Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Falar claro sobre eutanásia

por Teresa Ribeiro, em 04.02.17

eutanasia.jpg

 

Tenho observado que quem argumenta contra a eutanásia tende a iludir três questões:

1. Ninguém obriga ninguém a fazê-lo. Tal como no caso da IVG, os profissionais de saúde que sejam contra têm o direito de se recusar a colaborar.

2. A decisão é do doente (e só considerada se reconhecidamente ele está de posse de todas as suas capacidades mentais)

3. Os casos em que a eutanásia é aplicável serão, naturalmente, objecto de rigorosa regulamentação, pelo que não se coloca a questão de tal servir para facilitar suicídios de pessoas que estão, por exemplo, simplesmente com uma depressão. 

Toda a argumentação que contorne estas três premissas não me parece intelectualmente honesta.


75 comentários

Sem imagem de perfil

De Einstürzende Neubauten a 03.02.2017 às 16:39

Já fui a favor, mas presentemente sou contra por várias ordens de razão:

1 - Dor/Sofrimento- existem hoje potentes e eficazes analgésicos - opioides e outros. Ninguém tem de sofrer, e para isso torna-se fundamental os fármacos mas também a existência de boas unidades de cuidados paliativos e especialistas no maneio da dor crónica. Há um longo trabalho a fazer-se nesta área em Portugal

2 - A Eutanásia poderia tornar-se um meio para que as ditas unidades de cuidados paliativos/maneio da dor não evoluíssem em Portugal por razões meramente economicistas - a Eutanásia é incomparavelmente mais barato (agentes eutanasiantes primários rondam os 50€, mais coisa menos coisa - depende do tipo de substância. Manter um doente terminal vivo, ronda por vezes várias centenas de euros/dia).

3 - E as doenças neurológicas degenerativas? O que define estar vivo? Apenas o corpo? E a cognição, lucidez, a autoconsciência? Penso que mais que o corpo somos definidos pelo que somos, pela nossa mente. É isso que nos distingue dos demais. A maneira de ser. A personalidade. Perguntaria: Doentes com Alzheimer não sofrendo de dor física e não tendo um prazo definido para morrer seriam elegíveis para a Eutanásia?
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 03.02.2017 às 17:03

1. Dor é igual a sofrimento, mas o inverso não é, necessariamente, verdadeiro. Quem vive preso num corpo, sem se poder mexer e sem esperança de ganhar autonomia, pode desesperar. Não sei se é cinéfilo, mas o filme Mar Adentro, baseado no caso verdadeiro de um tetraplégico que viveu assim durante 30 anos e depois quis morrer é um bom exemplo do que falo.
2. A decisão é do doente, não das instituições hospitalares, pelo que o custo - mais acessível - da eutanásia se comparado com os dos cuidados paliativos é um argumento que não colhe.
3. Doentes com alzheimer não estão de posse de todas as suas faculdades mentais, pelo que esse exemplo também não faz sentido.
Sem imagem de perfil

De Einstürzende Neubauten a 03.02.2017 às 17:22

1 - Referia a dor física, a que mais "assusta" ( a dor associada, erradamente, ao medo da morte). A menos difícil de avaliar. Mas como avaliá-la objetivamente? E a dor subjectiva? A subjectividade que cada um tem de expressar a dor sentida? Como definir um limite abstracto e geral (a lei não contempla particularidades).
2 - A decisão ultima é dos profissionais de saúde. E como obrigar alguém a dar a derradeira injeção?
3 - Suspender-se-ia com os momentos de lucidez desarmante que os doentes com Alzheimer têm. - As recordações que por vezes manifesta e nos deixam de boca aberta. Ou quando nos dizem - "Não quero morrer!"

É complicado...
Sem imagem de perfil

De V. a 03.02.2017 às 19:26

Por favor.. please... "falar claramente sobre..."

Falar claro é em futebolês ou brasileiro.

Please!
Sem imagem de perfil

De V. a 03.02.2017 às 19:55


Não tolero que o Parlamento legisle mais: o que ali está não é um conjunto legítimo de pessoas. O PAN também percebe de eutanásia? O que é que o PAN está ali a fazer se foi votado para salvar cães dos bidons nas aldeias e acabar com as touradas? A velha estratégia infâme dos partidos de esquerda — desmultiplicam-se em trupes de vigaristas para terem mais tempos e alvíssaras parlamentares. Assim não pode ser.
Sem imagem de perfil

De Plinio a 03.02.2017 às 19:57

Correcto.
Só tenho a fazer as seguintes considerações:
"A decisão é do doente (e só considerada se reconhecidamente ele está de posse de todas as suas capacidades mentais)".
Portanto alguém que tenha sido interditado por decisão judicial está impedido de pedir eutanásia. Poderá pedir o tutor?
Como configurar na prática "todas as capacidades mentais"? Como se sabe que a pessoa está na posse de todas as capacidades mentais? E quando é que isso é aferido, em que momento temporal?
"Rigorosa regulamentação" trará como é evidente interpretações muito diferentes. Quem poderá interpreta-las com segurança?
A constituição não terá que ser alterada? Nela se diz que a vida humana é inviolável - artigo 24º nº1 da RCP. O que quererá dizer inviolável?
Nada contra quem sofre e tem a morte como certa sem possibilidade de recuperação possa ver encurtado o sofrimento.
Portanto as minhas dúvidas não são de natureza filosófica mas prática
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 04.02.2017 às 10:59

Plínio:
Dúvidas práticas e começando pelo último ponto: não sou jurista, mas constato que se a IVG não foi considerada inconstitucional, então a eutanásia também não será.
Esse argumento de que não se pode aferir em rigor do estado mental de uma pessoa é falacioso. Acresce que neste caso no que diz respeito às circunstâncias em que a pessoa se encontra não há subtilezas: ou a situação de sofrimento extremo e irreversível é clara, ou então a possibilidade de fazer eutanásia está fora de questão.
Muitas leis são sujeitas a interpretações diferentes. Não é por isso que se deixa de legislar. A regulamentação serve para as clarificar. Neste caso o facto de o acto depender de circunstâncias extremas - facilmente aferíveis até por leigos - facilita tudo, portanto também considero falacioso esse fantasma da "interpretação da lei" que habitualmente se agita quando se argumenta contra a eutanásia.
Sem imagem de perfil

De Plinio a 04.02.2017 às 16:31

A questão do aborto e não inconstitucionalidade é um pouco diferente, já que o feto não é considerado igual a ser humano completo e com vida. E salvo o devido respeito a questão da interpretação não se resolve com regulamentação. Resolve-se com a aplicação prática feita por pessoas com interpretações muito diferentes baseadas em diferentes convicções. Portanto não se venha com o fantasma. Não estamos a legislar sobre garantias de bens ou sequer sobre questões financeiras mas sim sobre a possibilidade da eutanásia. Todos os cuidados são poucos. Independentemente disso sendo feita a lei e sendo a mesma constitucional aplique-se.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 06.02.2017 às 12:03

Não falamos de objectos. Mas falamos de decisões pessoais e intransmissíveis. Quando se argumenta contra a eutanásia parece que se está sempre a ignorar este detalhe, insinuando que as pessoas que o fazem são sujeitas à decisão e à pressão de terceiros.
Sem imagem de perfil

De V. a 03.02.2017 às 20:01

Sobre o Ponto 2.

"A decisão é do doente (e só considerada se reconhecidamente ele está de posse de todas as suas capacidades mentais)"

E a influência de um familiar ou compadre com um carácter menos vertical sobre um idoso ou uma pessoa fragilizada psicologicamente?
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 04.02.2017 às 11:07

Mais uma vez: o que está em causa são situações de sofrimento extremo (dores insuportáveis, situações altamente incapacitantes) sem possibilidade de remissão. Porque é falso que os cuidados paliativos, de que tanto se fala, sejam eficazes o suficiente para evitar o sofrimento. Infelizmente é assim em muitos casos. O objectivo da eutanásia é dar às pessoas a possibilidade de pôr termo a um sofrimento que consensualmente é reconhecido como insuportável. Nestas circunstâncias não faz sentido colocar a questão nos termos em que a coloca.
Sem imagem de perfil

De Einstürzende Neubauten a 04.02.2017 às 17:50

The argument in favor of euthanasia or PAS in end-of-life cancer care appears ostensibly compassionate and practical. Further examination reveals this stance to be ultimately predicated on a platform which seems to fail to consider well-founded alternatives, and additionally to deny the fundamental existence of humans as created beings. The alternative approach of the appropriate use of the specialty of pain medicine within a greater setting of palliative care allows compassionate care and fundamental respect for the dying as those having human lives of value. Although suffering is to be eased whenever possible, the presence of healthcare practitioners with a spiritual orientation may lead to less likelihood that this goal will be attempted to be accomplished at the expense of all else, especially the life of the patient.


https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4434784/
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 06.02.2017 às 12:07

A medicina da dor pode muito, mas não pode tudo. E quando se fala de eutanásia não é só de dor física que se fala. Há situações de sofrimento intolerável e irremissível que nada têm a ver com dor. Já referi um exemplo que foi largamente difundido através do filme Mar Adentro (2004).
Sem imagem de perfil

De Einstürzende Neubauten a 06.02.2017 às 12:24

Teresa recomendo o "Escafandro e a Borboleta"

https://www.youtube.com/watch?v=N4yY1yedPEc

Bem, sei Teresa. Mas em ciência há pouco lugar a subjetivismos. Como avaliar essa dor psicológica? Um doente com uma Depressão Major manifesta uma dor psicologia exasperante. Seria um candidato à eutanásia?

Teresa se começamos a discutir princípios morais com argumentos racionais deixa de haver moral - esterilização de deficientes, ou de doentes com doenças genéticas hereditária graves, etc.
A moral são valores não racionais, emotivos, que valem por si, não tendo utilidade para além de si mesmos. Moral não se apoia na Ciência, mas sim na Cultura
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 06.02.2017 às 18:39

Recorrendo, Neubauten, ao exemplo do filme: é assim tão subjectiva a dor psicológica que se adivinha numa pessoa que é condenada a viver para todo o sempre presa a uma cama?!
A depressão Major é uma doença grave mas cujos sintomas - como sentimentos depressivos, incluindo pulsões suicidas - é possível tratar. O recurso à eutanásia é uma questão que só se coloca quando a medicina não tem capacidade de resposta.
Sem imagem de perfil

De Einstürzende Neubauten a 06.02.2017 às 20:35

Teresa, as depressões major e a doença bipolar raramente têm cura. São doenças cronicas.Os seus medicamentos altamente ineficazes, e os seus efeitos adversos enormes (memoria, cognição, mobilidade...

Cumprimentos,
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 07.02.2017 às 18:42

Não disse "curar", mas sim "tratar", no sentido de controlar, fazer contenção de danos. Infelizmente estou familiarizada com a depressão major e a doença bipolar, portanto sei do que falo.
Sem imagem de perfil

De Einstürzende Neubauten a 07.02.2017 às 22:00

Teresa também tenho experiência pessoal e familiar. Tive POC - Depressão com 16 anos, fui medicado. Nada resultou. Tentei racionalizar a doença e controlei-a (triunfo da vontade?). Na minha família paterna grande parte são bipolares. Um inferno para a família. As medicações põem-nos a dormir, ou letárgicos, a um ponto que deixam de se interessar por tudo. Filhos, mulher, netos, nada importa. Egocentrismo extremo. Resultado da doença? Personalidade? E com o tempo apenas olham para dentro. Olhar vazio. Olhar de boneca. E com o tempo morrem-nos, permanecendo vivos. Vivos, mas sem nada por dentro. Ocos. E com o tempo a doença ou os medicamentos ou as duas coisas conduzem inexoravelmente a uma cama. E a cama a uma atrofia muscular paralisante. E depois, pior, a uma degenerescência imoral. Imoral no sentido da dureza do castigo. Ninguém deveria merecê-la, essa humilhação nua. O meu pai continua vivo, numa cama, mas há anos que lhe disse adeus. Sofro agora mais pela minha mãe, pois ainda acredita que o meu pai vive.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 09.02.2017 às 14:36

Sinto muito pelo seu pai. Na minha família, felizmente, não existem casos, mas acompanho há muitos anos a evolução de uma depressão numa das minhas melhores amigas, já classificada de depressão major, que viveu com um bipolar (algo que não a ajudou). Enfim, tudo para dizer que não é, contudo, destes casos que se deve falar quando se fala de eutanásia, porque para a reclamação desse acto exige a serenidade da lucidez, sofrimento atroz e a total impotência da Medicina. Como testemunha que fui e sou do acompanhamento médico de depressões e distúrbios bipolares, a conclusão que tiro é que embora não resolva, a Medicina consegue, na maior dos casos, fazer uma razoável gestão dos danos, o que se reflecte no relativo bem estar dos pacientes.
Também a eutanásia não se aplica aos casos de doentes que perderam, numa fase terminal, a consciência do que são, porque tem de ser uma decisão límpida, consciente e aceitável do próprio (aceitável no sentido em que se enquadra nas situações em que se reconhece que a eutanásia é aplicável)
Sem imagem de perfil

De Einstürzende Neubauten a 09.02.2017 às 21:48

Obrigado, Teresa!

"acompanhamento médico de depressões e distúrbios bipolares, a conclusão que tiro é que embora não resolva, a Medicina consegue, na maior dos casos, fazer uma razoável gestão dos danos"

Parece-me que essa gestão dos danos é mais direcionada para os familiares do que para o doente bipolar. É como lhe digo, os medicamentos aliviam o fardo dos que têm de conviver com o doente bipolar por este ficar adormecido e assim dar algum descanso ao cuidador.

Relativamente à Eutanásia a minha posição por enquanto é: Não sou para já a favor. Para já.
Sem imagem de perfil

De JSC a 03.02.2017 às 20:05

Quem sofre com a morte, nunca é a pessoa em si (pode sofrer com a vida), mas geralmente os seus familiares e seus amigos.

Custa-me um pouco ouvir dizer alguém que preferia morrer quando estão pessoas ao seu lado que gostam dela e que a querem ali.

Querer morrer é um acto "egoísta" em geral, por isso acho um certa "piada" a serem as pessoas de esquerda (maioritariamente) a defenderem esta solução.

Além de quê, tirando os incapacitados físicos, é fácil cometer suicídio sem sofrer, com produtos comuns que toda a gente tem em casa, basta-se informar um pouco.

Para mim eutanásia é igual a suicídio auxiliado por outra pessoa.

Deixo uma última questão, naqueles casos que o suicídio (tradicional) não foi bem sucedido o médico deve deixar morrer essa pessoa? Afinal a sua vontade era morrer...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 03.02.2017 às 20:57

Quando se fala em eutanásia, genericamente, fala-se em coisas muito diferentes.
Fala-se em suicídio assistido - um acto consciente e deliberado, que no momento decisivo não envolve terceiras pessoas.
Fala-se em eutanásia passiva - que é, 'grosso modo', a suspensão de tratamentos terapêuticos para não prolongar artificialmente a vida para além do seu fim natural.
O dilema ético e moral relaciona-se essencialmente com a chamada eutanásia activa, que atenta contra um dos raros direitos considerados invioláveis na Constituição portuguesa: o direito à vida.
"A vida humana é inviolável" (artigo 24.º da nossa lei fundamental). Não pode haver maior imperativo legal que este.
Faço notar que o n.º 2 do mesmo artigo estabelece que "em caso algum haverá pena de morte". Outro imperativo, indiscutível.
E aproveito para assinalar outro direito com carácter absoluto na Constituição de 1976, que ainda nos rege: "A integridade moral e física das pessoas é inviolável" (art. 25.º). Que, por sua vez, se articula com o n.º 2 do mesmo artigo: "Ninguém pode ser submetido a tortura, nem a tratos ou a penas cruéis, degradantes ou desumanos."
Quero com tudo isto dizer que o nosso edifício jurídico, em matéria de direitos, parece sólido mas no fundo é frágil. Quase como um castelo de cartas. Se de lá tiramos uma, o edifício desmorona-se.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 04.02.2017 às 11:41

Se a lei sobre IVG foi possível, apesar desse articulado da constituição, a eutanásia também é possível. Há contradição na lei fundamental quando defende que a vida é inviolável, mas também que as pessoas não podem ser sujeitas a tortura. Quem se encontra num quadro em que a eutanásia é aplicável, recusar-lhe a "morte doce" é sujeitá-las a tortura.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 04.02.2017 às 11:16

Acho graça à leveza com que as pessoas julgam estas situações e quem as apoia. Penso sempre que nunca devem ter feito um simples exercício. Simples e honesto, do ponto de vista intelectual, que é o de se meterem na pele destas pessoas.
O que será viver completamente imobilizado numa cama durante 30 anos, sem hipótese de recuperação? Como será suportar dores lancinantes por tempo indefinido? Até que ponto é suportável saber-se que se vai viver em sofrimento extremo até o corpo, finalmente, nos libertar?
Em vez de pôr a questão entre esquerda e direita, reconheça que antes do mais é a questão religiosa que separa, nesta discussão, as opiniões. Respeito quem, por convicção religiosa, é contra a eutanásia; mas tal não lhe dá o direito de defender a sua interdição a outros. A eutanásia é uma questão de liberdade.
Sem imagem de perfil

De JSC a 04.02.2017 às 11:41

Totalmente ao lado, esta não é uma questão religiosa, é uma questão ética, moral e filosófica. Entre o conceito da vida e da morte e da intervenção intencionada nestes acontecimentos, que pouco tem a ver com a religião.

Por exemplo, os USA, um país bastante religioso, têm pena de morte, é uma questão religiosa?

Ninguém não reconhece que essas pessoas sofrem, a questão não é essa, a questão é: um médico ou outra pessoa deve matar essa pessoa a pedido desta? Uma pessoa dá uma arma para a sua mão e pede que a mate (a morte é quase instantânea e sem sofrimento), faz-lo? É sim uma questão filosófica e não religiosa mais uma vez. Só porque é de um modo menos "brutal" (anestesia + injecção letal), não deixa de ser a mesma questão.

Outra questão, o médico que sempre tratou a pessoa seria obrigado a matar o doente a seu pedido?

Leveza é a sua maneira de pensar.

Pedro Correia, sim legalmente em Portugal não é possível legislar esta questão sem alterar a Constituição. Mas penso que este debate se pode fazer mesmo sem essa possibilidade, pois se houver um consenso pode-se alterar a Constituição (o que me parece claro é que não existe esse consenso).
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 04.02.2017 às 11:50

Caro JSC: Tirando os incapacitados físicos, ficam de fora muito poucos de entre os que poderiam praticar eutanásia ao abrigo de uma lei que a despenalizasse.
Sem imagem de perfil

De JSC a 04.02.2017 às 11:57

O suicídio não é criminalizado, tanto que uma pessoa que o tenta e não tem sucesso nessa tentativa, não lhe é movida nenhuma acção legal, é lhe prestado apoio médico e psicológico.
Sem imagem de perfil

De V. a 04.02.2017 às 14:56

Tanto quanto sei essa pessoa pode ser responsabilizada por danos civis e mesmo por danos causados ao Estado, em determinadas situações.
Sem imagem de perfil

De JSC a 04.02.2017 às 20:20

Dá-me um exemplo desses em Portugal (sinceramente não me vem à memória nenhum caso desse género), mas sem dúvida que é possível.

Se na tentativa, causar danos pode ser processado por isso.
Por exemplo, se a pessoa o tentar fazê-lo através de uma explosão de gás (causando danos materiais a outras propriedades e pessoas), pode responder por esses crimes. Ou por exemplo se o tentar fazer com uma arma ilegal, pode ser acusado, no entanto como disse não me lembro de um caso destes.

No entanto, como já disse em cima, bastando pesquisar um pouco e sem cometer nenhum crime é possível ter uma morte sem sofrimento com produtos que se têm em casa e com 100% de garantia. Ao contrário de métodos mais brutais.

Resumindo em Portugal o suicídio ou a tentativa de o fazer não é um crime e isto é um facto ao contrário de alguns países onde é crime.
Sem imagem de perfil

De V. a 05.02.2017 às 13:27

Não tenho a certeza, de facto. Mas recordo vagamente a ideia de alguém ter sido processado pelo Metro por.. enfim.. ter posto aquilo tudo em polvorosa. Pode ser um mito urbano, não sei.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 03.02.2017 às 21:41

Surely you jest.

"2. A decisão é do doente (e só considerada se reconhecidamente ele está de posse de todas as suas capacidades mentais)"

Da Holanda:
"Doctor forces family to hold down grandma to be euthanized.

In this case, the woman, who was suffering from dementia, had earlier expressed a desire to have her life ended when she felt the “time was right”.

The end came when a doctor put a soporific into her coffee before administering a lethal injection.
But as the doctor tried to administer the injection, she began to struggle and the doctor had to seek the family’s help to complete the procedure."

"3. Não se coloca a questão de tal servir para facilitar suicídios de pessoas que estão, por exemplo, simplesmente com uma depressão."

Da Holanda:

"Na Holanda, uma lei permite a morte assistida apenas em crianças a partir dos 12 anos [...] Um dos casos mais recentes é o de uma jovem de 20 anos, vítima de depressão e anorexia após sofrer um abuso sexual, que recebeu autorização para se submeter a eutanásia por injecção letal."
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 04.02.2017 às 11:19

O primeiro exemplo que cita, é crime. O segundo, no máximo também é, no mínimo é negligência médica, irresponsabilidade, não sei como lhe chamar. Não se pode deixar de legislar porque há infractores. A regulamentação deve restringir ao máximo os casos em que este acto extremo é permitido.
Sem imagem de perfil

De hyu a 06.02.2017 às 16:16

Foi a eutanásia - o entusiasmo pelo culto da morte - que abriu a porta a esses crimes.
Sem um regime de eutanásia aquele médico nunca se atreveria a assassinar a sua doente.
Não há legislação que possa defender ninguém quando se abrem certas portas, nomeadamente quando se diminui a consciência da ilicitude de um acto.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 03.02.2017 às 21:46

"1. Ninguém obriga ninguém a fazê-lo. Tal como no caso da IVG, os profissionais de saúde que sejam contra têm o direito de se recusar a colaborar."

Comparação sem razão. A criança é morta logo sim há quem seja obrigado a morrer.

----
Em teoria sou favorável a Eutanasia desde que seja o próprio a comete-la - suicido assistido portanto- mesmo que outros tenham de preparar.

Mas na prática arriscamos a pressão para morrer: não quero dar trabalho aos filhos, etc.
Vai dar muita coisa feia que como é óbvio não vai ser censurada pelo jornalismo porque é mais um ícone da Esquerda.
Sem imagem de perfil

De V. a 04.02.2017 às 02:45

"Mas na prática arriscamos a pressão para morrer: não quero dar trabalho aos filhos, etc."

Exactamente. Eu acho que este é o maior problema. Creio que a Eutanásia pode ficar como acordo secreto entre o paciente e o médico sem intervenção do Estado — como já acontece. No fundo, para quê legislar sobre isto? O fim dos que propõem a legalização é só modificar a sociedade, não é salvar ninguém.

No caso do aborto, mudei um pouco a minha opinião ultimamente. Na altura fui a favor porque apesar de defender a responsabilidade maternal e paternal considerei que havia um problema de saúde pública e de mal-feitoria (operações clandestinas em vãos de escada e gente oportunista a ganhar muito dinheiro com isso) pelo que me parecia preferível ser feito em sítios "autorizados" dado que se fará sempre independentemente do que diz a lei.

Mas agora vejo mais a vida em si, a vida que perde (pessoas que não vamos conhecer). Tive vários alunos que eram orfãos abandonados, que eventualmente não existiriam hoje se o aborto fosse legal na altura — e quando me confrontaram com isso (depois de eu expressar que era a favor) fui forçado a rever a minha posição. Perturbou-me bastante esse episódio. E percebi a irracionalidade e o fanatismo de legislar sobre estas coisas: no fundo o que interessa a alguns é atacar a moral cristã e modificar a sociedade só porque abstractamente lhes parece que há direitos em vez de deveres. Há coisas que devem ficar na esfera individual e admito que a eutanásia deve ficar neste limbo (entre o paciente e o médico)

Em todo o caso, criminalizar uma mulher que faz um aborto sempre me pareceu absurdo porque ninguém aborta de ânimo leve, acho eu.

Já com a eutanásia não sou contra por princípio, mas votarei contra num referendo porque me parece que se levantam outros problemas como a influência de um familiar sobre uma pessoa doente.

^algumas ideias soltas.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 04.02.2017 às 11:22

Qual ícone da esquerda! O assunto é demasiado grave para virmos com esse folclore habitual, não acha? Só quem nunca viu um familiar sofrer a ponto de lhe desejar a morte é que pode falar deste assunto com tamanha leveza!
Sem imagem de perfil

De tric.Lebanon a 03.02.2017 às 23:10

esta discussão não vai ser honesta...porque colocar o suicidio como questão já diz tudo sobre a honestidade da questão...querem matar os velhotes e não como !!! o que custa é abrir a porta...
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 04.02.2017 às 11:27

Só espero que quem argumenta assim, nunca venha a sentir no pêlo o que é o sofrimento extremo. É que as pessoas esquecem-se que ninguém tem o futuro nas mãos. Por isso este assunto deveria merecer uma reflexão mais séria e não de acordo com a velha lógica clubística esquerda versus direita; liberais versus conservadores.
Se a decisão de cometer eutanásia é pessoal e só é considerada em casos muito específicos e uma vez reconhecida a capacidade mental da pessoa, esse seu argumentário não faz sentido nenhum!
Sem imagem de perfil

De V. a 04.02.2017 às 13:26

Mas "você não sabe argumentar porque nunca viu um familiar sofrer" também não me parece grande argumento. Além de falso. Todos nós já passámos por isso. Ou vamos passar. Não se pode legislar com as emoções (a lei tem de calcular). Ou então não se legisle — que é o que eu defendo.
Sem imagem de perfil

De tric.Lebanon a 04.02.2017 às 14:30

sim...é abrir uma porta que nunca deve ser aberta...
Sem imagem de perfil

De Buiça a 04.02.2017 às 01:24

Parece-me que podendo uma pessoa matar-se a qualquer momento de mil e uma maneiras (sem julgamentos morais, nunca será tão egoísta quem se quer privar aos outros - estranha forma de colocar uma decisão minha sobre a minha vida - como outros obrigarem alguém a viver contra a sua vontade), a unica coisa para que a lei é chamada é o que fazer quando ela está a cargo de alguma instituição.
Se pede que a matem (caso esteja incapacitada de o fazer sozinha) ou que a deixem morrer convém que esteja de posse das suas capacidades. O termo já existe para testamentos por exemplo.
Mas sobram ainda inúmeros casos, dou apenas 3 exemplos:
- idoso com posses e sem herdeiros a cargo de lar pouco escrupuloso que o mantém "vivo" em estado vegetativo durante 10 anos para continuar a receber a renda ou o subsidio
- alguém em coma durante 5 anos sem esperança concreta de vir a acordar, de quem a família já desistiu mas que não deixou testamento vital
- e quando a tecnologia permitir manter alguém ligado à máquina durante 200 anos sem o conseguir ressuscitar? Vamos continuar a hipocrisia de alguém se esquecer de trocar as baterias à máquina? Criar um arquivo morto onde depositamos todos estes casos tentando prolongar a vida com o mínimo custo para a sociedade?

Ou seja, caímos no ponto 3, o da regulamentação, que é dispensado pela Teresa com alguma ligeireza, acreditando que "naturalmente" aparecerá uma regulação "rigorosa". Por algum motivo me lembrei logo do BES, onde quase 3 anos depois a tal da regulação ainda não conseguiu condenar ninguém de coisa alguma, nem um vendedor de lixo ao balcão, nenhum aprovador de créditos ou produtos ruinosos, etc. e agora à laia de "regulação forte" se deixam na mesma todas as regulações que nunca puniram ninguém e nos limitamos a aumentar a pena a que está sujeito quem absolutamente nada tem a temer deste tipo de "reguladores".
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 04.02.2017 às 11:31

E com base nessas dificuldades continuamos a empurrar com a barriga uma decisão - a de legalizar a eutanásia - continuando a condenar a um sofrimento desumano as pessoas que estão no centro desta discussão e que são o elo mais fraco.
Sem imagem de perfil

De jui a 04.02.2017 às 20:54

http://www.telegraph.co.uk/news/2016/05/11/netherlands-sees-sharp-increase-in-people-choosing-euthanasia-du/
Sem imagem de perfil

De JSC a 04.02.2017 às 14:56

Os seus casos não são bons exemplos para esta questão, uma vez que a eutanásia se baseia no pedido expresso da pessoa para morrer, em nenhum desses casos isso é possível.

Essa é a questão de se deve desligar ou não a máquina que mantém essa pessoa "sem" consciência viva. Algo que os médicos já podem fazer em certas situações (morte cerebral).

Comentar post


Pág. 1/2



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D