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Esperança entre pedras fumegantes

por João Pedro Pimenta, em 16.04.19

Vi e ouvi o mais belo coro de que tenho memória na Catedral de Notre Dame, há já demasiados anos. Quando se calou, houve um breve silêncio até alguns visitantes orientais desatarem a aplaudir, perante algum espanto e divertimento dos que assistiam à missa.


Com as imagens do último dia vieram-me outras recordações à memória, como a do Emmanuel, o grande sino  da Catedral, que vejo agora ser da época de Luís XIV, e que apenas levemente tocado já soava respeitosamente alto. Ver a "Igreja mãe de França", que resistiu miraculosamente a guerras mundiais e revoluções, deixa-nos num desespero impotente. Quando é que será novamente possível ouvir o seu coro divino?

 

Mas logo as primeiras imagens do interior de Notre Dame faziam adivinhar que nem tudo está perdido. O fogo não consumiu todo o interior, mas o centro da nave, por baixo do coruchéu que ruiu, está severamente danificado. Salvaram-se algumas das relíquias mais preciosas e até marcantes, como a suposta coroa de espinhos e o manto de S. Luís, mas o destino de boa parte é ainda incerto. Em todo o caso, o altar-mor resistiu. A cruz que o encima, essa, está lá. Como sempre.

 

O desastre afectou severamente a catedral, mas não a vergou. Parece até ter criado uma certa união e um novo espírito de esperança aos franceses. E Paris já passou por outras provações. Em 1871, depois de um cerco de meses, de ter perdido a guerra com a Prússia, de ver o seu próprio Imperador prisioneiro dos germânicos e da república ser proclamada, a Comuna pôr a cidade do Sena a ferro e fogo, destruindo numerosos edifícios antes de ser violentamente esmagada. A França estava de rastos. Pois em dez anos pagou todas as imensas indemnizações de guerra, reconstruiu os edifícios destruídos (à excepção do Palácio das Tuilleries, do qual ficaram os jardins, por razões políticas) e ainda organizou a exposição Mundial de 1878, como prova da sua vitalidade. Notre Dame de Paris voltará a ser a Igreja Mãe dos franceses.

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4 comentários

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De Elvimonte a 17.04.2019 às 00:05

Texto bem escrito, bonito, comovente, a fazer chorar as pedras da calçada, mas que não vai para além do óbvio.

No passado dia 17 de Março deflagrou um incêndio na igreja de Saint-Sulpice, também em Paris.

Incêndios em duas igrejas históricas, em Paris, em menos de um mês? A probabilidade de isto acontecer é próxima de zero. E quando assim é, podemos estar perante uma chamada aberração estatística, ou perante algo suspeito.

No que se refere ao incêndio na igreja de Saint-Sulpice, diz o Le Parisien em edição on-line:

"Pour la police, plus de doute possible : les flammes qui ont endommagé l’entrée de l’église Saint-Sulpice (VIe) dimanche après-midi n’ont rien d’accidentel. « Le feu est parti d’un tas de vêtements et les vêtements ne s’enflamment pas tout seuls », indique une source policière.

L’origine du sinistre est, selon les premières conclusions du laboratoire central de la préfecture de police, « humaine » et « délibérée ». "

( http://www.leparisien.fr/paris-75/paris-l-incendie-a-l-eglise-saint-sulpice-n-etait-pas-accidentel-18-03-2019-8034678.php )

E, neste caso, não restarão dúvidas.

Quanto ao incêndio de Notre Dame, a ver vamos. Repare-se na hora a que se dá conta do sinistro. Tenha-se também em atenção que, tanto lá como cá, a temperatura de auto-inflamação de materiais celulósicos é cerca de 180 º C, a que há que acrescentar uma massa crítica (função de vários factores) a partir da qual o incêndio é auto-sustentável.

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De João Pedro Pimenta a 17.04.2019 às 01:16

Creio que já lhe respondi noutro comentário. É verdade que em Saint Sulpice não parece nada acidental. Mas aqui nada indica que não o seja, mais a mais quando houve complexos trabalhos de reparação, que nalguns casos também em França, segundo testemunhas abonatórias, têm tido resultados infelizes deste tipo, e nem é em edifícios religiosos. Claro que não é impossível que não seja acidental, mas até ver, prefiro não embarcar em teorias da conspiração para arranjar culpados e descarregar neles toda a raiva. Porque é sobretudo disso que se trata.
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De JAB a 17.04.2019 às 17:09

Sim. Depois do susto inicial, da ansiedade pelo património, suspiramos de alívio... E todos retiraremos lições úteis destes acontecimentos. Eu estava particularmente preocupado por causa do órgão... que também escapou. Por outro lado, o "coruchéu" que ruiu até nem era assim tão antigo... e é possível (se valer a pena!...) reconstruí-lo
Quanto à maravilhosa musica que de vez em quando ressoa em Notre Dame, não foi por acaso que Paul Claudel se converteu ao escutá-la... nomeadamente as crianças da "maitrise".
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De João Pedro Pimenta a 18.04.2019 às 02:23

Incrivelmente ou talvez não, o que se perdeu datava sobretudo das obras de renovação da Catedral. Os mestres canteiros e pedreiros da Idade Média é que a sabiam toda.

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