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Estrelas de cinema (24)

por Pedro Correia, em 15.02.17

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O SONHO E O PESADELO

****

“O mito é o nada que é tudo.” O verso de Fernando Pessoa podia servir de epígrafe a este filme focado na jovem viúva do malogrado 35.º Presidente norte-americano que contorna todos os lugares-comuns relacionados com o magnicídio de Dallas. Já vimos mil imagens alusivas ao drama, mas muito poucas concentradas na dama - de algum modo é quase como se estivéssemos a vê-las pela primeira vez nesta notável realização do chileno Pablo Larraín.

Jackie, como o nome indica, coloca por inteiro Jacqueline Lee Bouvier Kennedy no cerne da acção, desenrolada em Novembro e Dezembro de 1963, da antevéspera do crime às semanas que se seguiram aos disparos fatais de Lee Oswald na Praça Dealey.

 

O inquilino da Casa Branca surge aqui como mero figurante: só Jackie interessa como ponto fulcral da dramaturgia, enquanto edificadora do mito post mortem que perdurará por gerações. Este é um dos aspectos raramente realçados a propósito do casal Kennedy, que ocupou a Casa Branca durante pouco mais de mil dias: John não teria passado à história tal como o recordamos sem a laboriosa construção da sua imagem levada à prática por Jackie – primeiro por instinto, depois por decisão deliberada.

O mito nascia logo ali, em Dallas, naquele vestido manchado de sangue que ela recusou trocar durante todo o dia. Prolongava-se nas solenes exéquias de Estado, que fez decalcar do funeral de Lincoln, e na escolha do cemitério militar de Arlington para a deposição dos restos fúnebres do Presidente. E culminava na entrevista concedida dias depois por Jackie ao jornalista Theodore White, da revista Life, em que surgiu a primeira alusão ao musical Camelot, comparando a presidência Kennedy à lendária corte do Rei Artur, “momento fugaz e radioso” que alargou as fronteiras do sonho americano, dando-lhe projecção universal.

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O rosto magoado de Jacqueline Kennedy – num prodigioso trabalho de composição dramática que ficará como marco na carreira de  Natalie Portman – acompanha-nos ao longo de todo o filme, de modo obsessivo e quase compulsivo, com a câmara ficcional autorizada enfim a desvendar o lado oculto da jovem primeira dama, sempre tão ciosa da sua intimidade.

Partilhando a dor mais íntima com o mundo, talvez por ser a única forma de suportar tal fardo, Jackie – com a vida virada do avesso aos 34 anos, mãe de dois órfãos de tenra idade – contribuiu para transformar a tragédia em epopeia e dar aos Estados Unidos um dos seus mártires mais perduráveis. Evitando assim que do mandato de Kennedy ressaltasse a desoladora memória de uma ruína.

 

Acontece que um filme é também a sua circunstância: esta obra de Larraín ganha novo significado neste instante preciso em que os EUA, traindo o melhor da sua história, cedem aos ventos da irracionalidade e anunciam que vão fechar-se ao mundo. Invertendo a Nova Fronteira de John Kennedy que conduziu o homem à superfície lunar.

Camelot, senha de um sonho, brilha por contraste de forma ainda mais intensa em tempos de pesadelo.

 

 

Jackie (2016). De Pablo Larraín. Com Natalie Portman, Billy Crudup, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, John Hurt, Richard E. Grant, Caspar Phillipson, John Carroll Lynch.


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