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Estrelas de cinema (23)

por Pedro Correia, em 22.02.15

americansniper11[1].jpg

 

O QUINTO MANDAMENTO

****

Há um dilema ético desenhado logo na cena inicial e que acaba por percorrer todo o filme. Um dilema que transcende em larga medida esta longa-metragem de Clint Eastwood que está a ser um mega-sucesso de bilheteira nos Estados Unidos e tem dividido a crítica nos cinco continentes.

É um dilema que atravessa o mundo dos nossos dias. Algo que nos interpela até ao fundo das nossas bases civilizacionais, pondo em causa o quinto mandamento da lei divina.

Enquanto espectadores, somos sobressaltados com a evidência deste dilema não através de palavras mas de acções mudas que se instalam de imediato nas encruzilhadas da memória. Esta é a força do cinema enquanto forma de expressão artística e testemunha privilegiada das ansiedades e dos medos do homem contemporâneo.

 

Herdeiro directo da linhagem clássica do cinema norte-americano, veterano entre os veteranos, Clint Eastwood não nos transmite sermões: faz-nos pensar através de imagens. Matar ou morrer: eis o dilema que tem de ser resolvido, nas tensas sequências de abertura, por Christopher (Chris) Scott Kyler, atirador furtivo das forças especiais dos EUA instaladas no Iraque pós-Saddam Hussein. Não é figura de ficção: foi um soldado-talismã idolatrado pelos camaradas de armas, com a morte de 160 inimigos creditada na sua folha oficial. Mortes que permitiram preservar vidas, na versão militar norte-americana.

 

American-Sniper-Bradley-Cooper-550x366[1].jpg

 

Vivemos num tempo pós-Guerra Fria, condicionado pelo pós-11 de Setembro de 2001 -- uma data que serve de fronteira entre dois mundos. Tudo mudou: um pouco por toda a parte, parcelas crescentes de liberdade individual são sacrificadas à segurança colectiva.

Instalado num terraço de Fallujah, Kyler tem uma mulher e uma criança no ponto de mira da sua arma. Serão pacíficos cidadãos iraquianos ou potenciais bombas humanas destinadas a ensanguentar as tropas ocupantes?

Apenas ele, na solidão da sua consciência, poderá decidir. E restam-lhe poucos segundos para tomar a decisão. Pressentindo, com o instinto de caçador que o pai lhe transmitira durante a infância no Texas rural, que aquele momento irá mudar-lhe a vida para sempre. Dizia-lhe o pai que há três tipos de pessoas: as ovelhas, os lobos e os cães-pastores. Ele não teve a menor dúvida a partir daí: seria um cão-pastor. E também em Fallujah agirá em função disso.

 

De certo modo, Sniper Americano encerra um ciclo iniciado em 1978 com outro filme então muito polémico: O Caçador, de Michael Cimino. Mas há diferenças substanciais entre as duas películas. Na primeira longa-metragem, os soldados regressam a um país traumatizado, com cicatrizes de guerra, mas onde é possível disfrutar a paz enfim recuperada -- algo bem simbolizado na magnífica cena em que Michael Vronsky (Robert de Niro) poupa a vida ao veado que tanto perseguira. Em Sniper Americano, pelo contrário, essa paz intramuros deixou de existir e o inimigo interno acaba por ser tão letal como o externo. Porque todos já fomos contaminados pelo mesmo vírus.

 

Raros filmes nos mostram cenas de guerra tão intensas e tão cruas como este. Cenas substantivas, nada adjectivadas, que decorrem durante longos minutos sem um só diálogo. Insólita guerra, não travada em grandes espaços como os conflitos armados clássicos, mas nos dédalos citadinos de qualquer malha urbana transformada em armadilha fatal.

Nestas cenas -- que são o cerne de Sniper Americano -- Eastwood eleva-se ao melhor nível do cinema actual e da sua vasta filmografia, composta por 34 títulos. Cenas que renderam aos produtores quase 400 milhões de dólares em menos de dois meses de exibição e polarizaram opiniões nos Estados Unidos, com a ex-candidata republicana Sarah Palin a elogiar sem reservas o filme e o vice-presidente Joe Biden a confessar que não conseguiu reprimir as lágrimas ao vê-lo, enquanto o cineasta Michael Moore o criticava e publicações como a Rolling Stone oscilavam entre rasgados elogios e a contestação sarcástica à medida que as salas se enchiam de um público entusiasmado.

Pormenor relevante: Jane Fonda, outrora expoente da esquerda em Hollywood (e que chegou a chamar "fascista" a Cimino por ter realizado O Caçador) enfileirou entre as vozes defensoras deste Sniper Americano, candidato a seis Óscares da Academia: melhor filme, melhor actor (Bradley Cooper, que aumentou 20 quilos em massa muscular para desempenhar o principal papel e é também produtor desta longa-metragem), melhor argumento adaptado (da autobiografia de Chris Kyler, que foi um sucesso de vendas em 2012), melhor montagem, melhor montagem de som e melhor mistura de som.

 

american-sniper-poster[1].jpgÉ no relato da "frente interna" -- apesar do bom desempenho de Sienna Miller no papel de Taya Kyle, mulher de Chris --, centrado na inadaptidão do herói de guerra ao banal quotidiano civil, que se detecta alguma falta de fôlego num cineasta cheio de obras-primas no currículo (Bird, Imperdoável, As Pontes de Madison County, Mystic River, Million Dollar Baby, Cartas de Iwo Jima, Gran Torino). Kathryn Bigelow fez bastante melhor neste registo do soldado inadaptado aos tempos de paz, em 2008, com o seu imperdível Estado de Guerra.

Aqui mal ultrapassamos o registo rotineiro dos dramas familiares -- talvez porque Taya acompanhou as filmagens e de algum modo supervisionou o projecto, inicialmente confiado a Steven Spielberg, que entretanto desistiu.

Subsiste a sensação de que ficou um outro filme por contar. Como se, ao sucumbir perante um inesperado "fogo amigo", Chris Kyler nos advertisse de que toda a paz acaba por ser ilusória.

O mundo é hoje um lugar mais perigoso que nunca e a milhares de quilómetros de Fallujah existem homens-bomba, sem barba nem turbante, dispostos a tornar letra morta o imperativo inscrito no Livro do Êxodo (20:13) e que ecoa há milénios na atribulada consciência humana: «Não matarás».

 

 

American Sniper (2014). De Clint Eastwood. Com Bradley Cooper, Sienna Miller, Jake McDorman, Luke Grimes, Navid Negahban, Keir O’Donnell, Sammy Sheik.

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