Façam as apostas

Amanhã exercerei o meu direito de voto para a eleição presidencial de Domingo, 18 de Janeiro. Aqui não há período de reflexão. Nem aqui nem para ninguém que tenha antecipado o exercício desse direito. Só os que acompanham a campanha até ao fim e residem em Portugal continental e nas ilhas é que precisam da protecção legal da reflexão. Para isso têm o sábado garantido. Os outros podem voltar irreflectidamente, no que constitui mais um dos muitos anacronismos da nossa democracia e das nossas leis eleitorais. Adiante que sobre isso já o Pedro se pronunciou.
Os boletins de voto aparecerão com uma equipa de futebol de onze e três suplentes que garantirão mais uma resma de votos nulos.
Neste espaço não vou apelar ao voto em ninguém. Cada um que decida sozinho para que lado dormirá melhor.
Apelo sim à participação, pois que também não poderia recomendar o voto em nenhum dos candidatos. Não tenho o jeito de uns para figurante, ou a lata de outros para catedráticos; muito menos o descaramento de alguns desventurosos.
A opção, a bem dizer, não está em escolher aquele que está mais bem preparado em termos académicos, profissionais e políticos, com ideias mais arrumadas e enxutas, muito menos o mais capaz, o mais competente, o mais sensato, o mais sério ou o mais educado. Cada um terá as suas razões. Todos têm as suas razões. Pior que os Estados Unidos, a Venezuela, Israel ou o Irão não ficaremos.
O único exercício de reflexão possível neste momento, admitindo que vale a pena perder uns minutos neste ínterim, está em tentar descortinar qual dos bonecos colocados nas prateleiras da barraca dos brindes parece ser o menos horripilante no momento em que tirarmos a rifa e nos entrarem pelo ecrã da televisão, na noite de domingo, com o anúncio do prémio que nos foi atribuído para os próximos cinco anos.
É verdade que há sempre a hipótese de se oferecer o mono ao vizinho ou ao filho da padeira, como se fosse um dos coloridos sete anões, ou de guardá-lo na garagem entre a caixa de ferramentas do carro, as prendas de alguns natais e as lembranças de uns clientes mais exuberantes, mas será sempre difícil encaixá-lo no armário onde está aquele candeeiro de porcelana que me ofereceram com uma fonte, golfinhos azuis e brancos e luzes intermitentes.
O ridículo foi a marca destas eleições.
Foi ridículo ver o líder da oposição, que quer ser primeiro-ministro, primeiro a admitir apoiar um putativo candidato, depois a manifestar apoio a esse candidato declarado, vê-lo recusado, sondar o mercado enquanto apalpava os legumes, para acabar ele próprio candidato e a fazer promessas repescadas das legislativas. Como se o próximo Presidente da República se preparasse para ser o futuro substituto do primeiro-ministro durante os impedimentos e ausências deste. Ou uma espécie de Maduro europeu, de batina camuflada, subserviente à cartilha trumpista.
Como foi ridículo ver um almirante a admitir tudo e o seu oposto, qual catavento sem a mais pequena noção do papel do Presidente da República, tão depressa se apresentando como alguém ungido com um óleo divino que o colocava em Fátima, como logo depois admitia vir a formar um partido se perder as eleições, ora pescando à direita, ora lançando a minhoca à esquerda, ao centro, em cima e em baixo, adaptando-se aos sucessivos solavancos da campanha eleitoral que o atiravam de bombordo para estibordo e da proa até à ré.
E não menos ridículo foi ver um outro candidato, enfarpelado da mais moderna cagança, dando ares de grande preparação para o cargo, dizer que se soubesse que uma lei viria a ser declarada inconstitucional a teria assinado na mesma, insistindo dias depois na tecla ao admitir em plena campanha que poderia vir a desistir a favor de outro candidato, para dizendo não saber o que lhe terá passado pela cabeça. Talvez não tenha passado nada, e seja mesmo esse o problema, dado o tamanho do umbigo, porque não é normal que um candidato a dias do sufrágio acabe a escrever ao primeiro-ministro e líder do maior partido, pedindo-lhe que desista do seu candidato para o apoiar a ele. Pior seria difícil antes de encostar às boxes para a corrida de domingo.
Os outros aspirantes a dois dígitos na primeira volta, em matéria de ridículo, não se podem rir dos anteriores.
Um foi completamente destroçado num debate televisivo, como se o facto de ser um simples portador de uma carteira profissional de uma profissão que não exerce fizesse dele um profissional sabedor, qualificado, competente e experiente sem ter necessidade de ir buscar uns saltos altos, meter umas cunhas, colocar-se em bicos de pés e defender a sua candidatura comparando a sua própria altura com a de outros que nem sequer são candidatos. Mais elevado seria difícil. Os homens não se medem aos palmos, e alguns sendo altos são maus bailarinos e tão trapalhões a jogar golfe como quando exercem qualquer cargo. O problema são os inseguros. Estes andam sempre de fita métrica e com as rábulas numa cábula. Poderá não vencer à primeira nem à segunda volta, admito. Terá sempre a oportunidade, quem sabe, de ir à terceira volta. De um corridinho. Aí a altura não será problema e até poderá voar entre voltas.
E para não ser menos ridículo houve um outro candidato, campeão dos direitos humanos e das garantias constitucionais, que sem nada dizer, falando redondo, como se estivesse numa homilia permanente, sem regatear apoios, conseguiu a proeza de se rodear de um punhado de "defuntos", cuja língua foi rosada. Hoje são mais conhecidos pela forma como se equilibram nos lamaçais e a sua compreensão para com a generosidade das autocracias, desde que lhes caia qualquer coisa na sopa ou no avental.
Há mais uns quantos no boletim de voto, sabemos isso, muito embora nada nos obrigue a fixar os seus nomes. Em comum têm uma arreigada obstinação pela teatralização, pelo drama, pelo desastre, que é outra forma de ridículo.
Não se preocupem com o resultado. Ide votar.
Escolham aquele que vos parecer menos mau para ficar na prateleira. O menos ridículo.
Uma campanha ridícula e um voto secreto, ainda que ridículo, não mancham a linhagem de ninguém. Nem acabam com a República ou com mais de oito séculos de história.
E daqui a cinco anos, com mais ou menos dissoluções da Assembleia da República, poderemos sempre escolher outro. Um que seja um pouco menos ridículo. Sem necessidade de reflexão.

