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Esplanadas

por José Meireles Graça, em 10.07.20

De regresso de uma curta ausência, voltei à minha pista pedestre/ciclística, para o habitual passeio de pouco mais de 6 km, ao fim da tarde. Há a meio uma zona de descanso, com um bebedouro e bancos. Nestes nunca me sentei porque são bancos com design, isto é, de betão e desprezando a função, o que faz com que, como estão à torreira do sol, devam estar a escaldar, e como são mal desenhados devam ser desconfortáveis.

O conjunto, projectado decerto por um desses arquitectos contemporâneos cujo sonho é reinventar a roda, estava há muito rodeado de fitas e grades por causa do extremoso cuidado da edilidade com a Covid, que hoje já estavam removidas. Compreende-se: um dos frequentadores podia surpreender uma das frequentadoras descansando de suas corridas e, enternecido pelo aspecto afogueado da jovem, e pelos seus shorts e top reveladores, entabular amigáveis conversações que, não sendo seguro que desembocassem na produção de um novel munícipe, e portanto potencial contribuinte, poderiam ainda assim espoletar um novo surto de infecção.

Não que interessasse muito: a própria pista esteve encerrada enquanto durou o confinamento, com a adequada vigilância da Polícia Municipal, não fosse algum munícipe, dos poucos que por lá andam, lembrar-se de ir fazer exercício e, pior, pôr em causa o claríssimo abuso de autoridade dos senhores edis. Que evidentemente não têm competência para impedir a circulação por causa de manias da vereação e terrores de uma população atordoada pelo massacre obsessivo da comunicação social, que reclama proibições, multas, interditos e toda a sorte de abusos – porque a causa parece justa, o medo é muito, e a ignorância ainda mais.

Quando se fizer a história que vale a pena, isto é, não a da Covid, mas a da vasta reacção de pânico injustificado que tomou conta do mundo, haverá lugar para pôr em contexto o poderoso impulso que a doença deu a toda a casta de estatismos, toda a sorte de intervenções e estupidezes das grandes e pequenas autoridades, todo o reforço injustificado de poderes das polícias, todo o desnecessário dano para a economia, e toda a dificuldade para fazer regressar esses monstros para dentro das respectivas caixas.

Entretanto, e para a pequena história, houve inesperados benefícios. Na minha cidade, havia falta de esplanadas: a Câmara local sempre teve uma palavra a dizer, porque o espaço é público, e essa costumava ser não.

Não porque o poder se mostra em todo o seu esplendor quando rejeita a pretensão do requerente; não porque os engenheirozinhos, os arquitectozinhos, os vereadorzinhos têm a sua tradição, e essa não é a de facilitar, anuir, concordar, mas a de colocar obstáculos que lhes justificam a importância.

Sucede que as regras de afastamento que ditaram a redução do número de lugares nos restaurantes levaram a que quem pudesse tivesse pedido para fazer uma esplanada, e quem a tinha para a aumentar. E foi permitido.

No centro da cidade (o novo, essencialmente do séc. XIX) a praça é periodicamente sujeita ao capricho e à moda, ou à ideia que dela fazem os parolos locais: Já teve jardim e coreto, o jardim já teve uma cerca e portões, já teve uma estátua, a fonte que lá está substituiu outra (embora não exactamente no mesmo local) que foi exilada, e em 2011 houve uma requalificação, que consistiu em tornar o espaço insusceptível de ser um lugar de convívio: quase não há sombra, o piso empedrado (desenhando uma planta do centro da cidade, utilíssima para quem vier de helicóptero) reverbera o calor, e de um dos lados colocaram um extenso e dispendioso gradeamento dourado separando o nada de coisa nenhuma, uma obra de arte de uma tal Ana Jotta que em devido tempo irá para a sucata (a obra, não a artista, que felizmente não conheço), seu destino natural.

Nos passeios alargados, onde aliás circula menos gente do que em tempos pretéritos porque a cidade cresceu, tem outros polos e outros hábitos, cabem à vontade esplanadas. E começam-se a ver, não por causa do senso, que não costuma ser atributo inerente à condição de autarca, mas da Covid.

Donde, concluo filosoficamente que Deus, às vezes, escreve direito por linhas tortas, e a Covid também.


12 comentários

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De Vorph "ги́ря" Valknut a 10.07.2020 às 14:16

Muito bom!!
Tudo de bom José
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De Luís Lavoura a 10.07.2020 às 17:38

Isso das esplanadas é muito bom para quem nelas se senta mas, com frequência, constituem um grave inconveniente para quem precisa da rua para andar nos seus afazeres. As esplanadas estreitam a rua, há perto delas pessoas paradas, outras a passar da esplanada para o café que a serve e vice-versa, e o resultado é que as pessoas que precisam da rua para andar se vêem travadas pelas esplanadas, não raras vezes têm que andar aos encontrões umas às outras, fazer travagens bruscas, etc.
Acho que esplanadas é coisa que se quer com muita restrição. Onde o passeio seja largo e a esplanada esteja na borda dele, junto ao café que a serve, muito bem. Mas, quando o passeio não é verdadeiramente largo e a esplanada não se encontra na borda dele, mas sim junto à rua, é coisa totalmente de rejeitar.
Na cidade em que vivo (Lisboa), tenho pena que os autarcas não digam com muito mais frequência "não" a quem lhes pede para instalar uma esplanada.
Acresce que as esplanadas as mais das vezes não se destinam verdadeiramente a esplanar, a aproveitar o bom tempo, elas destinam-se somente a permitir que as pessoas fumem enquanto consomem. Não vejo qualquer benefício em instalar uma esplanada somente para promover o vício e o emporcalhamento do ar.
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De Jesus Lopes a 12.07.2020 às 18:52

é por pessoas como o sr.
que aparece logo com uma carabina de longo alcance matar quem quer e deve estar numa esplanada com ou sem covid-19 seja fumador ou não , é pessoas como o sr.
que quer que as autarquias confinem as pessoas nos centros comerciais,
tenha vergonha no que escreveu ,
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De Anónimo a 13.07.2020 às 07:56

Emporcalhamento do ar e do chão, pois o rasto de beatas fica a atestar a javardice legalizada. Acresce que em tempos de pandemia, alem das beatas, também as mascaras ficam largadas para ajudar a sujar mais um pouco.
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De Luís Lavoura a 13.07.2020 às 11:20

Em geral as esplanadas dispõem de cinzeiros e os fumadores nelas não atiram beatas para o chão.
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De Vento a 11.07.2020 às 11:22

Já percebi que o meu caro acredita em Deus, só não simpatiza muito com Ele. Quanto as coisas ficam a jeito as linhas endireitam-se e surgem as perspectivas filosóficas; e quando não ficam é um problema. É comum nos ateus e nos agnósticos estes momentos flutuantes. ;-)

Ariano Suassuna contava-nos a realidade de um casal sertanejo que tinha uma chacarazita. Aí o casal possuía um pequeno grupo de animais e plantava os frutos para sua subsistência.
Porém nessa parte do sertão não chovia fazia algum tempo. A mulher, sabendo do cepticismo do marido nestas coisas da crença, sendo devota, disse: vou orar ao minino Jesus de Praga para mandar chuva.

Nessa noite uma trovoada como nunca vista ocorreu nos céus do sertão. A chuva e trovoada era de tal forma forte que o homem ficou atordoado com as consequências que daí viriam: alagamentos e as trovoadas que podiam matar os animais.
De manhã dirigiu-se para o curral e viu alguns animais de patas para o ar, atingidos pelos relâmpagos.
Quando a mulher aproximou-se, perguntou: Como era mesmo o nome desse santo a quem você orou?
- Minino Jesus de Praga, respondeu.
- Eu logo vi que um trabalho desses só podia ter sido feito por um minino.

Portanto, José Meireles, a sua cidade ou vila ou aldeia também tem obras feitas por mininos e mininas. Eles também precisam crescer. Virá o momento em que, tal como o menino Jesus de Praga, eles também crescerão.
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De Vagueando a 12.07.2020 às 11:37

Gostei particularmente desta frase "Quando se fizer a história que vale a pena, isto é, não a da Covid, mas a da vasta reacção de pânico injustificado que tomou conta do mundo"
Começaria por dizer que o pânico começou por ser instalado pelos jornais que já assumiram que levaram as pessoas a confinar-se antes mesmo dos poderes que falam actuarem.
Curioso o facto de o terem feito, supostamente por estarem bem informados pela comunidade científica que, como se tem visto, pouco ou nada sabe sobre a doença, nomeadamente como se propaga, como se protege, como se cura.
Daí que tanto se critica os tais poderes (limitadores de liberdade) como se critica quem não vai atrás, como será o caso da Suécia, EUA e Brasil.
Claro que sou contra aos tais poderes limitadores da liberdade, não sei é que outra forma existe para não os usar e não ser penalizado por isso.
Boas voltas a pé e de bicicleta das quais também pratico.
Não tome este comentário como crítica é apenas e só a minha opinião.
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De Makiavel a 12.07.2020 às 12:02

Muito bom!
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De Anónimo a 12.07.2020 às 12:57

Por todo o mundo se restringiu, obrigatoriamente, a mobilidade das pessoas. Onde não foi feito, ou menos feito, os resultados estão à vista de quem quiser ver.

Mas há sempre iluminados que acham que só eles é que estão bem ... depois a ignorância é do outros ... enfim ... génios da sapiência.
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De RV a 12.07.2020 às 16:50

A maior parte das espalanadas devia acabar. Muitas vezes licença é dada aos proprietários após o café/bar/etc já ter aberto, e as pessoas esquecem-se que em grande parte dos locais as infraestruturas foram aprovadas sem uma esplanada. Quer isto dizer o seguinte: inúmeras vezes as esplanadas ocupam o espaço que antriormente tinha sido contabilizado para acessibilidades, a dimensão dos passeios e outros fica reduzida ao minimo para passagem, não minimo legal de acessibilidades legalmente definido. Gostava de ver muitas dessas pessoas que ocupam os passeios sem respeitar os outros a ficarem invisuais para perceberem.
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De Jesus Lopes a 12.07.2020 às 18:53

cada um deve escrever o que lhe vai na alma .
salazar já lá vai ,
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De s o s a 13.07.2020 às 00:01

continua a haver gente com lata, se calhar a mesma que lhe convem que a terra seja plana.

A teoria de que a doença covid devia grassar livremente, e como sempre haveriam sobreviventes, é, é , é.

Os tribunais deviam julgar ou o ministerio da saude recolher, tamanhos teoricos.

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