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Falar claro sobre eutanásia

por Teresa Ribeiro, em 04.02.17

eutanasia.jpg

 

Tenho observado que quem argumenta contra a eutanásia tende a iludir três questões:

1. Ninguém obriga ninguém a fazê-lo. Tal como no caso da IVG, os profissionais de saúde que sejam contra têm o direito de se recusar a colaborar.

2. A decisão é do doente (e só considerada se reconhecidamente ele está de posse de todas as suas capacidades mentais)

3. Os casos em que a eutanásia é aplicável serão, naturalmente, objecto de rigorosa regulamentação, pelo que não se coloca a questão de tal servir para facilitar suicídios de pessoas que estão, por exemplo, simplesmente com uma depressão. 

Toda a argumentação que contorne estas três premissas não me parece intelectualmente honesta.

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75 comentários

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De Teresa Ribeiro a 06.02.2017 às 12:07

A medicina da dor pode muito, mas não pode tudo. E quando se fala de eutanásia não é só de dor física que se fala. Há situações de sofrimento intolerável e irremissível que nada têm a ver com dor. Já referi um exemplo que foi largamente difundido através do filme Mar Adentro (2004).
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De Einstürzende Neubauten a 06.02.2017 às 12:24

Teresa recomendo o "Escafandro e a Borboleta"

https://www.youtube.com/watch?v=N4yY1yedPEc

Bem, sei Teresa. Mas em ciência há pouco lugar a subjetivismos. Como avaliar essa dor psicológica? Um doente com uma Depressão Major manifesta uma dor psicologia exasperante. Seria um candidato à eutanásia?

Teresa se começamos a discutir princípios morais com argumentos racionais deixa de haver moral - esterilização de deficientes, ou de doentes com doenças genéticas hereditária graves, etc.
A moral são valores não racionais, emotivos, que valem por si, não tendo utilidade para além de si mesmos. Moral não se apoia na Ciência, mas sim na Cultura
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De Teresa Ribeiro a 06.02.2017 às 18:39

Recorrendo, Neubauten, ao exemplo do filme: é assim tão subjectiva a dor psicológica que se adivinha numa pessoa que é condenada a viver para todo o sempre presa a uma cama?!
A depressão Major é uma doença grave mas cujos sintomas - como sentimentos depressivos, incluindo pulsões suicidas - é possível tratar. O recurso à eutanásia é uma questão que só se coloca quando a medicina não tem capacidade de resposta.
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De Einstürzende Neubauten a 06.02.2017 às 20:35

Teresa, as depressões major e a doença bipolar raramente têm cura. São doenças cronicas.Os seus medicamentos altamente ineficazes, e os seus efeitos adversos enormes (memoria, cognição, mobilidade...

Cumprimentos,
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De Teresa Ribeiro a 07.02.2017 às 18:42

Não disse "curar", mas sim "tratar", no sentido de controlar, fazer contenção de danos. Infelizmente estou familiarizada com a depressão major e a doença bipolar, portanto sei do que falo.
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De Einstürzende Neubauten a 07.02.2017 às 22:00

Teresa também tenho experiência pessoal e familiar. Tive POC - Depressão com 16 anos, fui medicado. Nada resultou. Tentei racionalizar a doença e controlei-a (triunfo da vontade?). Na minha família paterna grande parte são bipolares. Um inferno para a família. As medicações põem-nos a dormir, ou letárgicos, a um ponto que deixam de se interessar por tudo. Filhos, mulher, netos, nada importa. Egocentrismo extremo. Resultado da doença? Personalidade? E com o tempo apenas olham para dentro. Olhar vazio. Olhar de boneca. E com o tempo morrem-nos, permanecendo vivos. Vivos, mas sem nada por dentro. Ocos. E com o tempo a doença ou os medicamentos ou as duas coisas conduzem inexoravelmente a uma cama. E a cama a uma atrofia muscular paralisante. E depois, pior, a uma degenerescência imoral. Imoral no sentido da dureza do castigo. Ninguém deveria merecê-la, essa humilhação nua. O meu pai continua vivo, numa cama, mas há anos que lhe disse adeus. Sofro agora mais pela minha mãe, pois ainda acredita que o meu pai vive.
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De Teresa Ribeiro a 09.02.2017 às 14:36

Sinto muito pelo seu pai. Na minha família, felizmente, não existem casos, mas acompanho há muitos anos a evolução de uma depressão numa das minhas melhores amigas, já classificada de depressão major, que viveu com um bipolar (algo que não a ajudou). Enfim, tudo para dizer que não é, contudo, destes casos que se deve falar quando se fala de eutanásia, porque para a reclamação desse acto exige a serenidade da lucidez, sofrimento atroz e a total impotência da Medicina. Como testemunha que fui e sou do acompanhamento médico de depressões e distúrbios bipolares, a conclusão que tiro é que embora não resolva, a Medicina consegue, na maior dos casos, fazer uma razoável gestão dos danos, o que se reflecte no relativo bem estar dos pacientes.
Também a eutanásia não se aplica aos casos de doentes que perderam, numa fase terminal, a consciência do que são, porque tem de ser uma decisão límpida, consciente e aceitável do próprio (aceitável no sentido em que se enquadra nas situações em que se reconhece que a eutanásia é aplicável)
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De Einstürzende Neubauten a 09.02.2017 às 21:48

Obrigado, Teresa!

"acompanhamento médico de depressões e distúrbios bipolares, a conclusão que tiro é que embora não resolva, a Medicina consegue, na maior dos casos, fazer uma razoável gestão dos danos"

Parece-me que essa gestão dos danos é mais direcionada para os familiares do que para o doente bipolar. É como lhe digo, os medicamentos aliviam o fardo dos que têm de conviver com o doente bipolar por este ficar adormecido e assim dar algum descanso ao cuidador.

Relativamente à Eutanásia a minha posição por enquanto é: Não sou para já a favor. Para já.

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