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Estrelas de cinema (30)

por Pedro Correia, em 24.04.19

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A PAIXÃO QUE VEIO DO FRIO

***

Não devemos exigir aos filmes algo diferente daquilo que nos propõem dar. No caso de Snu, é inútil alimentar-se a expectativa de um quadro detalhado da sociedade portuguesa da década de 70, primeiro asfixiada por uma ditadura que dava já evidentes sinais de esgotamento, depois por um alucinado processo revolucionário que prometia transformar este recanto lusitano numa réplica da Albânia implantada na Europa ocidental.
Aqui o essencial decorre à margem de contextos ideológicos no plano mais estrito, centrando-se no singular romance entre uma editora dinamarquesa residente em Portugal desde 1961 e um primeiro-ministro nascido em berço conservador que, sendo casados com terceiros, desafiam etiquetas e convenções para assumirem a partir de 1976 uma relação apaixonada e vertiginosa de que ninguém suspeitaria à partida. Como se tivessem a premonição de que estavam condenados a morrer demasiado cedo. Isto numa época em que o Código Civil exigia um período mínimo de seis anos de separação efectiva do casal para que esta pudesse ser convertida em divórcio sem acordo mútuo dos cônjuges.


Viajamos ao Portugal de há 40 anos. Já num país pós-revolucionário, mas ainda cheio de preconceitos atávicos, distribuídos em perfeita simetria pela família original de Francisco Sá Carneiro – a mulher, Isabel, recusando conceder-lhe o divórcio, apoiada por D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto que ousara desafiar Salazar e pagara com uma década de exílio por tal ousadia – e pela esquerda político-militar.
Um dirigente partidário católico, de comunhão diária, impõe a sua relação de facto, com uma estrangeira, perante as instituições do Estado – incluindo o então poderoso Conselho da Revolução – e a hierarquia eclesial. Contra o parecer dos seus companheiros do PSD, arriscando a hostilidade dos filhos e comprometendo legítimas aspirações políticas. Em entrevista a um jornal, o major Sousa Castro – “capitão de Abril” – ousou qualificar a relação entre Snu e Sá Carneiro de «ultraje aos sentimentos tradicionais do nosso povo». Enquanto o líder do PS, Mário Soares, questionava: «Como é que um homem incapaz de governar a sua família pretende governar o País?»

 

Snu tem uma irrepreensível reconstituição de época, misturando em doses adequadas a ficção actual com excertos de telejornais daqueles anos. Tudo dirigido com elegância e sensibilidade por Patrícia Sequeira nesta sua segunda longa-metragem (após Jogo de Damas, em 2016). Com intérpretes credíveis a incorporarem figuras tão diversas como Soares, Diogo e Maria José Freitas do Amaral, Manuela Eanes, Gonçalo Ribeiro Telles e Conceição Monteiro, além do próprio Sá Carneiro. Nota elevada para dois desempenhos que é justo realçar: Ana Nave, recriando a personalidade histriónica e exuberante de Natália Correia, e a protagonista, Inês Castel-Branco, magnífica no papel de Snu, em tantos aspectos o inverso da poetisa: contida, reservada e enigmática.

«Serão vocês a fazer a maior revolução em Portugal após o 25 de Abril», diz-lhes Natália Correia, no bar Botequim. Tinha razão: depois da relação de Snu e Francisco, desafiando mentes retrógradas em todos os quadrantes, nada voltaria ao mesmo na atmosfera social do País. Não estamos, portanto, apenas perante mais um filme romântico: porque neste sentido, sim, este é também um filme político. Só não vê quem não quer.

 

Snu. Produção portuguesa (2019). De Patrícia Sequeira. Com Inês Castel-Branco, Pedro Almendra, Nádia Santos, Joana Lopes, Ana Nave, João Reis.

Duração: 93 minutos.

 


38 comentários

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De Bea a 24.04.2019 às 11:29

Toda a gente que conheço quer ver este filme.
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 13:34

O melhor é verem mesmo.
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De Anónimo a 24.04.2019 às 12:22

Discordo de Natália - essa revolução foi feita por A. Costa, com a Geringonça.
João de Brito
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 13:34

Natália morreu em 1993.

É um bocado tardio que você discorde dela em 2019.

Tardio e absurdo.
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De jo a 24.04.2019 às 13:09

Do que me lembro, numa altura bastante confusa politicamente, tirando os próprios, os seus conhecidos e os puritanos de serviço (que sem redes sociais tinham muito pouco impacto) ninguém ligava nenhuma ao romance de Sá Carneiro.
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 13:33

Acho execrável esse seu achincalhamento póstumo de Mário Soares.
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De jo a 24.04.2019 às 16:23

Acho admirável o seu colocar no pedestal Mário Soares. Mas ele, apesar de anafado não era o país todo. E a impressão que eu tenho (posso estar errado) é que a maioria do país não dava importância nenhuma a quem dormia com quem nos corredores do poder.

"a mulher, Isabel, recusando conceder-lhe o divórcio, apoiada por D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto que ousara desafiar Salazar"
É normal que um bispo se oponha a um divórcio. O divórcio não era, nem é, permitido pela Igreja.
Parece-me mais estranho que alguém se diga católico e ao mesmo tempo não queira cumprir as regras da Igreja. Não tinha ideia que um religioso podia rejeitar as indicações da Igreja, conforme as conveniências próprias, e se mantinha religioso.
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 18:07

Frase sua: «Ninguém ligava nenhuma ao romance de Sá Carneiro.»

Mário Soares, que fez referências públicas ao tema durante a campanha eleitoral de 1980, em críticas duríssimas a Sá Carneiro, é "ninguém".

Que um dos membros mais influentes do então todo-poderoso Conselho da Revolução tenha abordado o mesmo assunto numa entrevista que deu imenso que falar, na mesma altura - aí está outro "ninguém".


E as manchetes sucessivas que a imprensa da época fez ao tema? Rigorosamente "nada".

Enfim, quando os factos não se encaixam na teoria, distorcem-se os factos. Ou ignoram-se.
Foi o que você fez.
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De jo a 24.04.2019 às 22:35

Peço desculpa se distorço os factos, mas fala-me de campanha política, eu falo no efeito que essa campanha teve. São coisas diferentes.

Sá Carneiro morreu durante a campanha presidencial em que concorreu Soares Carneiro contra a recandidatura de Eanes. Que eu me lembre as pessoas estavam mais preocupadas com o candidato que Sá Carneiro arranjou do que com a mulher dele.
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 22:46

Uma coisa não invalida a outra. São questões diferentes, cada qual no seu plano e com a sua relevância. O "caso Snu Abecasis" foi particularmente relevante antes das presidenciais, na campanha que conduziu às legislativas de Outubro de 1980. Com tomadas de posição públicas aberrantes - citei aqui duas a título de exemplo, mas houve várias outras. Dignas de uma mentalidade nada progressista. Mesmo nada.

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De Luís Lavoura a 24.04.2019 às 14:27

Eu nessa altura era adolescente, mas ligava bastante à política. E não tinha qualquer conhecimento, e penso que a imensa maior parte das pessoas também não tinha, destas aventuras amorosas de Sá Carneiro. Acredito naturalmente que Mário Soares, o bispo do Porto e Freitas do Amaral soubessem e comentassem e criticassem. Mas cá para fora, nas notícias que se davam e se ouviam, acho que nada transpirava. A maior parte das pessoas só soube que Sá Carneiro estava amancenbado quando ele morreu.
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 18:11

"Amancenbado"?
Mas que raio de palavra é essa?
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De Luís Lavoura a 24.04.2019 às 18:14

a·man·ce·bar - Conjugar
(a- + mancebo + -ar)
verbo pronominal

1. [Depreciativo] Ligar-se maritalmente a alguém, sem laços de casamento; tomar concubina, amante. = AMANTIZAR-SE, AMASIAR-SE, AMIGAR-SE, JUNTAR-SE

https://dicionario.priberam.org/amancebar
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 18:40

Obrigadinho pela "aula" e pelos depreciativos que aqui despejou.

Agora ensine a si próprio o que significa "amancenbado".

Não se apresse. Pode ficar só para amanhã. Ou para dia 26, pois amanhã é feriado.
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De jpt a 24.04.2019 às 20:57

Pedro, é injusto o remoque que fazes ao proto-comendador: "amancenbado" é o homem que vai para a tropa, não é?
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 21:10

Será "amancebado com mancebo"?
Ora sebo...
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De jpt a 24.04.2019 às 22:14

não, não, é mesmo "amencenbado" (assim mesmo, com o "n" antes do "b") ... e mais digo para não me dizerem fóbico
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De jpt a 24.04.2019 às 22:14

não, não, é mesmo "amancenbado" (assim mesmo, com o "n" antes do "b") ... e mais digo para não me dizerem fóbico
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De Corvo a 24.04.2019 às 14:52

Acho que não vou ver, por carência de interesse.
Primeiro conheço bem a conturbada política da época e suas suas convulsões, alguma vivi-a na pele e não me foi particularmente agradável, e a história de amor também sei como foi.
E depois, sinceramente: o cinema português, malgrado todo o meu empenho e boa vontade, não me convence.
Falta sempre qualquer coisa mais convincente.
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De atitopoteu a 24.04.2019 às 15:52

já somos dois !...deve ser da cor da nossa paixão, hehehe !!!
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 18:08

Costuma acontecer-me isso. Com os filmes do João Botelho.
Deve ser da cor...
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De Anónimo a 24.04.2019 às 22:09

Falta inteligência para saber ver cinema...Português ou qualquer outro..
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De atitopoteu a 24.04.2019 às 15:50

lembro bem a grande tirada de Mário Soares que na altura deixou o que fugiu para o Porto no chamado "verão quente" em 1975 e todo o PPD aos papéis...!!!
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 18:09

Tu já nem te lembras quem era o anterior treinador do teu clube. Nem do anterior ao anterior.
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De Luís Lavoura a 24.04.2019 às 15:59

depois da relação de Snu e Francisco, desafiando mentes retrógradas em todos os quadrantes, nada voltaria ao mesmo na atmosfera social do País

Tal como eu disse no meu comentário anterior, creio que nesse tempo ninguém, entre a generalidade do povo, estava ao corrente da ligação irregular de Sá Carneiro.

Pelo que, essa relação, tendo sido mantida secreta, não fez qualquer diferença na atmosfera social do país.

Sá Carneiro, e outros, lutaram para que o divórcio fosse liberalizado em Portugal. Essa luta fez muita diferença. Agora, a relação de Sá Carneiro com Abecassis, essa fez pouca ou nenhuma diferença, porque sempre foi mantida em segredo perante o povo.

Com a cumplicidade da imprensa, que nesse tempo era muito boa a manter segredos.
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De Anónimo a 24.04.2019 às 16:45

"ultraje aos sentimentos tradicionais do nosso povo"

Não me parece, o povo sempre foi prático.
Se depois de um esforço as pessoas continuam a não se entender o melhor é estarem separadas.
Agora tornar o divórcio como uma banalização ou pior como algo meritório isso os "sentimentos tradicionais" sempre condenaram.

lucklucky
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 18:10

Pena já não existir Conselho da Revolução. Você teria lugar lá.
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De Anónimo a 24.04.2019 às 21:08

Pelos vistos está difícil ler a diferença entre a apologia do divórcio e aceitar o divórcio como mal menor.

lucklucky
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De Cristina Torrão a 24.04.2019 às 18:50

Quando se deu o 25 de Abril, eu estava quase a fazer nove anos; no Verão Quente tinha 10; quando Sá Carneiro e Snu Abecassis morreram tinha 15. Ou seja: era uma criança, não costumava ver ou ouvir notícias, quando a sua relação foi conhecida. E lembro-me tão bem do escândalo! Toda a gente comentava. Lembro-me da reserva dos homens e de as mulheres lamentarem a esposa de Sá Carneiro. Lembro-me de a minha mãe ter dificuldades em contar-me o que se passava. Lembro-me do ataque de Mário Soares.
Não sei onde viviam os senhores que comentaram antes de mim...

Obrigada pelo post, Pedro. Adorei ler e quero ver o filme!
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 19:45

Viva, Cristina.
O comentador Lavoura, que veio dizer que ninguém falava disso, anda a precisar de tomar Memofante. E pelo menos um epígono dele hoje aqui aparecido também.
Bastaria o excelente desempenho de Inês Castel-Branco (trabalhando o sotaque, algo raro no cinema português) e a irrepreensível reconstituição de época para recomendar este filme.
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De jpt a 24.04.2019 às 21:03

Não vi o filme e se calhar não o verei - não acredito que fique em cartaz até ao Verão, quando aí for. E só posso falar da relação de Sá Carneiro e Snu Abecassis: era mais do que conhecida, e falada. Aliás havia a boca (oriunda da esquerda, não só comunista) sobre Sá Carneiro: "cumpriu o sonho de todos os portugueses: roubou um banco e dormiu com uma sueca" - era a alusão à campanha contra ele, que pichou todo o país, "Sá Carneiro Paga os 33 mil", pois se dizia que tinha defraudado a banca em 33 mil contos.

Portanto as elaborações sobre o desconhecimento popular da vida conjugal de Sá Carneiro dever-se-ão a um muito normal esquecimento, tanto tempo passado. Ou, talvez, apenas à vontade de contradição, defeito juvenil cada vez mais frequente no comentarismo.
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De Pedro Correia a 24.04.2019 às 21:12

Sim, a comentadorite aguda hoje desemboca muito nisso. Defeito juvenil nuns casos, proto-senil noutros.
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De Anónimo a 24.04.2019 às 21:52

jpt, acerca do banco nada sei, mas sei que por uns míseros 28kms ele não dormiu com uma sueca,
mas sim com uma dinamarquesa de Copenhaga ;)
Maria
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De jpt a 24.04.2019 às 22:25

sim, mas era a boca que corria, adequada à mitologia sobre as suecas - porventura porque vivíamos a era ABBA, talvez porque começara o turismo excêntrico aos ingleses da Linha e aos franceses.
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De Costa a 25.04.2019 às 00:48

Tudo dito (escrito) por aqui, restará - ficará - a verdade que a mais conservadora esquerda - reaccionária, afinal, que não conservadora... - quiser. É assim, já se sabe.

A verdade que conta, é a "verdade" a que temos direito. E essa "verdade", quase quarenta e oito anos depois (espécie de número sagrado, na liturgia consagrada do novo tempo), é a que se sabe.

Vi o filme. Eu era jovem adulto, ao tempo. Não esqueço. Nem esqueço o filme. Que se esquecerâ.

Muito convenientemente.

Costa

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