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Estavam mesmo a pedi-las

por Pedro Correia, em 10.01.15

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Como ontem escrevi, não somos todos Charlie. Essa é uma ilusão perigosa, que nos faz desviar do essencial.

Ainda as 17 vítimas dos três dias de morticínio em França permaneciam por sepultar - e os cadáveres de algumas delas mal tinham arrefecido - já por cá se faziam ouvir as primeiras vozes apostadas em justificar o terror homicida do fanatismo islâmico. Não faltando até quem apontasse um dedo acusador ao Charlie Hebdo, ao jeito de quem diz "estavam mesmo a pedi-las".

Como num súbito passe de ilusionismo, por efeito deste discurso dos arautos da "interculturalidade" que sempre "compreendem" os assassinos quando têm armas apontadas a Ocidente, os criminosos transformam-se em vítimas e estas sucumbem ao peso dos pecados da civilização europeia.

Estavam mesmo a pedi-las.

 

«A guerra contra o terrorismo causa muito sofrimento injusto. (...) O Ocidente tem vindo a provocar um caldo de intolerância, um caldo de repressão e de ódio que não poderia ficar sem reacção.»

É o discurso de Boaventura Sousa Santos, por exemplo. Numa desassombrada intervenção ontem à noite, na RTP informação, o mais mediático professor de Coimbra insurgiu-se contra os mortos: «Uma das caricaturas do Charlie Hebdo mais aproveitada pela extrema-direita era um conjunto de mulheres islâmicas, grávidas, que indicando a barriga diziam: "Não estraguem o meu apoio social." Isto era uma estigmatização do Estado Social, uma estigmatização das mulheres, uma estigmatização do islão.»

Embalado nesta oratória, prosseguiu: «O Charlie Hebdo despediu um caricaturista famoso, o Maurice Sinet, por ele ter feito uma crónica que foi considerada anti-semita.»

Eis a mais notável das estigmatizações proferida por quem acabara de se insurgir contra elas: a estigmatização dos assassinados.

 

Não, não somos todos Charlie Hebdo. Não, não estamos todos do mesmo lado.

 

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O acto de bárbarie que vitimou o Charlie Hebdo foi mais do que um atentado à liberdade de expressão: foi uma advertência sangrenta - mais uma - de que toda a blasfémia contra o islão se paga com a morte, seja em que latitude for.

Mas também aqui não somos todos Charlie. Longe disso.

«O limite à liberdade de expressão não pode deixar de estar na nossa mesa. Muitas vezes também há muito fanatismo do nosso lado. Nós temos hoje na Europa muitas populações que não se reconhecem na laicidade total. A laicidade não podia ser negociada interculturalmente na Europa, de outra forma?», proclamou ontem o irrevogável professor Boaventura na sua prédica na televisão pública.

Noutro canal, outro professor universitário, Luis Moita, apontava na mesma direcção. «Neste caso concreto, é verdade que houve um atentado à liberdade. Mas não creio que se possa dizer que os dois irmãos quisessem protestar contra o Ocidente no seu conjunto, contra os nossos valores. Eles estavam a vingar uma blasfémia. É bom a gente não ignorar essa componente fundamental do problema», declarou na SIC Notícias.

 

É, portanto, neste contexto que alguns já vão sugerindo com falinhas mansas algo semelhante àquilo que os mais fanáticos exigem a tiro: a revogação de dois séculos de secularismo ocidental para ajoelharmos perante os inimigos de Voltaire, que antes usavam sotaina e hoje usam turbante.

Como se o crime compensasse. Como se aquelas 17 vítimas do terror em nome de Alá tivessem morrido em vão.

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56 comentários

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De sampy a 10.01.2015 às 12:18

Hebdo, de hebdomadaire.
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 12:40

Claro. Texto enfim limpo de gralhas, já revisto de alto a baixo.
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De Maria Dulce Fernandes a 10.01.2015 às 12:23

QED
Não sou escritora e por isso muitas vezes embaralho-me nos meios para atingir os fins.
QED, Pedro.
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 12:41

Há evidências que alguns jamais enxergam, Dulce. Porque o pior cego é sempre o que não quer ver.
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De Vento a 10.01.2015 às 12:44

Não, não somos todos Charlie Hebdo. Eu não sou, não me submeto ao poder de uns e aceito protecção contra outros. Sou livre para falar sobre uns e outros, respeitando a dignidade de uns e outros mesmo se todos estiverem contra mim. Não sou Charlie Hebdo, não comprometo os que me rodeiam expondo-os a perigos. Quando tenho algo a fazer e dizer faço-o só, em meu nome e não em nome da defesa de uma pseudo-liberdade de expressão que muitas vezes culmina em despedimentos e perseguições. Não, não sou Charlie Hebdo que desafia o carácter e provoca a ira, pedindo-a, de inimigos que não crio e não quero criar.
Não sou Charlie Hebdo, secularista e integrista laico. Sou Universalista, preconizo o respeito de todos e por todos e o direito ao diálogo entre todos.

Mas não sou tanso, sei que há muitos que se colocam a jeito e são provocadores no sentido pejorativo deste termo. E sei que outros, não respeitando a dignidade da Vida e o direito a Viver, só conhecem as armas que têm à mão quando não se sentem ouvidos.
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 12:54

Pois é, Vento: aqueles malandros estavam mesmo a pedi-las.
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De Vento a 10.01.2015 às 12:59

Não sei se eram malandros, Pedro. Mas sabendo quem era o adversário, na realidade pediram-nas. Só não as pediram aqueles dois infelizes policias que zelavam pela vida de todos e todos os outros falecidos que não se reviam na atitude.
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 13:15

Meros danos colaterais numa guerra justa. Quanto aos outros, tiveram o que mereciam. Um aviso para todos os ímpios: há sempre uma Kalashnikov pronta para os encaminhar rumo às trevas eternas.
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De Vento a 10.01.2015 às 13:55

Meu caro,

as pessoas responsáveis também são conhecidas por não colocarem em perigo aqueles que os rodeiam. Creio que não terá entendido o meu primeiro comentário.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 00:18

Caro Vento: tanto quanto sei, os desenhadores assassinados usavam como "arma" o lápis ou o pincel. Não usavam kalashnikovs. É um pormenor que faz toda a diferença.
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De lucklucky a 10.01.2015 às 13:22

É muito pior que aqueles malandros estavam a pedi-las.

Este é discurso marxista contra o Ocidente, veja-se lá se o Vento diz que os islâmicos não devem provocar os caricaturistas do Charlie Hebdo com motivos para serem satirizados. Claro não, isso não é de interesse do Vento.

Ou porque é que a violência não escandaliza mais que desenhos.

Mas não se engane, no dia em que o Vento sentir que os seus mandam tudo muda.
Quadnos e fala da Grande Guerra Patriótica tudo muda, aí já não há diálogo.

A Extrema Esquerda não tem causas, tem pretextos que usa e deita fora conforme conveniente. A sua única causa é ganhar o poder no Ocidente.

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De Diogo Moreira a 10.01.2015 às 13:19

Pedro, é muito fácil atirar as culpas para cima de um qualquer bode expiatório, especialmente quando os acontecimentos estão quentes e o assunto nos merece especial atenção.

A minha posição é muito semelhante à do Vento: liberdade de expressão, sim; liberdade de insultar, não. Porém, agora a liberdade de expressão é pregada aos quatro ventos como o expoente máximo dos valores de uma sociedade civilizada. Mas não o é! Fundamental, é o direito à vida. E, por causa disso, os criminosos que atacaram e mataram estas pessoas deverão ser sempre censurados, perseguidos e levados à justiça - mesmo que não se atinja a Lei de Talião (olho por olho, dente por dente) porque nós somos civilizados e temos sempre que o mostrar.

A maioria das outras liberdades são relativas, no sentido que existe a possibilidade de a liberdade de alguém entrar em conflito com a liberdade de outrem e ser necessário determinar quem é que tem o direito. Neste caso, é de elementar bom-senso que não se deve ofender as pessoas. A liberdade de expressão não pode servir de escudo para alguém denegrir, achincalhar ou promover violência verbal/intelectual sobre outro.

Confrontado com o caso Charlie, não podemos ficar na aceitação integral de um lado - os bons - e na condenação total do outro - os maus. Ninguém esteve particularmente bem e os assassinos estiveram particularmente mal.

A segunda coisa que este acontecimento mostra é a hipocrisia da maioria das pessoas que, agora, se cobrem com o manto do Charlie. Uns jornalistas são mortos em França e todo o mundo lança manchetes na Comunicação Social. Um atentado igualmente terrorista contra uma escola no Paquistão passa um bocado ao lado nas notícias. Somos todos iguais - mas alguns continuam a ser mais "iguais" que outros.
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De lucklucky a 10.01.2015 às 13:27

O texto Diogo Moreira ofende a minha Civilização, logo, segundo as palavras do Diogo Moreira tenho o direito de o calar.

Por isso segundo a sua consciência Diogo Moreira nunca mais deve postar num blogue, senão devido ás suas provocações tenho direito a fazer tudo o que quero a si e aos seus, tudo segundo as sua conciência

Esta seria simples Lógica.
Mas parece que não chega sequer aí.
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De Diogo Moreira a 10.01.2015 às 18:47

lucklucky: se quer criticar o que escrevi, está completamente à vontade. Não invente, porém, argumentos que eu não escrevi.
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De Kruzes Kanhoto a 10.01.2015 às 15:28

Inteiramente de acordo. Vou matar o próximo que contar anedotas a ridicularizar os alentejanos!
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 00:15

Muito cuidado com as anedotas. E não chamem cegos aos invisuais, nem gordos aos fortes, nem carecas aos alopécicos. O respeitinho é muito bonito.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 00:21

Caro Diogo: tive de reler o que escreveu porque julguei não ter entendido bem à primeira.
Afinal entendi.
Você equipara os assassinos aos assassinados. Aponta responsabilidades a ambos.
Ou seja, põe uma caneta ao mesmo nível de uma AK-47.
Acho isso inaceitável.
Em matéria de direitos é inútil invocar qualquer outro quando não é respeitado o primeiro de todos: o direito à vida.
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De Diogo Moreira a 11.01.2015 às 01:13

Sugiro, Pedro, que releia o que escrevi. Não equiparei nada nos termos que diz. E sim, aponto responsabilidades a ambos, jornalistas e assassinos, de diferentes magnitudes.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 01:55

Diogo, o primeiro sinal de capitulação perante o terrorismo é precisamente esse: "apontar responsabilidades a ambos" no rescaldo imediato de um massacre.
Não podemos pôr carrascos e vítimas nos pratos da mesma balança, mesmo de "diferentes magnitudes".
Blasfemar é exercer um direito, por mais criticável que seja.
Matar é violar um direito. Desde logo porque o primeiro de todos os direitos é o direito à vida.
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De Diogo Moreira a 11.01.2015 às 02:33

Entre os portugueses, corre um ditado que diz que todas as pessoas são santas depois de mortas. Porém, olhando objectivamente para o legado de cada um, tal noção de santidade carece de sérios fundamentos.

Os jornalistas do Charlie Hebdo não eram santos. Tenho pena que as suas vidas foram extinguidas num acto bárbaro e cruel, às mãos de outros seres humanos.

E, se a história ficasse por aqui, a condenação para lá de qualquer dúvida de todos os actos terroristas/assassinos, creio que quase todos iriam assinar por baixo. Porém, a vítima imolada pelas armas não foram as quase duas dezenas de pessoas - segundo a maioria dos comentários que se foram fazendo um pouco por todo o mundo - mas o que foi "assassinado" foi a liberdade de expressão.

Ora, podemos embelezar quanto quisermos a liberdade de expressão que isso não a torna inocente. Existem actos de incrível crueldade e violência psicológica passados em nome da liberdade de expressão. E o Direito, nesses casos, está do lado da vítima. Por isso é que afirmo que a liberdade de expressão não é um direito absoluto.

A perda das vidas é lamentável a muitos níveis. A reacção desproporcionada ao ataque ao Charlie Hebdo deixa escondidos muitos outros atentados terroristas, que são lá longe e que ninguém (daqui) os conhece. Eu lamento todos os que, vítimas da intolerância dos outros, pagaram com a sua vida o "pecado" de existirem.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 11:47

Caro Diogo, os caricaturistas do CH não era santos - ninguém lhes chamou isso nem tal faria qualquer sentido. E nenhum direito é absoluto. Mas a colisão de direitos não pode ser dirimida pela lei da bala. Os nossos mais remotos antepassados, que viviam nas cavernas, resolviam os problemas matando e até comendo o opositor. O equivalente moderno a esse repugnante primitivismo é o que sucedeu dia 7, em Paris, na redacção do 'Charlie Hebdo'. Só que, em vez da pedra ou do pau ou da moca, havia armas automáticas nas mãos daqueles grunhos.
Fala-me em direitos. Pois bem, na escala hierárquica de direitos nenhum precede o direito à vida. Num mundo de mortos, seria absurdo invocar qualquer outro direito - nem haveria, de resto, ninguém para o fazer.
Acho inaceitável, com alguns cadáveres do massacre ainda por sepultar, falar-se na "violência psicológica em nome da liberdade de expressão" enquanto se reservam palavras mais contida para aludir à violação chocante, grosseira e bárbara do direito à vida.
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De Diogo Moreira a 11.01.2015 às 13:02

Pedro, estará porventura a afirmar, ainda que implicitamente, que eu não coloco o direito à vida como valor absoluto e fundamental? Bastará ler os meus comentários anteriores para logo chegar à conclusão contrária. Peço o mesmo que ao luckylucky: não invente argumentos que eu não escrevi.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 15:56

Provavelmente não interpretei bem as suas palavras. Você condena então, com firmeza inequívoca e sem considerandos laterais, o assassínio de 17 pessoas ocorrido esta semana em França (incluindo quatro caricaturistas do 'Charlie Hebdo')?
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De Diogo Moreira a 11.01.2015 às 18:30

Sim, condeno de forma inequívoca o ataque terrorista.
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De Pedro Correia a 12.01.2015 às 21:55

Muito bem então.
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De Manuel a 10.01.2015 às 12:46

Isto dá pana para mangas.
Imaginem por exemplo dois jovens ocidentais. Filhos de pais divorciados que estão lidar com graves problemas financeiros. Não tem tempo para os filhos, não tem dinheiro etc etc . Na escola, mais pobres e mal vestidos, são gozados, são vitimas do escárnio dos outros. Um dia entram na escola e matam 28 colegas. Um ataque á liberdade de expressão?
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 12:53

Nesse caso que refere os culpados são estes:
- Os pais
- Os colegas
- A escola
- A sociedade
E as vítimas, logicamente, são os assassinos.
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De Manuel a 10.01.2015 às 13:55

Ok, mas só mesmo para pensar:
Mas será que temos bem definido onde acaba a liberdade de expressão e onde começa o bulling?
Será que duas culturas que cultivam tão diferentes formas de viver, durante largos períodos de tempo, não serão civilizações diferentes?
Será que estes acontecimentos são o choque entre duas civilizações ?
Será que podemos coabitar pacificamente mesmo espaço, ou até mesmo no mesmo planeta?
Será que na busca da Paz não devemos negociar um tratado e estarmos dispostos a ceder um pouco naquilo que já conquistamos?

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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 00:09

Para mim, neste caso do 'Charlie Hebdo', é tudo muito claro: a culpa dos assassínios foi dos próprios assassinados. Se não tivessem feito aquelas caricaturas não teriam obrigado aqueles dois bons rapazes a matá-los.
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De Manuel a 11.01.2015 às 04:51

Não precisa ser irónico, pelo menos comigo não. Respeito-o pelo que pensa e respeito quem diz o que pensa.

Acredito que as religiões nascem de uma necessidade humana e que o seu fundamento é o do bem.
Acredito que todo o Homem tem sempre uma primeira vez para sentir que um dia terá de partir. É nesse momento que ganha a plena consciência de que está vivo e é nesse momento que se questiona acerca do que deve deixar feito, do que quer fazer, ou até do que quer emendar.
Esses objectivos também os tenho, são aquilo que me propus alcançar e chamei-os de sonhos e desejos, que passaram a ser os meus guias. São as luzes que me guiam e a essas luzes chamei-as de esperança.
A esperança é o sonho, o sonho conduz a vida, o sonho dá o sentido à vida.
Mais tarde percebi que o tempo é veloz e que os meus sonhos não estão realizados, então comecei a correr para os realizar, pois correndo quero tempo ganhar, mas felizmente que um dia percebi o tolo que sou, porque vivo a correr e cego não vejo que corro para morrer.
Adiante. Uma obra feita e perguntei-me: e agora? planeei e perguntei-me: e depois? projectei e perguntei-me novamente: e depois?
Percebi que estou de passagem e que depois não sei o que vai acontecer. Confesso que tenho medo de me perder, preciso de uma luz para me guiar, mas uma luz que venha do desconhecido não é coisa fácil de encontrar (é por aqui que entram as religiões).
Cada um vê com os seus olhos e eu vejo assim: perigo das religiões está na tentativa de responderem a todas as perguntas, respondem a tantas que acabam se tornando em doutrinas. Por sua vez, o perigo das doutrinas está nos seguidores que as assumem como sagradas, intocáveis e imutáveis, e como tal mantidas e até seguidas até ao mais ínfimo detalhe e extremo do seu fundamento.
Todo o extremo é prejudicial ao equilíbrio, e o equilíbrio mantém-se com respeito entre as partes. Logo devemos ter consciência e capacidade para conter impulsos, para que assim possamos regular minimamente as doses de liberdade que aplicamos ás questões da nossa vida.
Não posso concordar com uma liberdade que faz escárnio da Fé dos Homens, seja ela qual for, mas do escárnio dos bonecos dos cartoonistas até á barbaridade dos crimes de sangue vai uma longa distancia, tanta que faz disto um disparate atroz.
Mas mais me preocupa ainda é achar que este e outros atentados são manifestações de uma Humanidade cada vez mais baralhada num planeta cada vez mais pequeno e caótico.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 11:38

Muito bem. Vou então deixar aqui também uma síntese daquilo em que acredito, a propósito deste triste e lamentável e devastador atentado em França:
- O multiculturalismo que alguns elegem como bandeira nunca pode ser uma via de um sentido só.
- É intolerável vermos os mesmos de sempre apostados em transformar vítimas em carrascos e carrascos em vítimas.
- É inaceitável o relativismo moral de algumas sumidades bem-pensantes que tendem a equiparar quem mata a quem é morto em nome da expiação da culpa do "homem branco".
- Não há diálogo possível com quem nos ameaça com kalashnikovs. Não há diálogo possível com quem mata cartunistas, por mais odiosos que fossem os desenhos produzidos pelas pessoas assassinadas.
- O direito à blasfémia nunca pode ser excluído do cardápio de direitos fundamentais, seja qual for a religião que estiver em causa. É um direito inatacável, sem o qual o próprio conceito de sociedade aberta se desfigura por completo. É um direito do qual eu não abdico enquanto cidadão, mesmo que jamais o utilize por opção própria, na condição de crente.
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De Manuel a 11.01.2015 às 13:53

As vezes fica difícil não misturar blasfémia com escárnio, tanto para o emissor como para o receptor.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 16:01

Escárnio ou blasfémia, julgo ser irrelevante para o caso. Nada disto deve ser pago com a morte. Aliás para os adversários intransigentes da pena de morte, entre os quais me incluo, esta é uma questão resolvida à nascença. A questão é que o direito à blasfémia deve estar sempre contemplado na grelha dos direitos fundamentais. Mesmo que seja um direito que não venha a ser exercido.
Dou dois exemplos:
- Considero o direito à greve um dos mais importantes que vigoram nas sociedades abertas, de matriz ocidental. Mesmo que eu jamais venha a fazer greve.
- Nos termos constitucionais, admito que o Estado tenha o direito de declarar a guerra para efeitos defensivos. Mesmo que, em obediência às minhas crenças mais profundas, eu seja totalmente contra todas as guerras.
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De Manuel a 11.01.2015 às 17:21

Faço minhas as suas palavras. Podemos sempre tentar dialogar e ceder para evitar a Guerra, mas chega sempre o dia em que não mais podemos fugir dela.
Mantendo o foco na questão: escárnio é também provocação e provocação também pode ser declaração de Guerra. Ninguém no seu perfeito juízo se atreve a provocar um animal selvagem... Com isto não quero medir todos os muçulmanos pela mesma bitola, e o mesmo aplico a todos os grupos de Homens. Com isto não fujo do conflito, até porque não temos para onde fugir. Com isto quero apenas dizer que grandes diferenças culturais chocam conforme a incompatibilidade das suas diferenças. Este caso, as diferenças são tão grandes que podemos estar perante um choque de civilizações.
Com isto também posso me elevar, e de cima a olhar para baixo para ver que : um meio mundo quer impor a sua vontade sobre a do outro meio; para ver que ambos tem direito de lutar pelo que acreditam; para ver que ambos não perceberam que só podiam manter o seu caminhar até o dia em que se iam encontrar. O mundo é pequeno, não há muitas mais voltas para dar. (até rima)

Bom resto de Domingo.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 17:24

Bom resto de domingo também para si, Manuel. Julgo estarmos de acordo no essencial. E é importante, mais que nunca, procurarmos aquilo que nos une e não aquilo que nos divide.
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De Luís Rosa a 10.01.2015 às 13:13

Porque é que não me admira que seja um professor universitário? É a geração de '68 e as suas sequelas no seu melhor. Infelizmente isto não se vai resolver enquanto não se fizer uma grande fogueira das vaidades com os livros de Edward Said , Karl Popper, Michel Foucault , Jacques Derrida , Judith Butler, Gayatri Chakravorty Spivak , Louis Althusser , Sandra Harding , e de todos os gurus dos estudos marxistas/culturais/pós-colonialistas/Gender/desconstrucionistas que continuam a tratar a educação superior, não como a busca do conhecimento e da verdade, mas como mais uma ferramenta na luta contra um ocidente liberal e capitalista que culpam por todos os males do mundo, inclusive a derrota da grande utopia soviética.

Sempre que vejo professores deste quilate a comentar na TV, lembro-me sempre do grande, genial Foucault, após a Revolução do Irão, quando se começou a perceber que aquilo ia ser mais uma teocracia, a repreender as feministas iranianas que queriam mais direitos e liberdades, acusando as parvas de terem sido intelectualmente colonizadas pelos valores do Ocidente. Claro que sim, porque é que uma mulher inteligente, de livre vontade, haveria de querer mais direitos numa sociedade patriarcal onde ela é um cidadão de segunda? Só pode haver neo-colonialismo por detrás disso.

Não me importaria nada de soprar nas labaredas desta grande fogueira; mas se acharem isso excessivo, podemos sempre implementar a alternativa de pôr professores e alunos a ler Alan Soakal, Roger Kimball, Roger Scruton, Mary Midgley e Ibn Warraq, para contrabalançar a lavagem cerebral de estupidez que grassa no ensino superior no tocante às humanidades.

Ou podemos nem ler livros e simplesmente começar a aplicar o senso comum.
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De lucklucky a 10.01.2015 às 13:32

Não é surpreendente, só a endoutrinação - auto ou aceite, é capaz de mudar tanto a percepção da realidade.
Isso acontce primordialmente nas Universidades, Madrassas e escolas Religiosas.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 00:07

O caldo de cultura é o mesmo, Luís Rosa: é preciso "expiar" as culpas do Ocidente. Para todas as situações, a resposta vem sempre do catálogo 'prêt-a-penser': apontar o dedo acusador às democracias liberais vigentes na Europa Ocidental e na América do Norte. O regime terrorista de Assad na Síria é culpa do Ocidente. A oposição igualmente terrorista a Assad na Síria é culpa do Ocidente. Saddam foi culpa do Ocidente. O Iraque pós-Saddam foi culpa do Ocidente. As decapitações de jornalistas pelo chamado 'estado islâmico' são culpa do Ocidente. O assassínio de cartunistas do 'Charlie Hebdo' por fanáticos islâmicos foi culpa do Ocidente. O 11 de Setembro foi culpa do Ocidente.
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De ana cristina leonardo a 10.01.2015 às 13:35

Estes discursos são inacreditáveis. E lamentáveis. Será que esta gente alguma vez viu o Vida de Brian?!
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 13:43

À luz destes critérios 'A Vida de Brian' jamais teria visto a luz do dia, Ana Cristina. E é nessa direcção que fatalmente nos conduz toda a gama de interditos que nos cerca de manhã à noite nas suas diversas gradações - desde a mais banal anedota de alentejanos até à blasfémia pura e dura.
Isto não é recente: vem acontecendo nos últimos 30 anos por via das normas de correcção política norte-americanas. A triste novidade destes dias é verificarmos que a blasfémia deixou de ser punida com prisão, como sucedia nos velhos ordenamentos jurídicos ocidentais, para agora ser punida com a morte - abençoada por imãs e mulás e "compreendida" por algumas sumidades bem-pensantes cá da casa.

(Gosto de ver-te por cá)
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De lucklucky a 10.01.2015 às 15:53

Como deve bem saber o catalógo ofensas não acabam nunca, pois são pretextos para mostrar quem manda e assina-lá-lo para todos saberem e controlar o espírito do outro.

Vem no manual do Revolucionário.

Depois da Vida de Brian , virá uma mama à mostra numa revista numa banca de jornais, depois virá um ataque com ácido à evidente agressão xenófoba anti-muçulmana de uma mulher mostrar mais do que devia numa rua qualquer de uma cidade e assim por diante. Estava a pedi-las a burra.
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 23:57

A mama é reaccionária. Direi mesmo: a mama é fascista. A burca é revolucionária. Por isso temos todos de "compreender" a burca. E a mutilação genital feminina. Em nome da "interculturalidade".
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De Teresa Ribeiro a 10.01.2015 às 14:47

Muito bem.
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 21:41

Obrigado, Teresa. Registo com agrado a sintonia.
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De Marquês Barão a 10.01.2015 às 15:04

Não somos todos (BS) Santos
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 23:52

Alguns são santos. De pau carunchoso.
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De Piu a 10.01.2015 às 16:49

Quando Jesus Cristo andava a pregar pela Palestina, estava ou não estava a pedi-las?
- Os rabinos judaicos achavam que sim.
- Os romanos achavam que sim.
Qual a solução encontrada?
- Pregar na cruz o pregador blasfemo.

Que outro crime era imputável a Jesus senão a sua liberdade de expressão?

As más ovelhas das religiões, os Mau Més, feitos cabrões em vez de ovelhas, tomaram o fio da espada ou a chama das fogueiras contra os novos blasfemos. Em nome da vítima tornaram-se carrascos.

Sendo criacionistas, nunca perceberam que o desenho criador até pode permitir fechar os olhos, mas não permite fechar os ouvidos.
O homem que não se esconde não pode deixar de ouvir, a música e o ruído.

Descontentes com esta criação, os cabrões, que querem ver todos como ovelhas, preferem silenciar os inocentes, protegendo os seus preciosos ouvidos das bocas alheias.
Mas não há onde se esconder, porque não deixarão de ouvir na cabeça o eco das vozes amordaçadas. Esse será o seu inferno interminável.
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 23:54

Se Cristo andasse a pregar de Kalashnikov em punho merecia a "compreensão" de toda a tribo de sociólogos da Palestina. Sobretudo os da Universidade de Coimbra.
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De Fio a 11.01.2015 às 01:13

Maior compreensão parece haver com Maomé, que naõ tendo Kalashnikovs, mandou ceifar cabeças incómodas pelo fio da espada:

http://en.wikipedia.org/wiki/Nadr_ibn_al-Harith#mediaviewer/File:Muhammad_12.jpg

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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 01:57

Tome cuidado com eventuais infracções à "interculturalidade" decretada pelo professor Boaventura.
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De cristof a 10.01.2015 às 18:07

Nós na UE(digo isto mas vivo com medo que junto com os gregos e por ser preto não me empurrem para fora) temos conseguido, apesar de marias le pen,ukips, ventos..) criar uma sociedade desejada pela maioria dos cidadãos desse mundo.
Ainda devíamos reforçar mais a tolerância (não venha alguns moralistas ganharem alguma eleição), colocar numa directiva que ter um credo ou não ter nenhum é um direito inquestionável de todos, bem como o primado da liberdade de expressão em todos os meios de comunicação(incluindo net claro), responsabilizando cada um pelo uso que faz da mensagem.
Que a pratica dos credos, não revoga nenhum dos direitos gerais(expressão, mulheres, crianças, minorias..).
Pessoalmente gostaria de ver uma idade minima(14 anos?) permitida para iniciar o ensino e pratica dos credos - que como defendo é irrevogavel esse direito.
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 23:52

Caro Cristof: sobretudo é fundamental interditar desde já o direito à blasfémia. Não vá a ira de Alá abater-se sobre todos nós.

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