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Estaremos simplesmente a ficar velhos?

por João André, em 27.02.20

Uma das coisas que mais me fascinam são os textos pessimistas. Não falo de textos como os do falecido Vasco Pulido Valente, que apesar de invariavelmente pessimista, tinha esse pessimismo como resultado de um pensamento apurado e meticuloso. Eu discordava frequentemente dele e não me agradava a acidez dele, mas o seu brio intelectual era quase sempre inatacável.

Quando falo de pessimismo, falo daquele que, na maioria das vezes, assume de forma directa ou indirecta um cunho de "no meu tempo..." ou "já não se fazem como antes", ou até de "os tempos mudaram muito". Esta última instância é normal: os tempos de facto mudaram muito. Temos a Indústria 4.0  - ou a 4ª revolução industrial, mas hoje em dia (cá estamos) as coisas só são levadas a sério com um ".0" algures no nome. Temos Internet. Temos redes sociais. Temos internacionalizações e viagens facilitadas. Temos notícias na ponta dos dedos com uma velocidade e variedade incomparável na história humana (mesmo quando a precisão e a minúcia sofrem). As mudanças são muitas, mas são essencialmente tecnológicas ou derivadas de tecnologia.

Só que não são novas. Um dos tipos de textos que mais gosto de ler na The Economist são aqueles que traçam paralelos das queixas presentes com as do passado. É frequente esses textos fazerem referência a alterações (jornais, cafés, comunicações, automóveis, etc) especialmente do final do século XIX e notarem as preocupações que tais alterações induziam nessa altura. Por vezes os textos começam com excertos de (por exemplo) 1895  e nós somos levados a pensar que se escreve sobre algum caso actual. O texto do Sérgio, sem fazer juízos específicos sobre ele, lembra-me isso. Leio-o e, dos temas que acompanho, concordo em traços gerais. Pergunto-me no entanto se tal texto, com uma ou outra modificação, não poderia ter sido escrito em 1950, ou 1920 ou 1880.

Lembro-me com frequência de quando a RTP1 e RTP2 eram as únicas televisões e os telejornais não excediam a meia hora (que a seguir vinha a novela e depois o filme). Não vou queixar-me da qualidade da informação, mas antes de como hoje temos informação sobre tudo e mais alguma coisa. Se um homem matar a mulher em Cabeça Gorda no Alentejo, teremos em algumas horas directos do local, com os repórteres a repetirem as mesmas coisas de hora a hora e a dizer o estado do tempo só para encher chouriços. Em 1991, esse assassinato seria provavelmente ignorado, dado que não se podia enviar o repórter lá e isso só seria um problema se sequer se soubesse de tal caso. A realidade é que há hoje muito mais abundância de notícias e, com a natureza humana inalterada, "if it bleeds it leads", as notícias más serão sempre amplificadas nos noticiários e nas nossas mentes.

Estamos melhor hoje ou antes? Pessoalmente não creio que haja demasiada diferença, mas prefiro saber de mais um caso de violência doméstica, de insegurança rodoviária em Abrantes ou de falta de cuidados médicos em Sátão. Com essa informação sempre se pode exigir alguma coisa. De outra forma ficamos no nosso "vamos andando".

Há lados maus? Claro que sim, isso é inevitável. No entanto penso que, levando tudo em conta, o mundo continua, como sempre terá continuado desde há séculos, dois passos à frente e um atrás, a melhorar e a progredir. Teremos umas pestilências, guerras, fomes e mortes pelo caminho? Por algum motivo já vêm desde o Novo Testamento. São parte da natureza humana.

Por isso, mais que um regredir dos tempos, creio mais num avançar dos anos de quem profere (proferimos) estas palavras. Não é o mundo que está pior, mais perigoso ou mais feio. Creio que somos nós que estamos mais velhos. E o Restelo não está (pelo menos para mim) aqui nada perto.


13 comentários

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De marina a 27.02.2020 às 13:45

Bom , podemos começar pela demografia , a seguir passamos pelas escalas de valores , damos uma volta às relações pessoais ,uma vista de olhos às famílias desestruturadas , voltamos pela comunidades desaparecidas e , sei lá , acabamos na banca , a instituição mais importante da sociedade desde fins do sec.XX , substituta da igreja , para ver como tudo está essencialmente na mesma?
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De Vento a 27.02.2020 às 13:53

A sua reflexão é parcialmente correcta e parcialmente desfasada.

Correcta na medida em que os velhos do Restelo sempre estarão por aí rezingando sobre um tempo que eles mesmo perderam. Na vida do homem o tempo é sempre aquele que se vive e não o que está para trás. Portanto, quando alguém se suspende no tempo dá sinais que a vida para esses sempre esteve parada.

Incorrecta na medida em que os novos do Restelo parecem estar a escrever o fim da história. Esta escrita é feita de um revivalismo quase impronunciável que me faz lembrar que se contentam, para o bem e para o mal, com o que já foi escrito.

Porém, ambos, os velhos do Restelo e os novos do Restelo, algo possuem em comum: suspendem-se no tempo pensando que o tempo é outro. Não obstante, tudo igual em si mesmo.
Se algo nos indica esta última qualidade e condição, é exactamente constatar que ambos em matéria pessoal e de caminho no tempo ignoraram e ignoram por completo que o caminho é sempre interior para que o tempo não se esgote e a história continue.

Uma fórmula simples, e demasiado complexa de se realizar, é que ambos pretender ser o tudo: esquecendo que se alguém deseja ser tudo não pode desejar ser algo. É no ser-se alguma coisa que se perde a perspectiva de tudo e de si mesmo.
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De João André a 27.02.2020 às 14:06

Olá Vento. Peço que ignore a parte sobre "Restelo". Foi apenas uma piada minha quando referi a figura do velho. Os ingleses referir-se-iam a eles como luddites. Eu quis falar mais do pessimismo e não da rejeição da mudança em sis mesma. É um pessimismo com referência ao passado melhor, não ao futuro pior. Não sei se estou a ser claro...
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De Vento a 27.02.2020 às 14:09

Olá padrinho. Você deixou clara sua perspectiva. Como sempre, eu prolongo suas reflexões. Em tom de aditamento.
Ser velho e novo do Restelo nada mais é que esse pessimismo que se forja num tempo que se encontra suspenso.
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De Isabel Paulos a 27.02.2020 às 14:31

O pessimismo é as mais das vezes um consolo antecipado. Se estiver atento vai reparar os pessimistas levam quase sempre e subtilmente a água ao seu moinho. ‘Sabem-na’ toda. Essa é que é essa.
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De Luís Lavoura a 27.02.2020 às 15:08

o falecido Vasco Pulido Valente [...] tinha [...] um pensamento apurado e meticuloso. [...] o seu brio intelectual era quase sempre inatacável

Se o João André ler o Herdeiro de Aécio, verá que ele aponta a Vasco Pulido Valente frequentes faltas de rigor e de precisão, e a utilização de factos falsos ou inventados. Ou seja, tudo ao contrário daquilo que o João André aqui escreve.
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De o cunhado do acutilante a 27.02.2020 às 15:42

Evolução. A complementaridade de ontem e o aperfeiçoamento do amanhã. Se bom ou mau, isso ver-se-á, nada que perturbe o sono. Curiosidade sempre foi a mola impulsionadora que deu cor e significado à existência.
Em todo o caso há conhecimento adquirido desde o despontar que permanecerá imutável: as guerras pelo meio, que referiu. Essa são imprescindíveis para a desgraça de milhões proporcionarem o lucro de meia dúzia.
Tudo normal, portanto. Da habituação emerge o sábio. O mundo será sempre uma bola e continuará a girar, e as pessoas só têm que se saber equilibrar comme il faut.
Tudo portanto, uma questão de maior ou menor equilíbrio.
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De o cunhado do acutilante a 27.02.2020 às 16:11

Depois há os tais velhos que se insurgem contra este mundo moderno que esqueceu o quanto lhes deve. Ingratos, já nada é como era.
São aqueles que passaram pela vida sempre estendendo a mão para receber e nunca para dar.
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De Anonimus a 27.02.2020 às 18:04


Há os velhos que acham que está tudo mal, e os novos (de espírito) que acham que a mudança é sempre para melhor.
Estamos melhor ou pior que há 25 anos? Estamos diferentes.
O resto é uma questão de perspectiva.
Como bom saudosista dos anos 80, tenho consciência que aquilo foi glorioso... para nós crianças e jovens. Já os adultos, com duas vindas do FMI, não sei quantas crises petrolíferas, e a sustentar uma casa com salário miserável... os anos 60 é que eram.
(uma coisa posso no entanto afirmar: "antigamente" dávamos mais valor quer aos bens materiais, quer aos sentimentais. Não havia facilitismos)
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De João André a 27.02.2020 às 22:21

Dá-se sempre mais valor às coisas quando se tem pouco. Não troco.
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De Anonimus a 27.02.2020 às 22:35

Nem vou por aí. Nunca me faltou nada, bem pelo contrário.
Mas as coisas eram difíceis.
Querias falar com alguém longe, tinhas de escrever uma carta, ir comprar um selo, entregar, esperar pela resposta... por isso se dava valor. Um puto aparecia com uma cautchu, era para estimar, sabe-se lá quando era a próxima vez que se dava uns pontapés numa coisa daquelas.
Receber um brinquedo caro era um prémio, e uma afirmação de que eramos responsáveis o suficiente para ter e estimar uma coisa daquelas.
Agora, a amizade está à distância de um like, e um puto parte um telele amanhã tem outro. Melhor.
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De Cristina Torrão a 29.02.2020 às 15:33

Bela reflexão, parabéns!

Hoje ouço muito dizer aos jovens: vocês sabiam que antigamente vivíamos sem telemóveis e éramos felizes?

Quando tinha 15 anos e os meus pais e/ou avós achavam que eu via muita televisão, diziam-me: sabias que antigamente vivíamos sem televisão e éramos felizes?

Ou seja: tudo na mesma.
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De João Pedro Pimenta a 01.03.2020 às 23:14

Tenho tendência a concordar, João, até porque a natureza humana é imutável.

Mas depois fico a pensar que a recente revolução tecnológica e de comunicações mudou efectivamente o mundo como o conhecíamos, com alterações que até aos anos noventa achávamos só possíveis noutras galáxias ou noutras vidas.

Por isso, nunca me decido entre os versos de Camões ("todo o mundo é composto de mudança") e a frase de Salina/Lampedusa ("é preciso mudar uma ou duas coisas para que tudo fique na mesma").

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