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Eu puritano etário me confesso

por João Pedro Pimenta, em 27.09.18

Passei finalmente pela tão afamada como polémica exposição de Robert Mapplethorpe, em Serralves - embora estivesse até mais interessado em acabar de ver a de Anish Kapoor, espalhada por todo o parque. Sempre achei que este polémicas só mereciam que se opinasse sobre elas depois de se comprovar o seu grau de relevância, dado que muitas vezes são meros tiros de pólvora seca. Mas aqui eram verdadeiros tiros de bombarda.

 

Mapplethorpe era no mínimo ousado. Escandaloso era também um adjectivo que lhe colavam. Com razão. E o choque sempre esteve ligado às artes, pelo que a polémica à volta da obra do artista americano de novidade não tem nada. Resta saber se o choque pode ser levado a toda a gente, sem distinções. A tal parte reservada e com restrições a menores de 18 anos (que creio que no início lhes estava pura e simplesmente vedada) é bastante mais ousada do que pensava. Pode-se afirmar, sem medo de exageros, que é realmente hardcore. Não são exactamente apenas nus artísticos, mas imagens mais que explícitas e muito agressivas. Demasiado agressivas sobretudo se estivermos a falar de crianças. Restringir aquela parte por razões de idade nem devia ser discutível. Afinal de contas, se temos limites de idade no cinema, por exemplo - e nesse caso nem sequer é suprível pelo acompanhamento de um adulto - onde se passam coisas bem mais pacíficas, porque é que não há de haver restrições pela mesma razão noutras áreas, como exposições? Sim, eu sei, hoje em dia a net e os seus conteúdos vieram complicar esta questão. E que 18 anos talvez seja um pouco demais. Mas nem por isso devemos adoptar aquele tom relativista de que é uma causa ultrapassada e de que agora qualquer pessoa deve estar exposta a todo o tipo de imagens. 

 

Chamem-me puritano, moralista, censor, etc. Um dos limites à livre expressão é o incitamento ao ódio. Mas era bom que nos lembrássemos de outro: o limite etário. Esta coisa de expôr uma criança a um ambiente que não é para a sua idade, e de aos poucos estarmos a sexualizar completamente a infância, é prova não só de um niilismo muito pouco saudável como de um egoísmo quase inconsciente, como se os filhos fossem carteiras de tiracolo que pudessem acompanhar os adultos em todas as ocasiões. Quanto à questão de "cada um educa os filhos como quiser" e de instituições como Serralves serem um espaço de liberdade e de debate, nada em contrário; mas remeto para situações análogas, como a supracitada dos cinemas, que até são privados; Serralves também é uma fundação em boa parte patrocinada pelo Estado, e tem uma administração que tem o dever e o direito de tomar decisões deste calibre, mesmo que desagradem aos trinta manifestantes que vieram indignar-se há dias à entrada do museu, quando os contornos da coisa ainda bem nebulosos. Parece que é "interferência nas escolhas do curador" e que nada da lei fala explicitamente em exposições. Pois não, mas as lacunas legais colmatam-se com recurso à analogia de situações idênticas; e que eu saiba a liberdade do curador também se submete a regras gerais. Sim, eu sei, condenámos o moralismo e o puritanismo, permitimos a liberdade de expressão e artística quase sem limites e vivemos numa era perigosa em que qualquer ofensa se pode tornar numa proibição e numa censura. Mas se achamos que a água suja deve ficar, lembremo-nos também do bébé que lá está. E desculpem lá a ousadia aparentemente contraditória, mas um tudo de nada de puritanismo nestes casos só  faz bem.

Imagem relacionada

 

Quanto ao resto, demissão de Ribas, acusações à direcção (incluindo a micro-manifestação dos indignados culturais), resposta desta, contradições do curador, declarações de funcionários anónimos e tudo o mais, pertencem ao grupo da eterna novela das polémicas culturais e das invejas mesquinhas dos "agentes culturais". Talvez daqui a um tempo se possa falar melhor disso. Até lá, Serralves merece bem uma visita. E se por acaso forem ver a obra de Kapoor, cuidado com a "Descida para o Limbo".

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8 comentários

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De Pedro a 27.09.2018 às 21:28

Se a exposição do Ricardo Malaposta é arte então o Sá Leão é o Terence Malick.
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De V. a 11.10.2018 às 23:40

O Malick é detestável, é um stalker psicológico e a câmara está sempre num ângulo meio cobarde.

Nesta linha da câmara dinâmica e do voyeur mais vale o Lars Von Trier que é uma besta descomunal mas tem o talento plástico e o universo cultural à altura da sua brutalidade. Comparado com o Trier enciclopédico, o Malick é um livro em acordês que está na banca do hipermercado, ao lado das esferográficas, das bolas de Berlim nas caixas de plástico (bem boas, por sinal) e dos ovos da Páscoa mais o vinho manhoso do Alentejo que está promoção e o desconto que é em cartão.
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De Pedro Correia a 27.09.2018 às 23:37

Porno radical-chic.
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De Luís Lavoura a 28.09.2018 às 10:00

O problema da exposição não é propriamente a sala interdita a menores. Isso é muito secundário. O real problema da exposição é a censura que lhe foi feita, com a eliminação de 20 das fotografias que dela fazem parte. Ou seja, temos uma retrospetiva da obra do artista que inclui 179 fotografias, mas Serralves só exibe 159 delas e suprime as 20 restantes.
Quem ordenou a censura permanece obscuro.
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De Luís Lavoura a 28.09.2018 às 10:01

Perguntas ao autor do post:
1) Quanto custou o bilhete para a exposição?
2) Havia bichas para comprar o bilhete e aceder à exposição, ou entrava-se rapidamente?
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De João Pedro Pimenta a 28.09.2018 às 14:58

Tanta curiosidade. Vá lá, o bilhete geral são cinco euros, mas tenho um cartão que me isenta do custo; quanto a bichas a comprar bilhete (e esse termo é um pouco ambíguo tendo em conta a natureza do assunto), não havia uma multidão, mas era uma tarde de um dia de semana.
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De Anónimo a 28.09.2018 às 10:40

Não há uma gralha no título? Não é otário?
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De João Pedro Pimenta a 28.09.2018 às 14:56

Não, anónimo, isso é uma animal polar. Os seus conhecimentos zoológicos devem ser quase tão bons como os de arte.

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