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E o tempo de Jogos Olímpicos e já tenho andado a ver nas redes sociais e nos jornais os comentários habituais às prestações de atletas portugueses. Em resumo, que é uma vergonha, que andamos a pagar para eles fazerem isto (seja lá o que "isto" for), que não trazem medalhas, que se é para baterem recordes nacionais também o podem fazer em casa (li em tempos um comentário do género salvo erro a Eduardo Pitta), etc e tal. Alguns dos comentários mais recentes debruçaram-se sobre o quinto lugar de João Pereira que não chegou a ser uma medalha, nos resultados dos canoístas que não chegaram lá e nos nossos triplistas em que pelo menos Nélson Évora é desculpado porque no passado já foi ouro.

 

Uma das respostas padrão passa por perguntar quem mais pode dizer que é dos oito melhores do mundo ou sequer o melhor português naquilo que faz. Outra passa por dizer que quem questiona não sabe do que fala (que será verdade na maioria das situações). Eu prefiro uma outra opção: respeite-se antes de mais o esforço de quem chegou àquele nível (passando por muitos sacrifícios pessoais ou não) e de quem estava a cumprir a sua função. É o mesmo respeito que é devido a um empregado de balcão, a um médico, a um varredor de ruas, a um padre, a um operário, a um ministro ou a um polícia. É o respeito devido a quem faz o seu trabalho.

 

Há no entanto a necessidade de dissecarmos as prestações por duas perspectivas: a) em comparação com as expectativas e, b) como resultado de um investimento no atleta. Farei isso abaixo.

 

 

Comparação com as expectativas

Este é o ponto em que as críticas são mais fáceis. O atleta é o segundo ou terceiro do ranking e só conseguiu ir à final. Ou então o máximo que conseguiu foi bater o recorde nacional/pessoal e ficou nas eliminatórias. Ou então nem sequer bateu o recorde pessoal. Todas estas expectativas tendem a esquecer um aspecto simples: estas provas são de competição. Ou seja, mesmo que o atleta tenha a sua melhor prestação de sempre, há outros atletas que poderão ter uma prestação melhor. Nalguns casos esses mesmos atletas superar-se-ão com as suas melhores marcas de sempre ou perto disso. Nelson Évora foi campeão mundial em 2007 e olímpico em 2008 com as suas melhor e segunda melhor marcas por larga distância. Quem ficou abaixo dele não se poderia queixar do seu falhanço, antes e apenas do brilhantismo de Évora. Já quem bate recordes nacionais ou pessoais pode não conseguir ir muito longe, mas estará certamente a dar o seu melhor. Que a competição seja ainda melhor não é culpa pessoal.

Mesmo o caso de prestações abaixo do seu melhor podem ter fortes atenuantes. Há provas que nas grandes competições são exclusivamente tácticas e onde as marcas serão sempre abaixo do melhor dos atletas em prova )nas meia e longa distâncias no atletismo, por exemplo). Há também situações em que as condições não são iguais às ideais (uma prova de tiro com arco sob vento intenso, por exemplo). E ainda há os casos em que os atletas têm um mau dia ou estão a competir em condições de que não gostam (o maratonistas António Pinto não gostava de correr com calor, e o mal-amado Marco Fortes ficou para sempre marcado pelo comentário da caminha). Quem nunca teve um mau dia num dia importante que atire a primeira pedra.

As expectativas são importantes. Apresentam um objectivo a atingir, e oferecem a motivação para se seguir um plano para lá chegar. Há no entanto o simples facto de ser necessário ter condições - técnicas, humanas, médicas, etc - para atingir esse objectivo. E esse é um aspecto em que Portugal falha. O que nos leva às...

 

Expectativas em resultado de um investimento

O país investe, os atletas recebem e o povo espera... medalhas. É assim? Bom, numa palavra: não. Deveria ser de facto assim, mas há que considerar o investimento feito. Vamos a números. De acordo com o que eu leio no documento do Comité Olímpico Português "Programa Desportivo - Preparação Olímpica RIO 2016", os montantes que um atleta de escalão máximo poderia receber seria de 1.375 € (para o atleta) e 1.100 € (para o treinador) por mês. Mesmo que estes valores sejam líquidos (não encontrei referência a tal), não se pode dizer que seja muito.

Para que se compreenda, lembremos que os atletas, além de serem pessoas que têm despesas normais (casa, transportes, água, luz, gás, roupa, etc), também têm despesas específicas. Entre elas estão:

  • as suas dietas especiais (altas em calorias e o mais saudáveis e personalizadas possível);
  • as viagens para e de estágios, campos de treinos ou competições (no caso de competições em locais mais longínquos isso envolve também viagens em classe executiva para não chegarem esgotados ou lesionados);
  • o equipamento necessário ao desporto (sapatilhas, calções, raquetes, quimonos) mas também aquele que é necessário à monitorização da actividade e dos desempenhos (alguns softwares personalizados para a análise estatística têm licenças anuais bastante onerosas);
  • acesso a equipamento e análise médicas especializadas (o centro de alto rendimento não é exactamente moderno e é hoje em dia necessário fazer-se acompanhamento diário, algo não fácil para quem viva a mais de 30 km de um dos centros).

Quando se levam estas despesas em consideração, a verdade é que 2.475 €/mês não é muito para a alta competição de nível internacional. Parte do tempo do atleta tem então de ser passado em angariação de fundos, seja em acções de publicidade (para aqueles que tenham a priori atingido notoriedade suficiente para tal) ou em busca de patrocinadores. Esse tempo é tempo que não é passado a treinar, competir ou descansar.

Para se ter uma ideia do que pode acontecer com os investimentos não é preciso ir mais longe que a Grã-Bretanha. Em 1996 tiveram uma colheita de 15 medalhas, apenas uma de ouro. Um investimento sem precedentes nas suas modalidades através das receitas da lotaria nacional e 16 anos depois, mesmo que em casa, chegaram às 65 (29 de ouro). O investimento para o ciclo dos JO de Londres de 2009-12 foi de 312 milhões de libras. O investimento para os 92 atletas portugueses, se tivessem sido todos de alta competição e os de modalidades colectivas recebessem o mesmo que os individuais, teria sido de cerca de 11 milhões de euros. A diferença é significativa.

A verdade é que para se ter acesso aos melhores métodos, melhores treinadores, melhores equipamentos, melhores competições (que implica aprender com os melhores adversários) para se poder ter a melhor preparação possível, tudo isto custa muito dinheiro. Muito mais dinheiro que aquele que se consegue obter através de uma mera bolsa olímpica, mesmo que de nível máximo. Se os portugueses não quiserem fazer investimento público nos atletas olímpicos, isso é uma opção como qualquer outra. Mas nesse caso não se venha pedir a quem sacrifica o seu tempo, os seus estudos, o seu trabalho, as suas horas de lazer, a sua vida familiar e privada, etc, em função das cerca de três semanas nuns longínquos 4 anos no futuro, que obtenha classificações com as quais só podemos sonhar.

Não são atletas a criticar. São pessoas para nos inspirar.

 


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