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Estavam mesmo a pedi-las

por Pedro Correia, em 10.01.15

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Como ontem escrevi, não somos todos Charlie. Essa é uma ilusão perigosa, que nos faz desviar do essencial.

Ainda as 17 vítimas dos três dias de morticínio em França permaneciam por sepultar - e os cadáveres de algumas delas mal tinham arrefecido - já por cá se faziam ouvir as primeiras vozes apostadas em justificar o terror homicida do fanatismo islâmico. Não faltando até quem apontasse um dedo acusador ao Charlie Hebdo, ao jeito de quem diz "estavam mesmo a pedi-las".

Como num súbito passe de ilusionismo, por efeito deste discurso dos arautos da "interculturalidade" que sempre "compreendem" os assassinos quando têm armas apontadas a Ocidente, os criminosos transformam-se em vítimas e estas sucumbem ao peso dos pecados da civilização europeia.

Estavam mesmo a pedi-las.

 

«A guerra contra o terrorismo causa muito sofrimento injusto. (...) O Ocidente tem vindo a provocar um caldo de intolerância, um caldo de repressão e de ódio que não poderia ficar sem reacção.»

É o discurso de Boaventura Sousa Santos, por exemplo. Numa desassombrada intervenção ontem à noite, na RTP informação, o mais mediático professor de Coimbra insurgiu-se contra os mortos: «Uma das caricaturas do Charlie Hebdo mais aproveitada pela extrema-direita era um conjunto de mulheres islâmicas, grávidas, que indicando a barriga diziam: "Não estraguem o meu apoio social." Isto era uma estigmatização do Estado Social, uma estigmatização das mulheres, uma estigmatização do islão.»

Embalado nesta oratória, prosseguiu: «O Charlie Hebdo despediu um caricaturista famoso, o Maurice Sinet, por ele ter feito uma crónica que foi considerada anti-semita.»

Eis a mais notável das estigmatizações proferida por quem acabara de se insurgir contra elas: a estigmatização dos assassinados.

 

Não, não somos todos Charlie Hebdo. Não, não estamos todos do mesmo lado.

 

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O acto de bárbarie que vitimou o Charlie Hebdo foi mais do que um atentado à liberdade de expressão: foi uma advertência sangrenta - mais uma - de que toda a blasfémia contra o islão se paga com a morte, seja em que latitude for.

Mas também aqui não somos todos Charlie. Longe disso.

«O limite à liberdade de expressão não pode deixar de estar na nossa mesa. Muitas vezes também há muito fanatismo do nosso lado. Nós temos hoje na Europa muitas populações que não se reconhecem na laicidade total. A laicidade não podia ser negociada interculturalmente na Europa, de outra forma?», proclamou ontem o irrevogável professor Boaventura na sua prédica na televisão pública.

Noutro canal, outro professor universitário, Luis Moita, apontava na mesma direcção. «Neste caso concreto, é verdade que houve um atentado à liberdade. Mas não creio que se possa dizer que os dois irmãos quisessem protestar contra o Ocidente no seu conjunto, contra os nossos valores. Eles estavam a vingar uma blasfémia. É bom a gente não ignorar essa componente fundamental do problema», declarou na SIC Notícias.

 

É, portanto, neste contexto que alguns já vão sugerindo com falinhas mansas algo semelhante àquilo que os mais fanáticos exigem a tiro: a revogação de dois séculos de secularismo ocidental para ajoelharmos perante os inimigos de Voltaire, que antes usavam sotaina e hoje usam turbante.

Como se o crime compensasse. Como se aquelas 17 vítimas do terror em nome de Alá tivessem morrido em vão.


2 comentários

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De Luís Rosa a 10.01.2015 às 13:13

Porque é que não me admira que seja um professor universitário? É a geração de '68 e as suas sequelas no seu melhor. Infelizmente isto não se vai resolver enquanto não se fizer uma grande fogueira das vaidades com os livros de Edward Said , Karl Popper, Michel Foucault , Jacques Derrida , Judith Butler, Gayatri Chakravorty Spivak , Louis Althusser , Sandra Harding , e de todos os gurus dos estudos marxistas/culturais/pós-colonialistas/Gender/desconstrucionistas que continuam a tratar a educação superior, não como a busca do conhecimento e da verdade, mas como mais uma ferramenta na luta contra um ocidente liberal e capitalista que culpam por todos os males do mundo, inclusive a derrota da grande utopia soviética.

Sempre que vejo professores deste quilate a comentar na TV, lembro-me sempre do grande, genial Foucault, após a Revolução do Irão, quando se começou a perceber que aquilo ia ser mais uma teocracia, a repreender as feministas iranianas que queriam mais direitos e liberdades, acusando as parvas de terem sido intelectualmente colonizadas pelos valores do Ocidente. Claro que sim, porque é que uma mulher inteligente, de livre vontade, haveria de querer mais direitos numa sociedade patriarcal onde ela é um cidadão de segunda? Só pode haver neo-colonialismo por detrás disso.

Não me importaria nada de soprar nas labaredas desta grande fogueira; mas se acharem isso excessivo, podemos sempre implementar a alternativa de pôr professores e alunos a ler Alan Soakal, Roger Kimball, Roger Scruton, Mary Midgley e Ibn Warraq, para contrabalançar a lavagem cerebral de estupidez que grassa no ensino superior no tocante às humanidades.

Ou podemos nem ler livros e simplesmente começar a aplicar o senso comum.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 00:07

O caldo de cultura é o mesmo, Luís Rosa: é preciso "expiar" as culpas do Ocidente. Para todas as situações, a resposta vem sempre do catálogo 'prêt-a-penser': apontar o dedo acusador às democracias liberais vigentes na Europa Ocidental e na América do Norte. O regime terrorista de Assad na Síria é culpa do Ocidente. A oposição igualmente terrorista a Assad na Síria é culpa do Ocidente. Saddam foi culpa do Ocidente. O Iraque pós-Saddam foi culpa do Ocidente. As decapitações de jornalistas pelo chamado 'estado islâmico' são culpa do Ocidente. O assassínio de cartunistas do 'Charlie Hebdo' por fanáticos islâmicos foi culpa do Ocidente. O 11 de Setembro foi culpa do Ocidente.

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