera portuguesa.

Em tom mais sério, esperemos pelo livro de receitas do inspector Ramos que Francisco José Viegas já disse estar em pensamento há muito tempo mas nunca passou à realidade.
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De Pedro Correia a 05.07.2019 às 17:55


Ora aí está: foi precisamente um livro do Francisco José Viegas (que ele fez o favor de me oferecer) que me inspirou a cozinhar: 'A Dieta Ideal'.

Quanto a Jaime Ramos, o "nosso" Pepe Carvalho, aguardo também com muita curiosidade esse prometido livrinho de que serei leitor atento e guloso.


P. S. - Quanto a esse célebre e lamentável trecho de JRS, só uma palavra: ugh.
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De Costa a 05.07.2019 às 18:34

"Quanto a Jaime Ramos, o "nosso" Pepe Carvalho, aguardo também com muita curiosidade esse prometido livrinho de que serei leitor atento e guloso."

Virá ele, o livrinho, grafado em português? Por desgraça o autor cedeu ao AO90. Até ver, pelo menos.

Costa
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De Pedro Correia a 06.07.2019 às 13:00

Hei-de perguntar ao decano dos cronistas portugueses, o admirado e louvado António Sousa Homem.
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De Costa a 06.07.2019 às 14:20

Ah!, o dr. António Sousa Homem. Percorro o seu O Crepúsculo em Moledo com a religiosa lentidão de um devoto (e preocupa, esse título); como um precioso e finito néctar, reservado para momentos muito especiais.

Afinal, a cristalina lucidez de um nonagenário é sempre um precioso ensinamento.: "(...) compreender que o mundo mudou não faz ninguém mais feliz porque, frequentemente, as coisas mudam para pior."

Explique isto, Pedro Correia, à hortícula figura, ao histriónico germânico ou ao gás tóxico. A esses, pelo menos...

Costa
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De sampy a 06.07.2019 às 12:54

Uma injustiça não serem aqui referidas as crónicas do MEC.
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De Pedro Correia a 06.07.2019 às 13:01

Não esquecer também António Sousa Homem, com a sua verve camiliana e agustiniana.
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De Costa a 06.07.2019 às 14:27

Os pequenos almoços de torradas e café de cevada. Dispensados pela D. Elaine, a governanta do (para mim invejado) eremitério de Moledo.

Costa

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