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Europa: o outro sítio

por João André, em 27.05.19

Nasci em 1975, num país mal saído da ditadura. Não passei pelo Verão Quente, senão no conforto do útero. Cresci num país a melhorar aos poucos, com momentos piores que outros mas que a minha idade não me permitia lembrar. A maior parte das minhas memórias vêm de 1985-86, pelo que qualquer memória que tenho associa Portugal à União Europeia (na altura a CEE). A minha vida activa apanha-me quase exclusivamente com Portugal como parte do EURO, que afortunadamente eliminou o termo ECU. A minha primeira viagem fora do país que não envolvesse comprar caramelos em Ayamonte foram umas férias a limpar escritórios em Londres. A entrada não requereu mais que um bilhete de identidade. O meu primeiro passaporte foi pedido já com uns 22 anos de idade e terá recebido um carimbo. Não visitei todos os países da UE nem do espaço Schengen, mas já visitei uns quantos. Vivo num país que não é o do meu nascimento e trabalho noutro, sendo que sou obrigado a deslocar-me a vários países da UE/Schengen com frequência. A Europa não é para mim um conceito ou um objectivo: é uma realidade diária.

É por isso que tenho dificuldade em conceber tanta gente a votar em partidos que, por ideologia ou populismo, estejam contra a UE. Isto não quer dizer que seja uma posição inválida ou errada por si mesma, apenas que tenho tanta dificuldade em concebê-la como em compreender que há pessoas que se mutilem extensivamente por motivos estéticos. Há bons argumentos contra a UE, contra uma integração mais profunda ou em favor de manter a UE mas reduzir a sua influência na vida dos estados membros. Infelizmente raras vezes vejo esses argumentos apresentados de forma séria. Em geral são-no conjuntamente com falsidades referentes à ingerência que a UE tem na vida dos países individuais (como em todo o debate em torno de Brexit).

Mas o maior falhanço da Europa provém dos seus partidos mais tradicionais, do centro ou não. Confrontados com a estridência dos partidos populistas ou extremistas (e nos extremos faz pouca diferença se de direita ou esquerda), esses partidos têm optado por cooptar parte dos argumentos para os tentar esvaziar. Casos há em que funciona, mas habitualmente é por pouco tempo e faz sempre lembrar a fábula da rã e do escorpião. A verdade é que as cópias são sempre piores que os originais e, quando temos os países tradicionais ou do centro a copiar os argumentos anti-Europa ou anti-imigração, normalmente soam ocos e falsos. Porque o são.

A Europa é para mim uma realidade diária, escrevi eu. É também um objecto da Evolução, tão real quanto a biológica. Nao há uma meta para um projecto Europeu, é um projecto cujas balizas estarão sempre a mover-se e, se as alcançarmos, teremos que procurar novas. A natureza humana é uma de descontentamento e será sempre necessário adaptar a Europa para que continue a ser um ideal em vez de realidade.

Em tempos a série The Twilight Zone teve um episódio chamado A Nice Place to Visit. Nele um ladrão morria depois de um assalto e acabava num lugar onde tudo lhe corria bem. Recebia o dinheiro que quisesse, ia ao casino e vencia sempre, com a bola da roleta a cair nas suas escolhas e as suas mãos nas cartas a serem sempre perfeitas. Ao fim de algum tempo comçava a odiar o lugar e pedia para ir para "o outro sítio". Claro que o twist é óbvio: ele já estava no outro sítio. Se a Europa não evoluir, se apenas for o melhor sítio do mundo para viver, não tardará muito a que seja também "o outro sítio". Nesse aspecto, introduzir imperfeições é boa ideia. Talvez possamos almejar, em vez de definhar.


9 comentários

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De Vorph Valknut a 27.05.2019 às 10:05

João, não há infraestrutura por onde passe que não aportecna sua fachada: Projecto Financiado pela UE.

Se há culpa e há, ela não está em Bruxelas, mas cá. Veja bem. Mesmo depois disto:

https://www.google.com/amp/s/www.publico.pt/2019/04/05/politica/noticia/ministerio-publico-investiga-ong-autarcas-ps-1868079/amp

https://www.google.com/amp/s/observador.pt/2019/05/20/deputada-do-ps-consegue-276-mil-euros-de-fundos-europeus-para-empresa-do-pai/amp/

https://www.google.com/amp/s/www.jornaldenegocios.pt/economia/politica/amp/presidente-da-camara-de-castelo-branco-contrata-empresa-detida-pelo-pai-por-duas-vezes

Ganharam:


https://www.google.com/amp/s/www.dn.pt/lusa/interior/amp/europeiasresultados-ps-foi-o-partido-mais-votado-no-distrito-de-castelo-branco-com-3905-dos-votos-10944240.html


Mas do que estavamos/estamos à espera. O nosso país tem sido sempre isto. Um pântano mefítico. Ninguém lê, ninguém se interessa por coisa alguma de relevante, a não ser por ter um carro melhor do que o do vizinho....ainda bem que tenho sangue nórdico nas minhas veias. Seria humilhante demais, além de ser, parecer-me com um português.
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De João André a 07.06.2019 às 10:50

Caro Pedro, se pensa que estas coisas são só de portugueses, desengane-se. Aquilo em que os portugueses costumam ser piores é no descaramento e na incompetência a abusar destes sistemas.

Não comento o sangue nórdico. Soa demasiado a racismo para o meu gosto (mesmo que V. não tenha minimamente essa intenção)
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De Luís Lavoura a 27.05.2019 às 10:19

Bom post. Gostei sobretudo de

o maior falhanço da Europa provém dos seus partidos mais tradicionais, do centro ou não. Confrontados com a estridência dos partidos populistas ou extremistas, esses partidos têm optado por cooptar parte dos argumentos para os tentar esvaziar.

Não entendo porque é que os partidos pró-europeus não afirmam resolutamente, com exemplos, as vantagens da Europa, em vez de passarem o tempo a imitar os argumentos dos anti-europeus, por exemplo no campo da imigração.
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De João André a 07.06.2019 às 10:51

Preguiça, incompetência, demasiado tempo perdido em lutas internas... Provavelmente estas e outras razões. Infelizmente.
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De Isabel a 27.05.2019 às 11:34

Trabalhei e estudei em quatro países da Europa antes de Portugal pertencer à então CEE e fiz alguns meses de estágios em outros dois países. Usava o passaporte para entrar nesses países a partir de Portugal mas nunca, ou quase nunca, o passaporte era pedido quando se viajava dentro da CEE embora não existisse o espaço Shengen. Nunca deixei de me sentir europeia por causa do passaporte.
Nas eleições de ontem a afluência às urnas foi excepcionalmente elevada em todos os países da Europa menos em Portugal. Não ouvi ninguém falar dessa especificidade. Mas ouvi não sei quem, porém certamente pessoa muito habilidosa ( o novo qualificativo usado por estas bandas para referir a desonestidade intelectual e o cinismo na política ), dizer que se provou mais uma vez que o sistema político português funciona muito bem!!!
No dia em que só forem votar os militantes dos partidos do regime vamos ter foguetes por todo o país.
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De Vorph Valknut a 27.05.2019 às 13:05

A abstenção, nulos e brancos chegaram quase a 80%. É ridículo….vá lá, estúpido, de uma desonestidade abjeta, os partidos "vencedores" virem a terreiro agradecer a confiança, depositada, pelos portugueses.
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De Isabel a 27.05.2019 às 14:48

Mais que ridículo, é que ninguém refira o problema. Sem duvida, o mais relevante que resulta da leitura dos resultados.
As percentagens de cada um são faits divers da política. Uma abstenção+brancos+nulos de 80% é sinal de um regime doente...ou de uma espécie nova de ditadura.
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De Vento a 27.05.2019 às 13:57

João, meu caro padrinho, por onde tem andado? Há qu´anos que não o leio. Espero que a investigação esteja a dar frutos.

João, regressou o conceito da Europa de Nações. É este estribilho que marcará o compasso no futuro. Não há motivo para angústias.
Orbán, apesar de suspenso pelo PPE, representa a vitória das nações sobre o establishement. Ninguém passará sem esta força no PE.

A Europa é importante para Portugal, pois não fossem os eleitores europeus a dar o pontapé de saída e continuaríamos reféns do PS e do BE. O BE é um partido que diz que da Europa não quer nada, mas qualquer coisa lhe serve. E o PS nada mais representa que a fraude política que foi o Syriza, derrotado pela Nova Democracia, na Grécia.

Varoufakis tinha razão. E a história está a confirmar esta razão.
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De Pedro Correia a 27.05.2019 às 15:21

Entrada directa na próxima antologia DELITO DE OPINIÃO, João.
Merece.

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