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Eu, intelectual da bola

por jpt, em 07.06.19

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Os jogos desta Liga das Nações de futebol, a nova e secundária competição de selecção seniores que decorre em Portugal e para a qual a equipa (Cristiano Ronaldo, Pepe e mais 9) se apurou para a final, chamou-me mais uma vez (de facto duas vezes, em ambos os jogos) para o anti-clímax que está a ser o vídeo-árbitro. Tecnologia que é preciosa, para reduzir erros e para combater a mariolagem arbitral. Mas cuja utilização trouxe uma vertente "tecnocrática", uma mania de "justiça" que de tão maximalista, pois milimétrica, não é ... justa. Eu gostaria de lhe chamar um justicialismo mas a palavra está usurpada por um outro sentido, histórico (o peronismo), do qual bem que podia ser libertada pois faz falta para coisas de hoje - até porque dizer (condenar) um apotropaicismo, uma crença apotropaicista, não convenceria ninguém, mais que não seja devido à fonética. 

Feito intelectual da bola, julgo que para manter o entusiasmo do jogo e para preservar a boa tecnologia são precisas duas mudanças: uma alteração legislativa e uma diferente jurisprudência. Por isso repito um naco de um postal (Viva o Var, mas ...) que, na sequência de um fervilhante Manchester City-Tottenham escrevi há dois meses no És a Nossa Fé, capitaneado pelo nosso coordenador Pedro Correia, um Bruno Fernandes dos blogs. Repito-o na crença de que, apesar do ditado, esta voz chegue ao céu:

 

Venho devido ao VAR, que foi influente no jogo. O 5-3 nos descontos finais, a suprema reviravolta, é a festa do futebol, o apogeu da ideia de clímax na bola. E depois anulado pelo VAR, o cume do anti-clímax. Ora isso está a acontecer imensas vezes, e é óbvio que vem retirando brilho, paixão, ao jogo. O VAR é fundamental, é óbvio que reduz os erros dos árbitros e que é um grande instrumento contra a protecção aos grandes clubes e contra a corrupção - promovida pelos clubes e por essa relativa novidade das apostas desportivas privadas e avulsas. Mas ao quebrar o predomínio da paixão e da festa arrisca a tornar o jogo mais cinzento e, nisso, a ilegitimar-se. Assim as suas imensas capacidades tecnológicas de observação desumanizam o jogo. Ontem foi exemplo disso. Para que o VAR seja protegido dever-se-á pensar a aplicação das regras, refrear a tendência legalista que ele trouxe, uma verdadeira ditadura milimétrica promovida pela tecnologia. Urge regressar, e reforçar, duas tradições na jurisprudência futebolística, pois humanizadoras, cuja relevância ontem foi demonstrada:

- por um lado a velha questão da intenção de jogar com os braços. Agora, mal a bola bate lhes toca logo se clama ilegalidade. Ontem o golo de Llorente é paradigmático: é difícil comprovar se a bola bateu no braço do jogador mas assim parece. E depois? Salta com o braço encostado ao corpo, não tem intenção de o fazer actuar, até prejudica a sua acção saltadora com isso, e, quanto muito, a bola talvez lhe tenha também resvalado. Ainda bem que o árbitro validou um golo que não tem qualquer ilegalidade, mas muito clamam o contrário. Há que defender esta valorização da intenção, que cada vez mais é posta para trás. Em suma, os braços pertencem ao corpo, se não são agitados com o intuito de impulsionar (ou de cobrir espaço) não há infracção. Era assim dantes, deve continuar a ser e isso está a ser posto em causa com o frenesim do fotograma.

- o segundo ponto é ainda mais relevante: o fora-de-jogo. Há que recuperar o ideal da protecção do avançado em caso de dúvida na aplicação desta lei, de uma (muito) relativa indeterminação. Anda tudo a aplicar ilegalidades ínfimas, se o calcanhar de um está adiante ou não, se o nariz do avançado pencudo está à frente das narinas achatadas do defesa. Veja-se a imagem do tal 5-3, que beneficiaria o City: Aguero está em linha, de costas para a baliza tem apenas o rabo gordo à frente do defesa. Que interessa isso para o fluir do jogo? Urge recuperar essa ideia do "em linha", e permitir que o avançado esteja "ligeirissimamente" à frente do defesa: se confluem, relativamente, numa linha horizontal ... siga o jogo. Claro que depois se discutirá se o calcanhar dele estava ou não em linha com a biqueira do defesa. Mas serão muito menos as discussões. E haverá mais golos. E, acima de tudo, menos anulações diferidas. Donde haverá mais festa, mais alegria exultante. É esse o caminho para a defesa da tecnologia. E da paixão. Julgo eu, doutoral aqui no meu sofá.

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12 comentários

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De Luís Lavoura a 07.06.2019 às 09:26

tem apenas o rabo gordo à frente do defesa

Não é bonito fazer comentários àcerca dos rabos dos outros, muito menos acusá-los (aos rabos) de serem gordos.
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De João André a 07.06.2019 às 10:57

Concordo contigo em relação ao VAR. Parece roubar alguma emoção ao futebol, ou concede-a de forma quase artificial. É um elemento estranho.

Em relação aos braços: a partir do próximo ano vão aclarar (um poucochinho) a situação: bola no braço do atacante que desvie a trajectória da mesma em seu favor é golo anulado. No caso de Llorente, este ano o golo é válido. Na próxima época seria anulado. Podemos discordar, mas vai ser (um poucochinho) mais claro. Na defesa manter-se-à a subjectividade do árbitro.

No fora de jogo e com VAR não há subjectividade: se duas moléculas do cabelo do avançado estiverem em fora de jogo é fora de jogo. Mais uma vez parece estranho, mas assim não há dúvida.
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De jpt a 08.06.2019 às 05:47

Em relação aos braços é ridículo - basta ver a final da Liga dos Campeões: o defesa foi estúpido, e estava de asa levantada. Mas o avançado fez "tiro ao braço", e é isso que vai acontecer cada vez mais.
Quanto ao fora-de-jogo é simples e obtuso: a lei é para garantir a inteligência do jogo e evitar vantagens desleais (o célebre "estar à mama"). Fragmentos ínfimos de corpo à frente não são essa vantagem e durante décadas "estar em linha" - com o que de relativo tinha - significou "estar em jogo". Assim deveria continuar a ser.
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De João André a 08.06.2019 às 11:27

A discussão "bola na mão ou mão na bola" sempre foi difícil de definir e abriu sempre espaço a interpretações subjectivas. Isso levou desde há muito que quando é decidido em nosso favor está certo e contra nós está errado. As linhas orientadoras foram sendo adaptadas para facilitar o processo de decisão dos árbitros e a verdade é que há muito que não ouço discussões sobre "intenção".

Em geral: se o braço estiver encostado ao corpo não há infracção. Se o braço estiver em movimento a afastar-se da bola então também não. Se o braço se estiver a mover na direcção da bola, a indicação é para marcar a falta, mesmo quando possa não haver intenção de jogar a bola com o braço. No caso de Sissoko, estava provavelmente a querer apontar a direcção em que queria que o defesa se movesse para cobrir a subida de Robertson (o lateral do Liverpool) mas ao fazê-lo moveu o braço para o caminho que a bola seguiu. Talvez injusto, mas sem controvérsia em face das orientações que os árbitros têm.

Há erros? Claro que sim, enquanto os árbitros não forem perfeitos elees existirão sempre. Injusto, sem dúvida, pelo menos para alguns, dado que há sempre quem discorde das orientações. Mas é mais ou menos simples de compreender.

No caso dos atacantes, as dúvidas irão ser retiradas por uma política de tolerância zero. Se a bola for desviada pelo braço do jogador atacante e der em golo, este é anulado. No caso do defesa não é assim, porque a consequência (um penalty) é mais grave do que no caso atacante.
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De João André a 08.06.2019 às 11:37

Já o caso do fora de jogo é mais complicado. Quando surgiu, a regra não dizia que existia se houvesse adiantamento em relação ao penúltimo defesa: era em relação ao antepenúltimo. Como isso fazia com que na prática bastasse um avançado para segurar dois defesas e os impedir de participar no ataque, a regra foi mudada para o conceito actual (havia golos a menos).

Recentemente liberalizou-se a regra com o conceito do fora de jogo posicional. Isto foi para eliminar uma injustiça que era o jogador que, não estando envolvido na jogada e nem tentasse estar acabasse por eliminar um ataque (por exemplo um ala que estivesse junto à linha lesionado, num caso mais extremo). Claro que os treinadores mais sofisticados aproveitaram de imediato para explorar a nova regra: Guardiola foi dos que melhor o fez, com a ideia de deixar um avançado centro em fora de jogo enquanto distribuía a bola para a ala para um jogador vindo de trás (normalmente Dani Alves) que depois colocava a bola no avançado que inicialmente estava em fora de jogo (e era esquecido pelos defesas).

Com o uso de tecnologia, fica depois a questão de como definir como é o fora de jogo. Será que um cabelo adiantado dá fora de jogo? Pobres daqueles que têm cabelo comprido. E se for só um pé? E se o pé estiver em movimento atacante (a mover-se em direcção à baliza) ou defensivo (a mover-se na direcção oposta à baliza)? E se for só a cabeça? Ou a mão? Mais uma vez, a interpretação dependerá na maior parte dos casos de uma percepção pessoal de termos sido beneficiados ou prejudicados por uma decisão recente.
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De João André a 08.06.2019 às 11:42

Último aspecto: estar em linha continua a não ser fora de jogo. O problema é como definir a linha numa era de VAR. Se eles podem definir a linha exactamente (e aqui o problema é que em casa e no estádio não vemos a linha virtual a que o VAR tem acesso e elimina os erros de paralaxe), então têm que definir o conceito em si. Neste momento significa que nenhum ponto do corpo pode estar para lá da linha do ponto mais recuado do último defesa.

Nota que também podes virar o problema ao contrário: se um defesa estiver a avançar para colocar os adversários fora de jogo mas o calcanhar ainda estiver um milímetro recuado, então não haverá fora de jogo, mesmo que o corpo esteja já para lá dos avançados.

A questão em era de VAR fica então: como colocas a definição exacta de "linha" ou "mão" (no outro caso) para orientares os árbitros? Eu quase posso garantir que a tua definição não será pior que a actual. Nem a de qualquer outra pessoa que crie outra definição. Não creio que haja uma definição que alguma vez vá satisfazer toda a gente ou sequer a maioria.
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De Anónimo a 07.06.2019 às 13:11

O VAR só existe porque o erro é humano, e há humanos que erram deliberdamente. Enquanto a coisa se resume a umas taças e tal, foi-se levando, mas quando um golo mal validado custa uns quantos milhões (ao não permitir XXX de chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões, por exemplo), aí é altura do ser humano ser controlado.
Como em tudo aliás, as facturas electrónicas, as auditorias de sistemas.
Quanto ao fora de jogo, é uma regra que nem sentido faz. Deixem o pessoal jogar encostado à baliza. À mama (ainda se pode dizer?).
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De Luís Lavoura a 07.06.2019 às 15:57

Quanto ao fora de jogo, é uma regra que nem sentido faz. Deixem o pessoal jogar encostado à baliza.

Faça-se isso, e o futebol deixa de ser futebol, passa a ser um desporto completamente diferente, com uma estratégia, uma tática e uma técnica completamente diferentes das atuais.
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De João André a 08.06.2019 às 11:44

Se o fizerem deixará de haver golos. Quando a regra original passou de 3 defesas entre o atacante e a baliza para 2 defesas, foi precisamente para evitar que um único atacante segurasse dois defesas (além do guarda redes). Se ele ficasse lá à frente, na prática conseguia que dois jogadores andassem cá atrás e garantia superioridade numérica da defesa. Assim, com a regra actual, em teoria pode haver marcação homem a homem por todo o campo.

Se houvesse a possibilidade de jogar "à mama", o resultado seria rugby. Gosto de rugby, mas não é futebol.
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De Luís Lavoura a 07.06.2019 às 16:03

Há que ver que o futebol de alto nível atualmente não é um desporto, nem é (principalmente) um espetáculo, é sobretudo um negócio.
E, se num espetáculo a emoção e o erro são toleráveis, num negócio (que até os adeptos têm interiorizado como tal) não o são.
Por isso, tem que se deitar fora o erro, mesmo que com ele também se deite fora parte da emoção.
As pessoas ainda se emocionam e dececionam com o futebol. Mas, cada vez menos toleram os erros de arbitragem, porque esses erros custam caríssimo ao negócio das equipas.
Por isso o VAR é necessário. E, sim, os foras-de-jogo têm que ser tirados ao milímetro. Tal e qual como nas corridas de velocidade os tempos são cronometrados ao centésimo de segundo.
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De João André a 08.06.2019 às 11:47

O erro é importante ao negócio porque ajuda a vender. Basta ver o dinheiro que se ganha com os programas em Portugal que discutem as arbitragens. O mesmo com os jornais. Em Espanha, a Marca e o As (em Madrid) e o Mundo Deportivo e o Sport (em Barcelona) fazem os jornais portugueses parecer exemplos de isenção desportiva. E são os jornais mais vendidos.

A emoção vende. Um jogo milimétrico também venderia, mas disso já há: chama-se futebol americano (ou basebol) e não tem pegado assim tanto na Europa (embora esteja em expansão).
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De Anónimo a 08.06.2019 às 13:11

Ajuda a vender em países terceiros mundistas.
As ligas americanas sao 101% negócio, e querem ao máximo eliminar o erro e a polémica.

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