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Escondido à vista

por Diogo Noivo, em 28.06.19

OtegiTVE.jpg

 

Arnaldo Otegi é um dos mais conhecidos e importantes dirigentes da esquerda abertzale, sector político nacionalista que apoiou o terrorismo etarra. Participou na fase inicial da última negociação entre o Governo de Espanha e a ETA, facto que usa como pedestal para se erigir como “homem de paz” e, dessa forma, ocultar condenações em tribunal por sequestro, enaltecimento do terrorismo e por tentar reconstruir o partido Batasuna (à época ilegalizado) a mando da cúpula da organização terrorista basca.

A televisão pública espanhola entrevistou-o esta semana, o que gerou a indignação colérica da imensa maioria dos partidos políticos do país. Tratava-se de mais uma operação de branqueamento, arguiam. Ainda que se perceba a fúria dos protestos, a crítica não tem cabimento. Parte da grandeza do Estado de Direito Democrático reside precisamente em garantir liberdades até àqueles que sempre o quiseram destruir. Por outro lado, tendo tempo para falar, Otegi é incapaz de esconder a sua verdadeira natureza e esta entrevista provou-o.

Abundaram os exemplos de mitomania e de apologia da violência, ainda que cínica e cobardemente encapotada, e há uma frase que os resume a todos na perfeição: “Lo siento de corazón si hemos generado más dolor a las víctimas del necesario o del que teníamos derecho a hacer”. Atente-se em mais do que tínhamos direito a fazer. Otegi referia-se a 850 mortos e 2500 feridos, 95% dos quais já em plena vigência do actual regime democrático. Sem nunca condenar a violência ou pedir perdão aos milhares de vítimas, Otegi explicita o princípio sinistro e insano que sempre conduziu a sua vida política: o direito a provocar dor, o direito a matar.

Como alguém escreveu, Otegi não é um homem de paz, mas sim um terrorista no desemprego. Quem conheça o personagem e a história de violência na qual foi protagonista não se espanta. Mas conclui que o fim da ETA não equivale ao óbito de uma cultura política de ódio que vê na violência um instrumento político legítimo, o que é preocupante porque Otegi e os seus correligionários têm hoje lugar em instituições políticas tanto em Espanha como na Europa. A dimensão desse lugar pode ser ampliada uma vez que Pedro Sánchez, Presidente do Governo espanhol, poderá celebrar acordos com as forças políticas abertzales para conseguir governar em minoria. Entre outras coisas, estes factos evidenciam o quão absurdo é atribuir ao VOX o lugar cimeiro na lista de ameaças à democracia em Espanha.


21 comentários

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De Vorph Valknut a 28.06.2019 às 13:54

Penso que na Irlanda as coisas não foram muito diferentes, com o IRA e o Sinn Fein.

O assassínio em nome de ideias, que levam, em correria, inocentes, é uma das caracteristicas da História dos Países.

Não entendo, não vislumbro na ETA nenhum particularismo histórico.

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De Luís Lavoura a 28.06.2019 às 14:38

Exato. Totalmente correto. A história do terrorimo no País Vasco e na Irlanda do Norte não são muito diferentes. E, pelos vistos, vão terminar mais ou menos da mesma forma. Só que, os ingleses manifestam um muito maior pragmatismo e um muito menor culto da vingança do que os espanhóis.
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De V. a 29.06.2019 às 12:51

Pois não — foram iguais: financiadas com dinheiro de grupos muçulmanos e grupos comunistas ligados a máfias variadas e ao tráfico de droga. Diversificação de fontes de financiamento, como se diz na gíria.
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De Vorph Valknut a 28.06.2019 às 14:06

Se tudo se resolvesse à volta de uma mesa redonda não haveria guerras. Também os soldados obrigados a combater guerras distantes são vitimas inocentes. Filhos, pais. E também eles matam, suportando o horror, num argumento qualquer de "inevitabilidade", de justiça, ou outra coisa qualquer.

Não tarda e ainda acaba por criticar a Carbonária, Os Repúblicanos, a LUAR, como se no Estado Novo houvesse uma oportunidade de diálogo que ditos revolucionários não previram. Sim o Estado Novo era diferente, mas para os bascos, inicialmente, o Estado Espanhol era ilegitimo.


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De Costa a 28.06.2019 às 16:21

Donde o caos, o terrorismo de estado, que foi a primeira república (ou seja a patriótica e louvabilíssima acção da, entre outros, Carbonária), está acima da crítica.

Santos, portanto. E ousar questionar é heresia. Ou pior.

Costa

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De Vorph Valknut a 28.06.2019 às 16:39

Questionar usando esse caminho, é meio caminho andado para louvarmos o Absolutismo, e D. Miguel, tão queridos pelas vastas camadas populares. E com jeito ainda defendemos o patíbulo, espetáculo de variedades popular.

Costa não olhe o passado com as vestes postas de hoje.

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De Costa a 01.07.2019 às 20:25

Ah, Vorph, não o constato com surpresa: para si os fins justificam os meios; e a extrapolação e presunção não conhecem limites. Parece até que você consagraria o delito de opinião no catálogo de crimes de um direito ideal.

Costa
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De João Pedro Pimenta a 29.06.2019 às 00:47

Por acaso na monarquia os republicanos tinham acesso à exposição pública e às eleições, e nem por isso deixaram de utilizar a violência e o terror (por intermédio dessa mesmas Carbonária).
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De Vorph Valknut a 29.06.2019 às 10:49

Que eleições, João? Portugal no inicio do séc. XX tinha uma taxa de analfabetismo de 80%, ao passo que na Alemanha era de 0,5%. As eleições seriam assim uma forma aleijada de legitimidade para um governo e um rei que governavam contra o país.

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De Costa a 01.07.2019 às 20:19

Enfim, os donos do poder nessa abençoada primeira república que sucedeu à tão malvada monarquia, cuidaram de reduzir severamente o direito de voto. Lá sabiam porquê.

Você, Vorph, evidentemente acha muito bem.

Costa
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De Costa a 30.06.2019 às 03:55

A mesma carbonária que tão abnegadamente "defendia" a liberdade de imprensa, nos tempos dessa primeira república, assaltando instalações de jornais e garantindo assim semelhante pluralidade de ideias. Cá está, gente acima de qualquer suspeita.

Costa
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De Luís Lavoura a 28.06.2019 às 14:36

Otegi [...] é [...] um terrorista no desemprego

Errado. Otegi nunca (que eu saiba) cometeu atos terroristas, logo, não é um terrorista. Pode ter feito a apologia do terrorismo e até ter sequestrado pessoas, mas terrorismo não fez (que eu saiba).

Atente-se em mais do que tínhamos direito a fazer. [...] Sem nunca condenar a violência ou pedir perdão aos milhares de vítimas

Gerry Adams, que é o análogo de Otegi na Irlanda, também nunca, que eu saiba, pediu perdão aos milhares de vítimas do IRA - e hoje é um político amplamente aceite na Irlanda, e que ninguém contesta que apareça na televisão. Nem, que eu saiba, as forças militares inglesas jamais pediram desculpa por terem usado de mais violência do que aquilo que tinham o direito a fazer. De forma geral, certos Estados que (ab)usam da violência jamais pedem desculpa por esse abuso. Otegi não está só nos seus defeitos.
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De Vorph Valknut a 28.06.2019 às 14:40

https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/mundo/noticia/bascos-formam-cordao-humano-de-200-quilometros-pela-independencia.ghtml

Atenção, percebo que o Estado espanhol não conceda/aprofunde as autonomias. Seria o fim da Espanha, e prejudicaria Portugal
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De Luís Lavoura a 28.06.2019 às 15:23

O País Vasco tem uma autonomia muito maior que as restantes regiões de Espanha, uma vez que tem autonomia fiscal. Portanto, se essa mesma autonomia fiscal fosse concedida às restantes regiões, ou pelo menos à Catalunha, isso não seria provavelmente "o fim da Espanha" nem "prejudicaria Portugal".
Os cantões suíços têm todos eles (e são 25, mais que as regiões de Espanha) substancial autonomia, incluindo autonomia fiscal, feriados próprios, língua própria, sistema educativo próprio, bandeira própria, etc etc etc, e nem por isso a Suíça acaba ou países seus vizinhos ficam prejudicados. Se a Espanha se transformasse numa "Confederação Ibérica" não acabaria, nem prejudicaria Portugal (de facto, se calhar até o beneficiaria).
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De Vorph Valknut a 28.06.2019 às 16:52

A história tem peso. A Espanha, não é a Suiça. A Espanha foi Imperial, a Suiça uma aristocracia burguesa de concelhos. Um acidente geográfico criado pela oposição entre os Habsburgos e os Hohenzollern, que ao longo dos séculos tem sido paraíso para ouros infernais. Não passa de uma montanha de jeito.
O fogo nacionalista espanhol não tem comparação com a frieza do interesse suiço. Sendo Portugal e Espanha bons companheiros de quarto , e sendo os nacionalismos, néctares de Marte, defendo a "União Ibérica".A União Europeia
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De Anónimo a 28.06.2019 às 20:06

Hohenstaufen....
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De Justiniano a 28.06.2019 às 16:24

Compreendo perfeitamente o Diogo e o seu apelo à grandeza e à magnanimidade do Estado de Direito Democrático (mas note que Otegui só intervém politicamente porque o direito assim o admite. Se o não admitisse, não seria menos direito nem menos democrático. O direito português não admitiria o Bildu nem outros partidos que enunciem como proposta política expressa a separação de uma parte do território do todo nacional). A confortável ilusão
Equivalente à ideia de os derrotar pela fartura. Esgotá-los a carne do lombo e natas!
O único lapso do Diogo é o de pensar, como muitos pensam, que Otegui deu, e daria sempre, um tiro no pé, confessando ao que vem e abertamente legitimando o exercício da violência como ferramenta política. Ora, não é lapso nenhum. Suicídio, de Otegui, seria renegar a violência e exclui-la do catálogo de ferramentas possíveis. O Otegui não está a falar para o Diogo, nem sequer para os Espanhóis. Otegui dirige-se aos Bascos, principalmente aos do País Basco e de Navarra.
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De Anónimo a 28.06.2019 às 19:21

Sugestão:

https://www.abc.es/opinion/abci-detergente-201906280007_notícia.html

E, já agora, tentar perceber quem foi Sabino Aranda...


JSP
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De Anónimo a 28.06.2019 às 19:23

Sabino Arana.

As minhas descuppas.



JSP
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De João Pedro Pimenta a 29.06.2019 às 00:45

Está envelhecido, o antigo mentor do Herri "lamento mas não condeno" Batasuna. Assim à primeira vista pensei tratar-se do cantor Marante.
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De V. a 29.06.2019 às 12:58

Isso da grandeza do estado democrático para mim é uma falácia intelectual — que esconde patologias variadas. O contrato social (entre o indivíduo e o estado) quando é quebrado por rebelião prevê a retirada das regalias de que usufruem o resto dos cidadãos e não a sua extensão por motivos românticos. Deixar que alguém que age activamente para a sua extinção mantenha os privilégios da cidadania é um acto de confiança que nunca será retribuído.

É por isso que não se deve deixar construir mesquitas nem acolher culturas que agem activamente para destruir a cultura de acolhimento. Nessas falácias da grandeza e do somos todos bonzinhos quando nascemos mas o capitalismo é que nos corrompe não acredito.

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