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Estrelas de cinema (26)

por Pedro Correia, em 26.01.19

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GENTE VULGAR

****

A vida quotidiana, a vida dos simples, os pequenos dramas das vidas daqueles que são iguais a mim ou iguais a ti. Vai faltando disto no cinema, hoje inundado de efeitos especiais, de truques computorizados, de super-heróis. É por isto que Roma, a mais recente longa-metragem de Alfonso Cuarón, é um bálsamo para os nossos olhos já cansados de tanto artificialismo e tantas luzes faiscantes que iludem a realidade.

Rodado a preto e branco, no bairro da Cidade do México que tem este nome, Roma instala-nos no interior da casa de uma família que nos é apresentada pela empregada que também ali mora. E é sobretudo por intermédio dela que vamos sabendo o que lá se passa – dores e alegrias e anseios e frustrações. E é também a ela, quase como um membro da família também, que nos vamos afeiçoando. Sentimo-nos de algum modo identificados com aquela rotina intimista por vezes trespassada de pequenos e médios sobressaltos, sentimo-nos parte daquele todo. Mesmo que nunca tenhamos viajado ao México, mesmo que não façamos uma ideia concreta do que foi aquele início da década de 70, antes da era globalizadora. Daí a força simbólica do nome do bairro, aludindo a uma capital europeia que outrora foi sinónimo de marco civilizador. Quanto mais local, mais universal.

Esta é a verdadeira magia da Sétima Arte: fazer-nos transportar em simultâneo no tempo e no espaço. Cuarón, que já havia dirigido em 2004 o terceiro capítulo cinematográfico da saga de Harry Potter e em 2013 assinou o magnífico Gravidade que lhe valeu o Óscar de melhor realizador, assina agora um verdadeiro trabalho de autor. Em Roma – filme disponível na plataforma Netflix após ter estreado em Dezembro nas salas de cinema portuguesas – ele não foi apenas realizador e produtor: também escreveu, fotografou e montou o filme. Com um labor de artesão cada vez menos em voga no século XXI. Daí, talvez, este filme só com poucos meses de existência – entretanto galardoado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, distinguido com Globos de Ouro para melhor realização e melhor película não falada em inglês, além de candidato a dez Óscares na próxima distribuição de estatuetas em Hollywood – nos parecer tão fora de tempo na sua bela fotografia a preto e branco que o envolve num suave anacronismo.

Como se aquela época fosse também a nossa. Como se de Roma nada mais soubéssemos senão que tem as mesmas quatro letras da palavra amor.

 

 

Roma (Roma, 2018). De Alfonso Cuarón. Com Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey, Carlos Peralta, Daniela Demesa, Carlos Peralta, Marco Graf, Nancy García García, Verónica García. Produção mexicana-americana. Duração: 135 minutos.


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