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Estrelas de cinema (22)

por Pedro Correia, em 25.01.15

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O PALCO E A VIDA

*****

Hollywood, reino por excelência dos narcisos, raramente se olha ao espelho. É pena. Porque quando o faz costuma produzir obras-primas. Assim foi, por exemplo, com O Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder, genial incursão ao lado negro da fábrica de sonhos, incapaz de alimentar as ilusões dos seus protagonistas. Ficarão para sempre na memória cinéfila cenas capitais desse filme: um corpo a boiar na piscina, actores do cinema mudo (Buster Keaton entre eles) jogando cartas numa mesa onde há muito deixou de haver ases, Gloria Swanson descendo a escadaria que simbolicamente a conduz do patamar da glória do passado ao chão que pisamos todos nós, simples humanos.

Sinal dos tempos: Birdman não tem o sopro de tragédia que sulcava Sunset Boulevard. Mas é uma fabulosa descida aos bastidores do mundo do espectáculo -- cruzando teatro com cinema, talento artístico com sucesso de bilheteira, actores de carne e osso com a sua fantasiosa projecção no ecrã, onde o facto se torna mito e por vezes se desvanece na proporção inversa à lenda que forjou.

 

Birdman_poster[1].jpgEsqueçam todos os lugares-comuns do cinema contemporâneo: Bidman estilhaça-os nesta emocionada e emocionante película do mexicano Alejandro González Iñarritu, que em 2003 rodou o trepidante 21 Gramas e três anos mais tarde foi nomeado para o Óscar de Melhor Realização com Babel, voltando agora a ser candidato à estatueta que premeia o cineasta do ano.

Outros filmes parecem obedecer à lógica de que a vida é um palco. Birdman, pelo contrário, mostra-nos que o palco pode ser a vida. Em registo de comédia negra servido por longos planos-sequência num prodigioso virtuosismo técnico, por vezes ao ritmo dos slapsticks dos anos 30, cheio de quadros em que a arte da representação troça de si própria e de todos quantos gravitam em torno dela. Apresenta-nos Mike (Edward Norton), aplaudido actor do Método, só capaz de ter uma erecção quando protagoniza cenas de cama em palco. Ou Tabitha (Lindsay Duncan), rancorosa crítica teatral que não hesita em demolir uma peça num texto escrito ao balcão de um bar sem se dar ao incómodo de assistir a ela.

 

Mas Birdman não seria o que é -- um olhar sem contemplações aos efémeros labirintos da fama -- sem a corajosa interpretação de Michael Keaton no papel de Riggan Thompson. Estrela cadente de blockbusters do passado (é evidente a alusão a Batman, o herói de banda desenhada interpretado por Keaton no cinema em 1989 e 1992), Riggan procura demonstrar aos outros -- mas sobretudo a si próprio -- que sabe voar sem necessitar das asas metafóricas do super-herói a que deu rosto humano. Mas sem a menor garantia prévia de estar à altura deste desafio.

A determinado momento, abandona o camarim e descobre-se em trajos menores, em plena Broadway, onde os transeuntes o reconhecem. Nunca Birdman (ou Batman) se deixaria expor assim aos indiscretos olhares alheios. Nem teria suficiente ousadia para se sujeitar ao cruel ridículo da nudez associada à decadência corporal e superar a prova, como Michael Keaton foi capaz neste papel que exige um Óscar com a certeza antecipada de ser merecido.

 

 

Birdman (2014). De Alejandro González Iñárritu. Com Michael Keaton, Zach Galifianakis, Edward Norton, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Emma Stone, Naomi Watts.


4 comentários

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De Vítor Pontes a 28.01.2015 às 16:14

Acabei de ver o filme. Na minha opinião é ôco e um pouco "a armar" (começando pelo subtítulo). A crítica de Pedro Correia é construtiva, alude a analogias corretas, mas também não vai mais além... talvez porque no filme não haja mais. Diria eu que Iñarritu parece dizer que faria à vontade uma prequela de "Batman", mas é demasiado inteligente para isso.

Mas porque diz o P. Correia que "Birdman" não tem o "sopro de tragédia" e depois recorre ao termo, da crítica, "comédia negra"? E o que acontece no final a Thompson, um inexplicável atormentado que anda sempre a tentar destruir-se, talvez porque, no entendimento do cineasta mexicano, o bom ator é aquele que arrisca tudo (assim em rampa descendente...), como desabafa, irascível e superficialmente, o ator no bar diante da crítica teatral Tabitha. A explicação do enigma talvez esteja na encenação de Carver, composta de álcool e tendências destrutivas. O filme é redundante e demasiado barroco.

Obrigado e não me leve a mal o comentário.
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De Pedro Correia a 28.01.2015 às 16:29

Eu é que agradeço o comentário, Vítor. A polémica é sempre bem-vinda a este blogue, que não se chama Delito de Opinião por mero acaso. Sempre senti alguma alergia àquelas grelhas de "críticas de cinema" em que os "críticos" votam sempre alinhados, como soldadinhos de chumbo. Parece sempre um par de olhos só em vez de três ou quatro.
Não menciono o desfecho porque evito sempre estragar o efeito surpresa nos espectadores. Na comparação com 'Sunset Boulevard', um filme que logo me veio à memória, falta-lhe a dimensão de filme negro que Billy Wilder conferiu a essa obra-prima de 1950. Esta longa-metragem de Iñárritu chega ao drama pela via da comédia - um registo muito difícil de conseguir, sobretudo ao importar a técnica verbal da 'screwball comedy', instigando os actores a pronunciar as falas de forma deliberadamente acelerada. De caminho, constitui uma notável reflexão sobre os bastidores do mundo artístico (mesclando Broadway com Hollywood) e sobre os labirintos da fama - sempre falsa, sempre efémera, sempre ilusória, sempre fascinante.
Claro que para gostar deste filme convém gostar também da obra de Carver. E eu, confesso, gosto muito do livro (e do conto homónimo) tantas vezes aqui mencionado): 'De que falamos quando falamos de amor'.
Até já escrevi no DELITO sobre outro conto desse livro. Aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/2617245.html
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De Vítor Pontes a 28.01.2015 às 18:09

Obrigado Pedro Correia pela acolhedora resposta. Também pelo 'link' do Carver.

Cumprimentos.
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De Pedro Correia a 28.01.2015 às 21:43

Apareça por cá sempre que quiser, Vítor. Para "conversarmos" sobre cinema ou outro tema qualquer.

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