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Estrelas de cinema (31)

por Pedro Correia, em 20.06.19

Margarida-Vila-Nova-Hotel-Império-Filme-Macau.jpg

 

NÁUFRAGOS DO DESTINO

****

Numa das mais emblemáticas cenas deste filme surge um velho gato, trôpego e coxo, em precário equilíbrio nos telhados de zinco da parte mais pobre de Macau – aquela que nunca surge nos bilhetes-postais, oculta pelas faiscantes luzes de néon. É uma perfeita metáfora visual: aquele gato representa de algum modo o velho português que ali desembarcou num dia remoto e nunca mais de lá saiu, atraído pelo aparente milagre da multiplicação de cifrões, que lhe permitiu ser proprietário de um hotel. Os tempos eram outros, as designações também: um estabelecimento chamado Império não tem lugar nos nossos dias. O velho português, viciado em jogo, foi-se arruinando: restam-lhe memórias ao som de melodias nas vozes de Amália e Milu. A guitarra que tanto gostava de dedilhar jaz sem préstimo a um canto do quarto desde que uns agiotas lhe partiram os dedos. Tornou-se proprietário de uma ruína – aliás, metade de uma ruína, pois a co-proprietária é a sua antiga mulher chinesa, que um dia o abandonou, levando o filho de ambos. Nunca mais a viu.

 

Hotel Império é um filme actual de Macau. Mas podia ser um filme antigo, rodado nesta cidade onde os portugueses ancoraram durante séculos como se estivessem sempre de passagem e que podemos entrever em fragmentos de velhas películas de Hollywood, como Macau, de Josef Von Sternberg, ou A Colina da Saudade, de Henry King. Ivo Ferreira, cineasta de 43 anos residente há mais de uma década no Oriente, parece sentir uma irreprimível nostalgia de uma época que não viveu. Uma época de que se conservam vestígios cada vez mais precários, simbolizados na velha modista que fugiu da China e ali encontrou refúgio, do cantor de ópera chinesa que interpreta temas fora de moda para audiências cada vez mais reduzidas, do casino flutuante no Porto Interior que fecha as portas para sempre.

É uma sentida homenagem a uma urbe que foi sendo povoada por inúmeros náufragos do destino. Incluindo Maria, a filha do velho dono do hotel, que tem a mãe sepultada em Portugal. É o único elo que ainda a liga a um país que não recorda: vive aculturada na cidade adoptiva, há-de perder o que lhe resta dos verdes anos imersa nos dédalos daqueles bairros chineses de raízes precárias, habitados por gente que também não é dali. As suas escassas amigas são “massagistas” – eufemismo para designar prostituição num território onde «tudo está à venda», como sublinha Edgar, o português sem escrúpulos que saca dinheiro graúdo com pequenas golpadas.

 

Hotel Império é, no fundo, uma declaração de amor a Macau – aos velhos que passeiam gaiolas com passarinhos nas manhãs repassadas de humidade, à geomante que promete predizer o futuro alheio, aos plácidos praticantes de tai-chi na Fortaleza do Monte, aos jantares de sopa de cobra na Rua da Felicidade, ao ruído das pedras de má-jong ecoando no calor da noite.

Um filme de notável economia verbal, sob a evidente influência estética de um Wong Kar-wai ou um Wim Wenders, e que presta merecida homenagem à fotogenia de Margarida Vila-Nova, irrepreensível no papel de Maria – incluindo nas falas em cantonês, que bastariam para atemorizar outras actrizes ocidentais. Chorando de alegria ou dor, de olhar melancólico ou semblante magoado – ainda jovem mas já tão intemporal. Náufraga do destino ela também.

 

Hotel Império. De Ivo M. Ferreira. Com Margarida Vila-Nova, Rhydian Vaughan, Sun Jiajun, Eliz Lao, Cândido Ferreira, Tiago Aldeia. Produção luso-chinesa (2018). Duração: 82 minutos.

 


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