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Ética pública 2.0

por João André, em 26.01.15

Este post do Rui lembrou-me uma outra questão que surgiu há uns tempos em Inglaterra. Um jogador de futebol fora condenado a prisão por violação e, após ser libertado condicionalmente, o antigo clube considerou recontratá-lo. Ora, Jessica Ennis, cujo nome adorna uma das bancadas do estádio, avisou que exigiria que o seu nome fosse retirado caso Ched Evans (assim se chama o futebolista) voltasse ao clube. O resultado é que recebeu uma avalanche de insultos e ameaças no twitter. Quando os trolls foram por seu turno condenados - e é aqui que queria chegar - defenderam-se com a "liberdade de expressão".

 

O caso que o Rui invoca é semelhante. Na idade das redes sociais, o insulto e a ameaça - mesmo que vazia - pode ser feito de forma anónima (ou quase), directa e pública. As leis dos vários países contemplam a possibilidade de condenação por injúria, mas a fronteira entre esta e a liberdade de expressão é relativamente ténue (e daí os muitos casos de processos contra jornais). Se quando os media estão envolvidos no assunto há sempre especialistas em liberdade de expressão presentes (juristas, os próprios jornalistas, editores, etc), já no caso das redes sociais isto não é o caso.

 

Infelizmente, apesar de termos presente o conceito básico que desconhecimento de uma lei não pode ser apresentado como defesa, a verdade é que não há uma educação real dos jovens em relação ao que significa liberdade de expressão, liberdade de imprensa, direito à privacidade, direito à honra, etc. A maior parte dos jovens entendem a liberdade de expressão como a liberdade de dizer aquilo que bem lhes apetecer e nem sequer entendem a diferença entre as liberdades de expressão e de imprensa (nem a forma como a imprensa tem certos direitos e deveres naquilo que reporta).

 

Neste mundo digitalizado, 2.0 se quisermos, falta a educação que não o torne num wild west. Não falo necessariamente de regulamentos, esses já existem ao nível civil, mas talvez de uma discussão que permita a sua adequação ao mundo em que vivemos hoje. Não precisamos de alguém que ande a correr a net em busca de trolls, mas se eu quiser atacar alguém, necessito de saber (eu e o meu alvo) quais os limites para o meu ataque. E o meu alvo necessita também de saber quais os mecanismos de defesa à sua disposição.

 

É normal que as revoluções tecnológicas apanhem a sociedade desprevenida. Sempre assim foi e sempre assim será. O necessário é fazer avançar o debate para que esta possa alcançar a tecnologia.

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1 comentário

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De Mordaça a 26.01.2015 às 16:32

Tem que distinguir entre o que um fala e o outro entende.
Há quem queira entender tudo de nada, e isso é a libertinagem legislativa contra a expressão. Há quem prefira entender nada de tudo, e esta é por exemplo a perspectiva seguida com sucesso pela Igreja Católica, que é muito atacada.
Os cães ladram e a caravana passa.
O bullying poderá ser razão de medidas. Nesse caso o Charlie Hebdo teria feito muito mais bullying do que esses jovens com frases soltas.
Processar alguém por disparates ocasionais é um atentado à civilização livre.
Contra disparates ou ignora-se ou responde-se com disparates.
Há falta de educação, pois há.
Tomar disparates a sério é que é um perfeito disparate.

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