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Estrelas de cinema (20)

por Pedro Correia, em 14.02.14

 

 A GANÂNCIA É UMA DROGA DURA

**

Martin Scorsese parece acometido da síndrome d'O Padrinho. Falta-lhe no extenso currículo uma longa-metragem que se assemelhe mais a uma ópera do que a um filme, como Francis Ford Coppola -- igualmente italo-americano e pertencente à mesma geração que ele -- conseguiu com o tríptico sobre a Mafia, inesquecível autópsia da corrupção moral na América.

Scorsese tem idêntico sopro de génio, mas nunca rodou um filme à mesma escala, que funcione como sua opus magnum. Será O Lobo de Wall Street algo equivalente à saga dos Corleone? Nem por sombras. Esta obra bafejada com várias nomeações aos Óscares (melhor filme, melhor realizador, melhor actor, melhor actor secundário, melhor argumento adaptado) parece antes um pastiche do mediano Wall Street de Oliver Stone.

Percebemos isso com nitidez quando escutamos Jordan Belfort dirigindo-se aos corretores da sua empresa, fiéis discípulos na arte de enriquecer a qualquer preço: "Não há nobreza na pobreza. Já fui pobre e já fui rico. Acreditem: prefiro muito mais ser rico. Quero que resolvam os vossos problemas tornando-se ricos."

Praticamente nenhuma diferença em relação ao Gordon Gekko que proclamava em 1987: "Greed is good!"

 

Scorsese procura caricaturar este mundo de ambições sem freio, onde a Bolsa funciona como arma letal e a ganância é uma droga dura. Mas acaba por ficar prisioneiro dessa caricatura ao perder-se aparentemente de fascínio por ela: Jordan Belfort -- numa grande criação de Leonardo di Caprio premiada com um Globo de Ouro -- podia ser um Jay Gatsby (não por acaso, a personagem que Di Caprio encarnou no filme anterior), talvez com um pouco menos de escrúpulos e certamente bastante mais sorte.

O Lobo de Wall Street começa bem, ao ritmo alucinante de uma screwball comedy, mas vai perdendo embalagem e energia numa trama demasiado longa que desagua no mais convencional dos desfechos após catadupas de sexo, drogas e dólares -- tudo condimentado com o maior número de palavras começadas por F que alguma vez me lembro de ter escutado num filme. Como se o realizador quisesse vencer cada espectador por exaustão nesta montanha-russa de três horas.

 

Jordan Belfort é eventual candidato a figura de vaudeville, mas jamais será personagem de ópera: falta-lhe a gravitas negra e triste do crepuscular Vito Corleone, filmado em ritmo de valsa lenta pelo irrepetível Coppola.

 

 

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013). De Martin Scorsese. Com Leonardo di Caprio, Jonah Hill, Jean Dujardin, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Jon Bernthal.


6 comentários

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De Teresa Ribeiro a 14.02.2014 às 23:49

Também não gostei. Este filme tem todos os sinais identitários de Scorcese, mas levados ao extremo e por isso parece uma caricatura. Foi quase deprimente assistir a esta obra falhada, do senhor que já foi capaz de realizar Taxi Driver, Tudo Bons Rapazes e A Idade da Inocência entre outros filmes inesquecíveis.
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De Pedro Correia a 15.02.2014 às 00:38

Achei que Scorsese perdeu a mão, Teresa. Começa com uma sátira e acaba com uma semi-apologia do sistema que pretende criticar. A crítica torna-se tão ténue que mal se reconhece no fim.
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De lucklucky a 16.02.2014 às 15:35

"...conseguiu com o tríptico sobre a Mafia, inesquecível autópsia da corrupção moral na América...."

Uma substituição para elucidar modos de pensar.

"...conseguiu com o tríptico sobre a Mafia, inesquecível autópsia da corrupção moral na cultura siciliana/italiana...."

Já soa mais estranho. Porquê?

Vem da nebulosa marxista de que a "corrupção moral" só existe quando se fala de dinheiro. A América é muito mais rica que a Sicília... E a América é o alvo a abater.
Criticar a cultura siciliana não traz vantagens políticas ao Socialismo.

Tal como os os "problemas sociais" só aparecem quando um país começa ter ricos capitalistas.

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De Pedro Correia a 16.02.2014 às 21:23

Você começa a tornar-se monocórdico, Lucklucky. Lamento dizer-lhe, mas parece-me que foi inoculado com o vírus socialista.
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De lucklucky a 17.02.2014 às 14:27

Anti corpos.
Foi de ler muitos jornais portugueses desde criança.
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De Pedro Correia a 18.02.2014 às 22:08

Ainda bem que não aprecia Coppola. Sendo tão influenciável como parece, ainda lhe dava para se tornar mafioso.

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