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Espanha em transição

por Pedro Correia, em 20.05.15

Pancartas-multitud-Podemos-Madrid-AP_CLAIMA2015013

 Dirigentes do Podemos numa manifestação que reuniu 150 mil pessoas em Madrid (Janeiro de 2015)

 

Entretidos com mil e uma futilidades que ajudam a preencher o quotidiano nacional, os nossos órgãos de informação - e, em particular, os canais televisivos especializados em notícias, cujo horizonte por estes dias quase não abarca nada mais do que o futebol - parecem totalmente desinteressados das eleições municipais e autonómicas do próximo domingo em Espanha.

Fazem mal.

Porque o veredicto das urnas deve confirmar a tendência de pulverização do sistema político do país vizinho, fragmentando-o em quatro blocos partidários (enquanto condena os comunistas à definitiva irrelevância). Confirmando aquilo que já prenunciavam as recentes eleições antecipadas na  Andaluzia - da qual ainda não resultou a formação de um executivo, pois a indigitada presidente regional, a socialista Susana Díaz, já recebeu três chumbos consecutivos no Parlamento de Sevilha e poderá ter de sujeitar-se a novo teste nas urnas a partir de Junho.

 

Nas duas principais cidades, Madrid e Barcelona, a disputa está acesa como nunca. Não sendo de excluir que as candidaturas da esquerda populista, apoiada pelo Podemos, triunfem em qualquer dos escrutínios. Segundo a sondagem de domingo do El País, o Partido Popular de Mariano Rajoy poderá perder o seu feudo madrileno, onde mantém hegemonia há 24 anos, e os nacionalistas catalães deverão recuar do primeiro para o segundo posto em Barcelona.

Tempestade política à vista, pois. Que prenunciará tendências de voto para as legislativas de Novembro num país que leva quatro décadas sem coligações ao nível do Governo central - o centro-direita e os socialistas têm-se alternado no poder com maiorias absolutas ou fortes maiorias relativas completadas com pontuais concessões parlamentares aos nacionalistas catalães ou bascos.

 

A cultura do pacto vai ter de instalar-se em Espanha, à esquerda e à direita, com a erupção eleitoral do  Podemos e dos Cidadãos, que vieram abalar fortemente as rotinas dominantes na cena política espanhola. PSOE e PP (que resultou da fusão da UCD centrista com a AP conservadora) habituaram-se durante 35 anos a ditar as regras à vez pondo todos a falar a uma só voz. Esse tempo terminou, como o escrutínio de domingo indiciará sem ambiguidades e o de Novembro confirmará de modo ainda mais evidente.

São sinais de uma tendência generalizada na Europa que só agora vai chegando à Península Ibérica. E com inevitáveis reflexos nas próximas eleições portuguesas - mais do que alguns gurus da opinião imaginam por cá, ancorados às certezas de sempre como se a realidade teimasse em permanecer imutável.

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3 comentários

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De Veremos, como diz o cego a 20.05.2015 às 19:24

Poderá ser, mas entre o Ciudadanos ou o Podemos e o Livre que mudou de nome, o partido do Madaleno que a Amaral Dias açambarcou, os estilhaços do BE, ou o do Marinho Pinto que anda a viver de dinheiros europeus, irá alguma diferença...

Desconfio que a abstenção é que terá cada vez mais militantes. E que o de Pirescoxe terá motivos de satisfação, isto caso o dia das eleições não esteja demasiado agreste e permita a deslocação dos militantes de idade já um tanto avançada.
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De Vento a 20.05.2015 às 20:39

Coincidimos mais do que discordamos, Pedro. Excelente análise.

Creio que a nossa tradicional discórdia está nas causas que conduziram a tudo isto. O papão, ao contrário do que muitos pensam, não é o Syriza ou a Grécia, que até impulsionaram as mudanças por esta Europa. É sem dúvida todo um passado que se inicia com a terceira via, mas também, e acima de tudo, como se pretendeu apagar esse passado calcando as pessoas para beneficiar uma nomenclatura financeira internacional que tem passado ao largo em toda esta situação.

Só me recordo de uma conjuntura social semelhante no período que antecedeu as guerras mundiais. É isto que a história conta.
E a última guerra mundial tem efeitos no crash bolsista norte-americano, que arrasou também as economias europeias cujos governos, pelas taxas praticadas na américa, entenderam essa via como boa aplicação de seus fundos soberanos.

Não se esqueça que o crash ocorre em 1929. O partido nazi em 1924 só tinha 3% dos votos, em 1933 eles atingiram 33% dos votos e Hitler sobe ao poder em Janeiro deste ano. Mas os efeitos da recessão, e posterior depressão, não se faziam sentir só sobre a Alemanha.
Em 1938 Hitler anexa os sudetas e em 1939 invade a Polónia. Isto é, entre o inicio do crash bolsista e a guerra efectiva os povos não aguentaram mais de 9/10 anos com tanto desemprego, fome e falta de futuro. E Hitler manipulou muito bem esta situação para congregar a Alemanha.

Ou se negoceia, internacionalmente, o writte-off de uma grande parte das dívidas dos estados ou isto vai dar molhada. Espero que não usem a situação no médio oriente como pretexto.
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De JSP a 20.05.2015 às 21:56

Permita-me a transcrição de parte do último parágrafo da crónica de Fernando Ónega, em "La Voz de Galicia" de hoje, intitulada "El país de la gran indecision".

"...este cronista se dispone a esperar al dia 24 dispuesto a qualquier sorpresa. Incluso a que vuelvan algunas de las mayorias absolutas que todos hemos enterrado vivas".

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