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Exemplos de Vida

por Francisca Prieto, em 20.04.16

Hoje a minha sobrinha Matilde foi ao programa do Medina Carreira prestar o seu testemunho enquanto voluntária num campo de refugiados na Grécia. Desde que chegou que tem tido vários convites e eu sigo sempre tudo, muito atenta, de olhos colados ao ecrã. Porque tenho um imenso orgulho na forma como estabeleceu prioridades na sua vida, mas também porque tenho um raio de um defeito de profissão que me faz analisar a pertinência das perguntas e o peso de cada palavra no resultado da comunicação.

Gosto da forma como ela resiste em cair em histórias sensacionalistas, mesmo quando há insistência da parte do entrevistador. E gosto da forma como se ri e oferece uma resposta curta quando quer escapar a um tema sobre o qual prefere não falar.

Gosto desta ética. Da forma como não assume que os episódios hediondos que lhe passarem pela frente são sua propriedade. Que o sofrimento extremo de terceiros, mais do que uma boa história para contar, é matéria para respeitar.

No outro dia perguntavam-lhe em tom afirmativo se após esta experiência se tinha tornado uma pessoa diferente. É preciso não conhecer a Matilde para não perceber que ter estado num campo de refugiados, em situações limite, é apenas mais um degrau no caminho de vida que tem construído na ajuda ao próximo.

Não acontece a uma miúda qualquer acordar um dia e debandar para um campo de refugiados. Há um percurso que já se fez, há uma cabeça que já estabeleceu prioridades, há um coração que cresceu até ficar maduro.

Só está preparado para uma missão destas quem já lidou de perto com a morte, com cenários de pobreza extrema e com pessoas em registo de sobrevivência. Só sabe fazer isto quem desenvolveu o instinto de agir antes de olhar a juízos de valor. Quem aprendeu a ler o sofrimento alheio e a perceber que ferramentas tem para o poder minimizar.

E quem conhece a Matilde sabe que ela já tinha aprendido tudo isto antes de embarcar para a Grécia. É por isso que a experiência, ainda que brutal, não representa mais do que um dos muitos degraus que tem vindo a escalar.

É por isso que ouvi-la falar é comoventemente inspirador.

 

Matilde.jpg

 


9 comentários

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De IsabelPS a 20.04.2016 às 08:18

Boa reflexão sobre o assistir aos outros a ajudar.
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De Francisca Prieto a 20.04.2016 às 19:00

Obrigada Isabel. Nunca tinha pensado muito sobre isto, mas na verdade, chego à conclusão de que só consegue prestar assistência aos outros num cenário desta dimensão quem já adquiriu algumas competências. De outra forma, sem querer, pode-se correr o risco de estar a atrapalhar.
Um abraço

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De Tiro ao Alvo a 20.04.2016 às 08:49

Apesar do alerta estúpido da Catarina Martins, do BE, que sobre trabalho voluntário tem uma posição amalucada, compreendo que tenha pela sua sobrinha a admiração que aqui demonstra. Se fosse comigo, sentir-me-ia da mesma maneira. A humanidade precisa de muita gente assim.
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De Francisca Prieto a 20.04.2016 às 19:12

Obrigada caro Tiro ao Alvo.
A Catarina Martins não percebe nada da essência do que é o voluntariado.
É evidente que todas as pessoas devem ter direito a trabalho e ao consequente salário, mas isso não tem nada a ver com voluntariado.
O voluntariado é um trabalho não remunerado que escolhemos fazer por gosto, para sentirmos que estamos de alguma forma a tornar o mundo um lugar melhor. Cada um é livre de gastar as suas horas disponíveis naquilo que bem entender. Se escolher fazer qualquer coisa que é útil ao próximo, tanto melhor e tanto mais gratificante para quem o faz.
Na sociedade americana é comum que os membros das comunidades participem de forma natural em acções que melhorem a vida de todos.
Nós estamos um pouco atrás, mas é bom ver como vão nascendo e crescendo organizações bem estruturadas que fazem com que quem tenha tempo para disponibilizar se sinta útil. O refood é um excelente exemplo disso.
Ser voluntário numa causa em que se acredita é extremamente gratificante. Só não o sabe quem nunca teve oportunidade de o fazer.
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De Pedro Correia a 20.04.2016 às 11:55

Parabéns à tua sobrinha, Francisca. Exemplo, sim. Por mais que esta palavra pareça estar fora de moda.
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De Francisca Prieto a 20.04.2016 às 19:15

Obrigada, Pedro.
É bom ver que, no meio da nuvem negra em que vivemos neste país, aparecem miúdos como a Matilde que acreditam que podem mudar o mundo, mesmo que seja só um bocadinho.
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De kika a 20.04.2016 às 12:56

Quando vivemos em Portugal é normal...
Ajudar os outros faz parte do nossa forma de ser.
Tantos a precisar de ajuda... aqui ao virar da esquina.
Kay Scarpetta ( Patricia Cornwell ) também delira
com a sua sobrinha ...ignoro se ela também vai à
TV contar os seus feitos.
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De Francisca Prieto a 20.04.2016 às 19:21

Olá Kika,
Em Portugal, com algumas excepções, ainda não é tão normal assim. Não existe uma cultura de voluntariado para além da vida quotidiana.
A maior parte das pessoas, talvez pelas dificuldades do quotidiano, não está disponível para oferecer algumas horas do seu tempo em prol da comunidade.
Haverá certamente quem se envolva em algumas causas e quem preste auxílio a pessoas próximas, mas não é uma cultura enraizada como existe na sociedade americana, por exemplo.
Adorei a história da Patricia Cornwell, que desconhecia.
Um beijinho
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De kika a 20.04.2016 às 20:24

Olá Francisca Prieto
É perfeitamente normal que goste dos seus.
Já não conheço ninguém no meu País
resta-me a provocação (frustração ? ) e nem
sempre me saio da melhor maneira .
Um abraço.

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