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Europeias (12)

por Pedro Correia, em 21.05.19

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DUAS CADEIRAS VAZIAS

 

Cumprindo as suas obrigações de serviço público, a RTP promoveu no dia 13 de Maio - em sinal aberto, no seu canal generalista - um debate entre os cabeças de lista dos partidos que não têm representação no Parlamento Europeu. Doze, no total.

Foi um bom modelo de debate, que só não permitiu uma verdadeira discussão de ideias devido à notória inépcia de alguns candidatos, impreparados e recorrendo a chavões inconsistentes.

Destaque, pela positiva, para a competente moderação da jornalista Maria Flor Pedroso, directora de informação do canal público.

Destaque, pela negativa, para a ausência de dois cabeças de lista. Um, por aparente amuo, recusou comparecer. Outro preferiu discutir bola, à mesma hora, noutro canal - peculiar noção de prioridade cívica por parte de quem gasta muita saliva a apregoar responsabilidade e ética.

Só ontem pude assistir a este debate. Fica uma breve resenha do que lá se disse - e do que ficou por dizer.

 

André Ventura (Basta). Preferiu palrar sobre futebol, à mesma hora, na CMTV.

 

António Marinho e Pinto (PDR). Não compareceu por discordar do «critério editorial» da RTP. Aparentemente, este eurodeputado que em 2014 foi eleito sob a sigla MPT desejaria ter participado num debate entre os partidos já representados no Parlamento Europeu. Esteve muito bem o canal público, uma vez que o PDR - partido que nem existia há cinco anos - se candidata pela primeira vez a uma eleição europeia. 

 

Fernando Loureiro (PURP). Quer aproximar os salários das pensões. Não explicou como.

Era o mais velho neste debate. E foi o único candidato que esteve sempre de esferográfica na mão.

A frase: «Setenta e cinco por cento das pessoas ligadas à política são altamente corruptas. E não devo estar a exagerar.»

 

Francisco Guerreiro (PAN). Quer assegurar uma licença de maternidade de um ano em todo o espaço europeu. Como? Com verbas do orçamento comunitário, desviando dinheiro hoje atribuído ao investimento na actividade pecuária.

Foi o único candidato a aparecer com uma argola na orelha.

A frase: «Se todos os europeus consumissem como um português, nós teríamos consumidores para dois planetas.»

 

Gonçalo Madaleno (PTP). Quer uma «bolsa de arrendamento», à escala europeia, para assegurar «habitação digna para todos». Não explicou como.

Estudante de Direito, é o candidato mais jovem. E era também o mais nervoso.

A frase: «A sociedade é composta de seres humanos.»

 

João Patrocínio (PNR). Afirmou-se defensor de «uma política de natalidade». Sem entrar em pormenores, eventualmente embaraçosos. 

Foi o candidato que elevou mais a voz.

A frase: «Esta Europa está moribunda.»

 

Luís Júdice (MRPP). Quer Portugal fora da União Europeia a partir de agora para «ganharmos soberania». Não chegou a citar a célebre frase «orgulhosamente sós», mas andou lá perto.

Foi o único a aparecer todo vestido de preto.

A frase: «Trabalharemos afincadamente para a dissolução da União Europeia e para a dissolução do euro como moeda única»

 

Paulo Morais (Nós, Cidadãos). Quer uma entidade externa - supostamente paga por dinheiros públicos - a «fiscalizar os eurodeputados», em nome da transparência. Mas quem fiscalizaria por sua vez a referida entidade?

Foi um dos dois candidatos a usar gravata (o outro foi Paulo Sande).

A frase: «Os cidadãos europeus, e os portugueses em particular, têm todo o direito de saber para onde vai o dinheiro dos seus impostos.»

 

Paulo Sande (Aliança). Quer «aproximar a Europa dos portugueses». Como? A Assembleia da República deve «ter muito mais a dizer sobre políticas europeias». Na «coesão», por exemplo. Provavelmente, nem todos os telespectadores terão entendido.

Foi um dos dois candidatos a usar gravata (o outro foi Paulo Morais).

A frase: «Os extremos à esquerda e os extremos à direita tocam-se em quase tudo. A moderação é hoje quase um novo radical.»

 

Ricardo Arroja (IL). Quer «menos burocracia, menos impostos, mais liberdade.» Como? Aumentando a concorrência. «Há que questionar se as leis da concorrência têm vindo a ser aplicadas em Portugal.»

Foi o que falou em tom mais cordato.

A frase: «Temos de reconhecer, no espaço da UE, todas as categorias profissionais.»

 

Rui Tavares (Livre). Quer «uma esquerda verde e europeísta» que possa implantar uma «rapidíssima transição energética» na «maior democracia transnacional do mundo». Não ficou bem claro como pretende criar «milhões de empregos» na «economia verde», cor que parece ter substituído o vermelho no imaginário de certa esquerda contemporânea.

Foi o candidato que usou mais palavras por minuto.

A frase: «O novo Pacto Verde é um Plano Marshall da nossa geração.»

 

Vasco Santos (MAS). Quer criar um «salário mínimo europeu» de 900 euros, tendo como referência o que existe em Espanha. Sem esclarecer como.

É o candidato mais magrinho. Ou elegante, para usar um eufemismo em voga.

A frase: «Se continuarmos desta maneira, a espécie humana não tem futuro possível.»


18 comentários

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De Robinson Kanes a 21.05.2019 às 11:08

Portanto, uma mão cheia de nada... Depois admiram-se da abstenção...
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De Pedro Correia a 21.05.2019 às 12:29

A oferta é mais vasta, mas a qualidade não parece ser muito substancial.
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De Anonimus a 21.05.2019 às 11:29

Green is the new black

Essa coisa da revolução energética rápida.. explicaram com que tecnologia, ou depende tudo de "políticas"?
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De Pedro Correia a 21.05.2019 às 12:30

Ainda não explicaram. Por enquanto não passaram do prólogo.
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De Anónimo a 21.05.2019 às 11:43

Só isto foi o que eles avistaram?
Acima acima gageiro ! Acima ao tope real !
Só avistas terras de Espanha e areias em Portugal.
Esperemos pelo estouro.
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De Pedro Correia a 21.05.2019 às 12:31

Faltam cinco dias. Não para o estouro, mas para as eleições.
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De Luís Lavoura a 21.05.2019 às 11:54

a «maior democracia transnacional do mundo» é a Índia, não a União Europeia.
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De Luís Lavoura a 21.05.2019 às 11:57

a competente moderação da jornalista Maria Flor Pedroso, directora de informação do canal público

Maria Flor Pedroso é a melhor jornalista de política em Portugal. Conhece os pontos fracos de todos os políticos e explora-os, mas sem nunca exagerar, ou seja, explora-os como jornalista e não como adversária política.
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De Pedro Correia a 21.05.2019 às 12:32

Competência. É a palavra-chave.
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De Anónimo a 21.05.2019 às 12:19

Mais uma excelente análise. Parabéns.
Precisa, mordaz, cutilante: "... na «economia verde», cor que parece ter substituído o vermelho no imaginário de certa esquerda contemporânea...."
Afinal se o ridículo matasse a política acabaria por se apresentar com a necessária dignidade, mas irremediavelmente monótona.
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De Pedro Correia a 21.05.2019 às 12:32

Ainda não vi o debate de ontem. Mas hei-de trazer notícia aqui.
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De Luís Lavoura a 21.05.2019 às 15:07

A frase: «Setenta e cinco por cento das pessoas ligadas à política são altamente corruptas. E não devo estar a exagerar.»

Note-se que elas não são somente corruptas, são mesmo altamente corruptas.

Esta mania que aflige os portugueses, de apodar de "corrupto" todos os políticos, é totalmente doentia. Quase nenhuma corrupção é denunciada, menos ainda é alguma vez provada, mas são ainda e sempre corruptos!
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De Pedro Correia a 21.05.2019 às 15:16

Novamente de acordo consigo. Pela segunda vez hoje.
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De Luís Lavoura a 21.05.2019 às 15:10

assegurar uma licença de maternidade de um ano em todo o espaço europeu [... c]om verbas do orçamento comunitário, desviando dinheiro hoje atribuído ao investimento na actividade pecuária

Portanto: desvia-se dinheiro da criação de gado de 4 patas para a criação de "gado" com menos patas. Menos investimento na pecuária de animais irracionais, mais investimento na pecuária de animais racionais.
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De Pedro Correia a 21.05.2019 às 23:20

Gado? Pecuária? Sente-se bem? Não anda a precisar de férias?
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De Luís Lavoura a 21.05.2019 às 15:14

A Assembleia da República deve «ter muito mais a dizer sobre políticas europeias».

Parece-me uma posição bastante lamentável para um europeista como Paulo Sande supostamente é.
Pelos vistos ele quer uma União Europeia sob a trela e a tutela de cada um dos seus 27 Estados-membros. Ou seja, na prática, uma União Europeia paralisada.
Isto não é uma posição de um europeista, de um defensor de uma verdadeira União Europeia.
Paulo Sande deu, em minha opinião, uma monumental escorregadela com esta posição.
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De Pedro Correia a 21.05.2019 às 23:21

Discordo. Não de Paulo Sande, mas de si.

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