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eu sei que vou te amar

por Patrícia Reis, em 12.06.18

Não é uma música do Chico Buarque, tão pouco este a cantou nos concertos de há dias em Lisboa e no Porto, mas foi assim, a cantarolar a canção de Tom Jobim, que saí do Coliseu dos Recreios depois de duas horas da melhor música do mundo. Passaram-se dias, e não me sai da cabeça.

Em vez de nos esmagar com canções que sabemos cantar menos bem, aquelas que compõem o novo disco ou o seu percurso mais longínquo, o artista optou por um alinhamento musical tecido com inteligência e cuidado. E houve tempo para as novidades, para os clássicos, para os ultra clássicos e para a homenagem ao grande Wilson das Neves, a quem o concerto é dedicado.

Houve alegria e comoção de Chico Buarque que foi também a nossa alegria e comoção.

É preciso amar um artista que nos dá o seu melhor e, nesse aspecto, Chico chegou inteiro para se entregar.

E o público português aplaudiu, assobiou, elogiou, atirou cravos para o palco e bateu com os pés nos estrados de madeira, provocando aquele som único que só o Coliseu permite. Sim, o público português quando é generoso é muitíssimo generoso.

Amamos o Chico. Por parecer pouco vedeta, por ser o homem que compõe canções que enriquecem a nossa banda sonora de vida, por escrever aqueles versos que, de repente, são nossos, contam a nossa história, ou nos fazem pensar que talvez seja possível cair “na contramão atrapalhando o tráfego".

Não é possível viver sem música. E a música brasileira tem - sempre teve - um lugar especial para nós. Não é só país irmão, a aproximação da língua (até porque a riqueza do português do Brasil é, tantas vezes, surpreendente), é por termos assim o condão de garantir um gingado que, naturalmente, não possuímos e que a música popular brasileira nos oferece sem regras. Mexemos o corpo (sim, não chegamos a sambar, mas mexemos o corpo), cantamos a plenos pulmões mesmo que seja ingrato acompanhar alguém como o Chico.

Para mim, a música brasileira é a minha mãe, ela que ouvia o disco em vinil do concerto ao vivo do Chico com o Caetano, de 1972, como quem respira, sempre em loop; ela que sabe as letras todas; ela que não desafina; ela que pede emprestado às letras pequenas graças que aplica no dia a dia. Há uns anos, num outro concerto, a minha mãe desatou a chorar. A minha mãe chora pouco, portanto a minha aflição foi imensa. Não chorava de tristeza, chorava de alegria pela música, por estar ali, por aplaudir vários músicos absolutamente excelentes.

No concerto do Chico Buarque, no fim de semana passado, chorámos as duas um bocadinho. Creio que a maioria das pessoas no Coliseu chorou um bocadinho e, nessa união, quase que pedimos para que o Chico não "deixe em paz meu coração", porque é todo dele.

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5 comentários

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De Sarin a 12.06.2018 às 15:53

E uma ternura renovada na leitura deste texto...
... com uma lágrima de saudade por um concerto a que não assisti.
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De Maria Dulce Fernandes a 12.06.2018 às 17:33

É facil amar Chico Buarque.
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De Maria Antonieta a 12.06.2018 às 19:35

Que lindo tudo o que escreveu!
O meu coração não é todo do Chico, mas ele ocupa um largo espaço no meu coração, sim.
Obrigada por este texto, que (quase) me levou ao Coliseu onde gostaria tanto de ter estado.

Posso deixar um beijinho para si e outro para a senhora sua mãe?

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De Bea a 12.06.2018 às 22:11

Concordo inteiramente.
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De Anónimo a 13.06.2018 às 19:06

Toquei as letras das canções do "Chico" ao ler as suas, inspiração em estado puro.

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