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Escolhas Sabáticas

por Francisca Prieto, em 18.06.15

Em Maio de 66, Lisboa foi brindada com uma actuação de Morte e Vida Severina: uma peça de teatro brasileira que casava o belíssimo texto de João Cabral de Melo Neto com as notas cristalinas de Chico Buarque que na altura não passava de um anónimo estudante da Faculdade de Arquitectura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

A peça tinha tido um sucesso estrondoso no Brasil e a repercussão junto do público e da crítica foi tal que o espectáculo viajou para a França, onde recebeu o grande prémio do Festival Universitário de Nancy.

À boleia do festival gaulês, o elenco aproveitou para fazer uma paragem por Lisboa e apaixonou assolapadamente o público alfacinha, conseguindo a proeza de se fazer ouvir em eco progressivo para além das paredes do Teatro Avenida por muito e muito tempo.

Passados uns anos, a minha mãe, que na altura era professora da cadeira opcional de teatro no Liceu D. Filipa de Lencastre, tendo à sua frente uma data de raparigas de enfadados dezasseis anos, lembrou-se do fulgor da brisa trazida do lado de lá do Atlântico e propôs-lhes levar a cena uma versão nacional deste grande êxito do Chico.

Logo se juntaram várias alunas que entusiasticamente trataram de dar o seu melhor para que a empreitada fosse levada a bom porto. De entre todas, havia uma rapariga especialmente empenhada. Não havendo na altura forma de conseguir registos das composições musicais, muito menos site de internet de onde se fossem sacar as letras, a Ana, conhecida por ser um às da viola, levou a coisa a peito e, durante tardes a fio, tratou de passar repetidas vezes uma velha cassete no leitor e assim, só de ouvido, conseguiu reconstruir na íntegra toda a banda sonora da peça.

 Por alturas do segundo período, quando os ensaios andavam ao rubro e pelos corredores do liceu não se ouvia outra coisa que não fossem as canções da Morte e Vida Severina, a Ana foi chamada à reitora do liceu. Era excelente aluna, mas nos últimos meses as notas tinham caído a pique. A reitora avisou-a que, ou se aplicava, ou ia perder o ano. Que era melhor deixar-se de teatrices.

 A Ana, com uma serenidade pouco comum à sua idade, respondeu: “Minha senhora, perder um ano não tem qualquer importância. Anos há muitos. Mortes e Vidas Severinas é que há só uma”, e continuou a participar animadamente em todos os ensaios.

O ano lectivo acabou e a peça subiu ao palco com um sucesso equiparável ao da versão original brasileira. Os pais choraram, abraçaram-se, cantaram da plateia para o palco, as alunas retribuiram do palco para a plateia, enfim, uma emoção sem igual à conta das desventuras do retirante nordestino Severino.

A Ana teve realmente aproveitamento insatisfatório, pelo que foi obrigada a repetir o último ano do liceu.

Passada uma década, estava a minha mãe numa estação de metro quando repara numa rapariga que se aproxima com um grande sorriso. Cumprimentou-a, adivinhando tratar-se de uma antiga aluna (foram tantas que lhes perdeu a conta). Ela, percebendo que não estava ser reconhecida, apresentou-se pelo nome e remeteu a minha mãe para o contexto da Morte e Vida Severina. Contente por a ter reencontrado e curiosa por saber o que tinha sido feito daquela rapariga, a minha mãe perguntou-lhe se tinha seguido a carreira musical.

Ao invés da previsível réplica de perdição, ouviu-a, numa voz de mulher e em tom seguro, anunciar que agora era médica, que depois de ter repetido o sétimo ano tinha conseguido entrar na faculdade de medicina e formar-se com distinção. E fez questão de sublinhar que o ano da Morte e Vida Severina tinha sido a coisa mais extraordinária que lhe tinha acontecido na vida.


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