Europeias (25)

O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DOS ELEITORES
Anda por aí um irado clamor contra a «gigantesca abstenção», acompanhado pelas habituais ladainhas que recomendam a punição contra «os portugueses», que são incapazes de cumprirem elementares «deveres cívicos». Acontece que, como há muito venho escrevendo, os índices oficiais de abstenção não correspondem à abstenção real. Alguém acredita que um país com 10,3 milhões de residentes tenha 10,7 milhões de eleitores inscritos, mesmo com mais um milhão automaticamente descarregados nos cadernos eleitorais enquanto residentes fora do território nacional?
Esta desproporção de números - que pelas anteriores regras já fixava em 9.696.481 o número de recenseados nas europeias de 2014 - deriva do facto de não haver efectiva limpeza dos cadernos eleitorais, que vão perpetuando nomes de mortos de escrutínio em escrutínio, agigantando assim o número de portugueses em idade adulta. O que parece invalidar a tese do "inverno demográfico". Parece, mas não invalida. Não pode haver cada vez mais "eleitores" quando a população é cada vez mais escassa.
Estamos perante um caso grosseiro de "abstenção técnica", eufemismo utilizado pelos burocratas de turno e pelo jornalismo preguiçoso para justificar o injustificável. Somos poucos a votar, é certo. Mas não tão poucos como se diz.

