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Estrelas de cinema (21)

por Pedro Correia, em 01.03.14

 

OS NÁUFRAGOS DO TEMPO

*****

Nestes tempos em que a indústria prevalece sobre a arte, os filmes parecem-nos todos iguais. Não é assim com Nebraska, talvez o melhor de todos quantos concorrem ao Óscar de melhor longa-metragem estreada em 2013, talvez o melhor de Alexander Payne (autor de As Confissões de Schmidt, Sideways e Os Descendentes).

É um filme pausado, que respira, que nos envolve, que nos leva a gostar ainda mais de cinema. Um filme rodado a preto e branco, numa extraordinária fotografia de Phedon Papamichael, para acentuar um certo carácter anacrónico da história, que decorre na actualidade mas é protagonizada por figuras que parecem fora deste tempo, que parecem não ser deste mundo, que parecem ter perdido alguma noção da realidade -- sendo a excepção o filho mais velho do casal Grant, que apresenta o noticiário num modesto canal de televisão em Billings, no estado de Montana: só ele, por motivos profissionais, se sente preso ao presente. O resto da família projecta-se nos inalcançáveis sonhos do passado, em claro contraste com o horizonte actual de uma América depauperada pela crise em que os Buicks e os Chevrolets de outrora deram lugar às viaturas japonesas e coreanas. Uma espécie de reverso do sonho americano, bem simbolizado no desinteresse do velho Woody Grant quando o filho mais novo, David, o leva a visitar o Monte Rushmore: "Um monte de pedras velhas e ervas daninhas", em que as faces dos presidentes "parecem inacabadas".

 

Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que os Grant, à semelhança de tantos outros norte-americanos, se sentiam protagonistas da História: o céu era o limite e a Lua era a meta, apontada por John Kennedy. Um tempo que ficou perpetuado nas amarelecidas páginas do jornal da povoação em que nasceram: a ficcional Hawthorne, no Nebrasca, em tudo semelhante a Norfolk, a vila que Payne escolheu para rodar grande parte do filme. Lá estão as fotografias dos três irmãos -- Woody, Albert e Ray -- com as fardas de combatentes na Coreia. Tantos anos depois, dois deles desistiram de todos os combates. Só o pai de David, contrariando a ruína do corpo e do espírito, persiste em fintar o destino que empurra os restantes para a morte que os ronda em vida no sofá da sala. Espécie de Quixote deste tempo que já não é o dele, vai a Lincoln, no Nebrasca -- suposta terra dos sonhos. Percorre 1300 quilómetros, gastando o que lhe sobra do alento que um dia o levou a combater na Coreia e a conquistar a mulher que outros cobiçavam lá na vila.

David, que o acompanha, é de outra geração mas parece tão náufrago do tempo como o pai. Como se sentisse a perene nostalgia de uma época que não viveu.

Falamos da vida, mas podíamos falar também do cinema. Porque houve igualmente na Sétima Arte um tempo de glória há muito ultrapassado. Um tempo que nos é induzido nos segundos iniciais, ao vermos surgir no grande ecrã o velho logótipo da Paramount, a preto e branco. Um tempo de que o protagonista, Bruce Dern, chegou a fazer parte ao trabalhar com estrelas como Bette Davis, John Wayne, Charlton Heston, Kirk Douglas, Marlon Brando e Montgomery Clift sob a direcção de realizadores como Alfred Hitchcock, Elia Kazan, Robert Aldrich, Sydney Pollack e Roger Corman.

 

Este hipnótico e arrebatador road movie não seria tão deslumbrante sem a interpretação excepcional de Bruce Dern, sobrevivente -- na tela e fora dela -- de uma época que se tornou mítica. A sua interpretação do errante Woody Grant, sem nunca cair no menor exagero histriónico, é uma homenagem viva à arte de representar. Bem ilustrada numa das cenas mais comoventes deste filme justamente candidato a seis Óscares (melhor película, melhor realização, melhor actor, melhor actriz secundária, melhor argumento original, melhor fotografia): aquela em que revisita a casa onde nasceu, erguida do nada pelo pai. A mais remota memória que lhe resta.

Sobe ao precário primeiro andar, a ameaçar ruína, olha em volta, faz uma longa pausa e diz: "Aqui era o quarto dos meus pais. Vergastavam-me sempre que eu aqui entrava. Agora já não há ninguém para me vergastar."

Muito mais do que um entretenimento, muito mais do que um espectáculo. Isto é cinema do melhor. Aquele que nos permite vislumbrar retalhos do tempo, parcelas do mundo. Aquele que nos leva a conhecer os outros e, através deles, nos permite olhar com perfeita nitidez para o mais fundo de nós. 

 

 

Nebraska (2013). De Alexander Payne. Com Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Stacy Keach, Bob Odenkirk.


6 comentários

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De Anónimo a 01.03.2014 às 16:01

Como é bom ler textos escritos por pessoas que amam o cinema e, ainda por cima, escrevem bem.
Dá vontade de ir a correr ver este filme.
Obrigada, Pedro!
:-)
Antonieta
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De Pedro Correia a 02.03.2014 às 23:09

Não perca este filme, Antonieta. Não hesito em considerá-lo uma obra-prima.
É bom voltar a vê-la por cá. Sobretudo com palavras tão simpáticas, ainda que imerecidas.
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De Teresa Ribeiro a 01.03.2014 às 18:26

Dou-te já o oscar de melhor crítica a este filme extraordinário.
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De Pedro Correia a 02.03.2014 às 23:07

O melhor filme que já vi este ano. E também o melhor que vi em muitos meses, Teresa. É um daqueles filmes que vencerão o teste do tempo, tenho a certeza.

(obrigado pelas tuas palavras, tão generosas)
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De José Manuel Faria a 01.03.2014 às 19:00

Ninguém pode perder Nebrasca: e, sim, um dos melhores do rol de 9 candidatos. Parabéns pela critica,*****.
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De Pedro Correia a 02.03.2014 às 23:08

Obrigado, meu caro. Gosto destas nossas afinidades cinéfilas.

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